31 de out de 2008

Bocejo

Um bocejo bem dado tem o seu valor. Dependendo da ocasião, pode valer mais que um cochilo no sofá da sala. Ele provoca torpor momentâneo, fecha os nossos olhos e apaga a luz dos pensamentos. Relaxa da ponta do pé ao fio do cabelo. Às vezes parece que vem com travesseiro.
Um bocejo dos bons não escolhe hora nem lugar para dar o ar da graça, apesar de ter uma certa preferência por tardes chuvosas e ambientes corporativos. É o cérebro mandando dizer “chega, deu, vou pra casa”. E, por um momento, os neurônios acreditam.
O bocejo é indiscreto, quase escandaloso. Adora legendar a preguiça com um ahhhhhhhhhh cheio de agás. Se a gente tenta seguir as regras de etiqueta e coloca a mão na frente da boca, ele se esquiva, dá um jeito de sair por entre os dedos. E se apertamos os lábios para segurar, aí mesmo é que ele faz careta.
Deve estar comprovado em alguma comunidade científica que o bocejo tem, sim, vontade própria. E sabe ser persuasivo. Se ele quiser que a gente estique os braços para cima e alongue as costas para os lados, é o que vamos fazer. Se ele decidir ter companhia, outros bocejos serão desencadeados como uma hola de estádio em final de campeonato.
De tão sincero, o bocejo contagia. A outra pessoa é pega de surpresa e quando vê já abriu a boca. Não é que nem o espirro, que sai como um grito. Quem boceja sussurra um poema sem se preocupar com as rimas.
Se fosse uma pessoa, o bocejo seria alguém que vive no mundo da lua, daqueles que não se estressam e não envelhecem tão cedo.
Difícil explicar o que é o bocejo. Um direito adquirido. Uma cama king-size no meio do nada. Um convite irrecusável ao ócio. Um milhão de dedos fazendo massagem nos ombros da gente. Um alerta contra filmes chatos. Uma aula de democracia: ricos e pobres bocejam da mesma forma. O o que muda é o hálito.

P.S.: durante esse texto, o bocejo se pronunciou 27 vezes. Concordou com o raciocínio, corrigiu o português, levantou e foi dormir.

30 de out de 2008

Até que a morte os separe

A história de amor de Bruno e Catarina começou onde muitas terminam.
-Você vem sempre aqui?
Seria a cantada mais previsível do mundo se eles não estivessem no cemitério. Ela desviou os olhos da lápide e encarou o homem ao seu lado. Ele era bonito. Aquele tipo de beleza cafajeste que tanto atrai e trai as mulheres.
-Estou perdido, não acho a saída.
Quem sabe respondendo logo ele sumiria do mesmo jeito que apareceu.
-Desça a escada no fim do corredor, à direita.
-Desculpe, eu não quis dizer o que você acha que eu quis dizer.
Catarina ficou em silêncio. Voltou a olhar para a foto envelhecida do homem e da mulher abraçados. Com cuidado, ajeitou as rosas vermelhas que decoravam a lápide.
Constrangido por interrompê-la, Bruno tentou ao menos ser gentil.
-Seus pais?
-Não. Eu não conheço os dois.
-Estranho... quer dizer, as rosas vermelhas.
-Fui eu que trouxe as rosas ontem. Não acho estranho. Eles eram um casal. Pela fotografia, apaixonados. Merecem rosas vermelhas e não flores horríveis de defunto.
-Ontem?
-Se você está realmente perdido, venha. Eu mostro a saída.
Catarina saiu caminhando e Bruno foi atrás. Com tantas perguntas na cabeça, ele abriu a boca apenas para dizer o seu nome. E perguntar o dela. Alguns lances de escada depois, contou que veio para se despedir de uma tia. Chegou tarde demais, se perdeu, perdeu o enterro. Mas não era sobre isso que ele queria falar.
-As rosas. Ontem. Hoje. Você vem sempre aqui?
Catarina respondeu que sim, que gostava de ir lá para pensar. Sempre que tinha um problema, e os problemas a perseguiam ultimamente, escolhia uma lápide e ficava horas pensando. Na vida dos outros, na causa da morte, o que tinham deixado para trás, como reagiram os familiares. Um exercício de ficção que geralmente melhorava a sua realidade.
-Olhe a vida que tem nesse lugar. Quantas histórias para contar.
E apontou para duas lápides, uma próxima da outra.
-Prestou atenção nos sobrenomes? Na semelhança das fotos? Pai e filho. O pai pediu para ser enterrado perto do filho, eles sempre pedem. Esperou vinte e quatro anos, compare as datas.
Bruno, cada vez mais curioso, queria saber algo sobre Catarina. Por que ele não encontrava uma mulher dessas na noite, numa festa. Justo no cemitério. Quantos anos ela deveria ter? Era uma mulher bonita, olhos e cabelos profundamente negros, ar triste, pernas que fariam a alegria de alguém. E que profissão ela teria, para estar numa quarta-feira à tarde no cemitério?
Quando ele se deu conta, já estavam na calçada.
-Agora você deve saber o caminho. Tchau.
Bruno ficou parado. Se ela fosse embora a pé, podia oferecer uma carona. Catarina chamou um taxi e entrou. Antes que ele cogitasse a hipótese hollywoodiana de seguir uma mulher que conheceu há 20 minutos, lembrou que seu carro estava estacionado do outro lado do cemitério.
Durante a semana, Bruno pensou em Catarina muitas vezes. Leu obituários de jornais, tentou achar algum pretexto para voltar lá. Idéia absurda, comentaram os colegas num chope de fim de tarde. Absurdo era enxergar o rosto de Catarina em todas as mulheres que cruzavam o seu caminho. A garçonete, mostrou Bruno. Parecia Catarina.
-Você não disse que ela é morena? Essa daí é loira, cara.
Bruno nem ouvia. Fazia planos para o feriado que se aproximava. Finados. Ele ia acampar no cemitério se fosse preciso. Ia fazer plantão um dia antes e um dia depois. Tudo para encontrar mais uma vez Catarina. E a encontrou.
-O cachorrinho tem telefone?
Catarina o olhou de relance, como da primeira vez. Ele sempre dizia a frase menos apropriada ao momento.
-Olha que eu mando o Tom avançar...
-Não é o que você está pensando. Sou veterinário, Catarina. E nunca sei como puxar conversa com você.
-Flores de plástico! Como alguém tem a coragem de plantar flores de plástico numa lápide?
Bruno ficou parado, enquanto ela praguejava os familiares sem coração.
-Eles visitam no primeiro Finados, no segundo aniversário. Depois botam flores de plástico, para não precisar voltar tão cedo.
Aos poucos, Bruno conseguiu mudar de assunto - não muito. Descobriu que Catarina trabalhava numa clínica de quiropraxia. Endireitava colunas, estralava ossos. Ossos que, por mais bem-tratados que fossem, acabavam ali, engavetados. Os que desafiavam o tempo eram tirados dos caixões e colocados em caixas ou sacos de lixo, cedendo espaço para outra pessoa da família.
-Aposto que você visita cemitérios quando viaja.
Catarina já estava na calçada, se despedindo.
-Sim. O da Recoleta é o meu preferido.
E lá se foi Catarina, deixando Bruno mais curioso do que nunca.
Ele mudou o trajeto de casa para passar na frente do cemitério todos os dias. Pensava nela o dia inteiro. Estava obcecado, como diziam os amigos. Apaixonado, como ele dizia para si mesmo.
Numa das idas ao cemitério, Bruno encontrou Catarina. Dessa vez, numa fotografia. Era ela sorrindo. Na lápide, seu nome, a idade, a sacanagem do destino. Olhou a data. Sua morte tinha acontecido dez dias atrás.
Bruno chorou por tudo que não aconteceu entre os dois. Pelas perguntas que ele não fez. Pelo beijo que nunca daria em Catarina. Por tudo que poderia ter começado entre os dois se aquela carona tivesse acontecido. Bruno chorou e sentou no chão. Ia ficar ali, esperando, até que aparecesse alguém da sua quase futura família.

27 de out de 2008

Revista Claudia Bebê, outubro 2008


Já passei por dois partos, um de cesárea e outro meio-a-meio: senti todas as dores de um parto normal mas terminei na faca. Eu poderia falar das contrações e refletir por que nenhum hospital coloca revistas pra gente se distrair enquanto espera a próxima. Poderia lembrar da experiência gutural de gritar por um homem (no caso, o anestesista). Ou falar da sensação de ser costurada e não ter a chance de escolher a cor da linha.
Em vez disso, vou contar os olhares que mais mexeram comigo e que lembro até hoje. Podem inventar ecografia em 5D. Podem transmitir as imagens lá de dentro num sistema pay-per-view. Mas nada nesse mundo supera aquele momento mágico em que você finalmente olha para o serzinho que acabou de sair da sua barriga e se dá conta de que, apesar de tudo que vocês já passaram juntos, ele é um estranho. Então você analisa o nariz, o queixo - o resto você nem olha mais porque já está hipnotizada. A partir dali, seu olhar vai ser eternamente parcial e apaixonado. Se foi um encontro às escuras planejado pela obstetra e seu marido, nunca deu tão certo.
O outro tipo de olhar que ficou marcado na minha memória não tem nada de poético. Foi logo após o nascimento do meu primeiro filho, quando meu irmão nos visitou na maternidade. Ele babou pelo sobrinho, depois olhou para mim e ingenuamente disse:“ué, achei que a barriga saía.” O que mais doeu foi ele ter falado exatamente o que eu estava pensando. Eu, que li tudo sobre gravidez, também fui ingênua a ponto de me imaginar saindo da maternidade com as roupas e a barriga de antes.
Já explicaram a você por que ela não some depois do parto? Culpa sua. Nove meses alisando, passando óleo de amêndoas, fazendo cafuné, olhando de frente, de lado, de costas, idolatrando, conversando com ela sem parar – a coitada da barriga se apega! Cria vínculo. Acha que é da família. Quer mais, como qualquer criança mimada. E vai ficar mais alguns meses com você só de birra.
Como é praticamente impossível uma grávida não paparicar sua barriga, o mínimo que você pode fazer é ser compreensiva. Por nove meses, você a tratou como filha única de mãe solteira. Mas não se iluda. Foi apenas circunstancial. Nada mudou desde que a primeira mulher das cavernas parou nas margens de um rio, viu sua pança refletida e, chorando, descobriu que carne de tiranossauro era calórica.
Mulheres odeiam barrigas, essa é a verdade. O único momento na vida em que a relação se deturpa é durante a gravidez. Uma avalanche de hormônios circulando pelo corpo cega qualquer mulher. A barriga vira o centro do universo. Enquanto isso, seu umbigo vai se transformando num botão de sofá capitonê.
A sala do parto é o divisor de águas. Aquela afinidade que vocês tinham antes, sinto informar, vai embora com a placenta. Em vez de cafuné, agora você quer estrangular sua barriga com um zíper de cintura alta. Quer torturá-la com a série mais cruel de abdominais. Sorte dela que sua energia está momentaneamente direcionada para intermináveis mamadas, trocas de fralda e noites em claro.
Mais cedo ou (geralmente) mais tarde, a barriga se dá conta de que está sobrando. Numa terapia de regressão ao útero, começa a diminuir. Volta a ter oito meses, depois sete, seis, cinco até sumir por completo – com algumas felizardas, isso acontece.
Depois o filho cresce, a cicatriz fica imperceptível, o umbigo sobrevive e, apesar do biquíni ser um momento difícil, na hora de tirar fotos uma mãe sempre pode puxar os filhos pra bem perto (mais especificamnete, pra frente da sua barriga) e sorrir dignamente.

24 de out de 2008

Do contra

Litoral. Auge do verão. Três da tarde. João sacode a areia das suas Havaianas, veste a camiseta para cobrir a sunga e entra num tradicional restaurante à beira-mar. Desafiando a moral e os bons costumes praianos, chama o garçom e pede filé com fritas.
O outro faz que não ouve. Coloca o cardápio aberto na sua frente e indica a
casquinha de siri, especialidade da casa.
João sabe que a casquinha deles é famosa, que vem gente da cidade só para comer duas, três, quatro. E ainda levam o que sobrou para casa. Ele não vê graça nenhuma em carne de siri. Para falar a verdade, tem nojo da casquinha reciclada. Devolve o cardápio e repete o pedido: filé com fritas. Mal passado. Quase vivo.
O garçom continua com a caneta aberta, esperando. Oferece Congrio, Merluza,
Peixe Rei, Taínha, Namorado, Linguado. Um filezinho sem espinhas, quem sabe? Faz bem para a saúde. Se ele tiver alguma preferência, é só pedir que o cozinheiro dá um jeito.
Sim, ele tem preferência. O bom e velho filé com fritas. João fica com mais vontade ainda de comer carne sanguinolenta. Não é porque alguém definiu que na beira da praia só se come peixe que ele vai desistir. E por que a implicância com o coitado do boi? Da batata ninguém diz nada.
O garçom não sabe mais o que fazer para dissuadir o cliente. Inconformado, chama o dono do restaurante. João ameaça ir embora. Confusão na mesa quinze. Postas de peixe à doré esfriam nas mesas vizinhas.
Como o cidadão entra num estabelecimento que vende excelentes frutos do mar há 45 anos e pede carne vermelha? A honra do tataravó Euclides, um mago na tarrafa, como é que fica? Sem falar que desse jeito ele tira o ganha-pão de humildes pescadores que todos os dias madrugam e enfrentam os perigos do mar para buscar peixes frescos. Quem sabe ele experimenta uma lula à vinagrete, em homenagem ao presidente? Ou camarão gigante? No bafo? À milanesa também fica uma delícia.
João respira fundo. Pede o cardápio novamente. Mostra que ali dentro está escrito carnes e, embaixo, filé com fritas. Sim, responde o garçom. Filé com fritas, a pé, a cavalo. Mas isso é de praxe, está escrito para encher linguiça. Ninguém come carne vermelha num restaurante especializado em peixes. Não faz sentido. Ele nem lembra quando foi a última vez que um cliente comeu algo que não fosse peixe. Seria como pedir risoto numa pizzaria.Quatro da tarde. Eles vencem, pero nem tanto. João muda o pedido antes que desmaie de fome. Um frango grelhado, pelamordedeus.

22 de out de 2008

Banquete

Depois de um longo inverno de privações, Mosquito levou a família para comer fora. Os veranistas estavam invadindo o litoral como nuvens de gafanhotos, o que significava uma imensidão de carnes brancas e tenras à livre escolha. Isso era a própria visão do paraíso para quem havia passado os últimos meses se alimentando dos pescadores locais com seus corpos magros, as peles torradas e extremamente salgadas.
Mosquito e sua prole esperaram o sol se pôr e, naquela hora em que todos da sua espécie saem voando e devorando por aí, passearam de rua em rua até decidir onde iriam comer. Os moradores sentados na frente das casas facilitavam as coisas, parecendo menus de restaurantes fixados nas calçadas. Será que os borrachudos e os pernilongos, primos do Mosquito que moravam em outros estados, também tinham tanta fartura?
Uma perna pendurada do lado de fora de uma rede abriu o apetite da Mosquita, que nem estava com tanta fome assim. Nessa mesma casa, crianças corriam soltas pela grama e um bebê dormia no carrinho - sangue puríssimo, um néctar dos deuses. Já que o ambiente parecia limpo e familiar, a decisão estava feita. Humanos, aqui vamos nós.
Mosquito recomendou que os filhos evitassem carnes de pescoço e avisou para que tivessem muito cuidado com os tapas. Conhecidos de outras praias já o preveniram de que os veranistas estavam particularmente violentos nesse ano. E as crianças que não aceitassem nada estranho para cheirar. Se todos se comportassem, poderiam repetir a sobremesa.
Depois, o casal de mosquitos escolheu um recanto mais afastado onde o pessoal jogava cartas e foi para baixo da mesa. Enfim, sós. Ficaram ali conversando. Logo iriam mordiscar um pé ou uma canela. Falaram do futuro, fizeram planos de tentar a vida na cidade antes que os primeiros ventos do inverno soprassem. Quando alguém cruzou uma perna e bateu a fome, Mosquito e Mosquita se serviram de todas as carnes que encontraram. E sentiram nojo. Custava tirar o protetor solar da pele? Gente porca, eu hein.


21 de out de 2008

Eles e elas

O departamento de Recursos Humanos tinha uma missão: fazer com que os funcionários se sentissem tão à vontade, mas tão à vontade, que fizessem o Número Dois no horário comercial. Mais precisamente, no banheiro do trabalho.
-Por que eles não pedem para a gente lamber a térmica do café?
-Ou arrotar no meio da reunião?
Enquanto algumas pessoas nem haviam digerido a notícia ainda, grandes fóruns de discussão aconteciam na Central do Corredor. Quem já não havia passado pela situação de entrar no banheiro imediatamente após alguém ter poluído o local e levar a culpa? Imagine não poder mais usar a clássica desculpa de “não fui eu, o banheiro já estava assim”? A intimidade versus o constrangimento.
Fazer o Número Dois dentro de um ônibus, numa viagem obscura de oito horas onde ninguém conhecia ninguém era uma coisa. Agora dentro do ambiente de trabalho, na claridade das lâmpadas fluorescentes onde todos todos se chamavam pelos apelidos era caso de calamidade pública. Não haveria gravata ou bico fino que revertessem a situação.
Antes que o convite virasse uma ordem, todos começaram a pensar em soluções mais plausíveis. Nunca mais ingerir alimentos sólidos, por exemplo. Ou fazer o Número Dois só na hora do almoço, em banheiro de shopping e de restaurante. A turma dos radicais queria programar uma constipação coletiva, provocando o uso em massa do plano de saúde e levando a empresa à falência.
O RH, agora carinhosamente apelidado de Recursos Desumanos, ouviu os anseios de cada departamento. Mas foi irredutível.
-O Número Dois agora se faz no trabalho. E parem de chamar cocô de Número Dois!
Para ele, nada demonstrava mais cumplicidade numa relação corporativa do que o empregado realizar seus afazeres intestinais no banheiro do empregador. Na tentativa de criar um clima mais propício, aromatizadores de última geração foram instalados. O genérico de papel higiênico foi substituído por marcas de textura delicada e os funcionários responderam um questionário dizendo se preferiam papel higiênico com perfume ou neutro. O tempo de permanência ficaria a cargo de cada um, desde que ninguém achasse que estava realmente em casa e esquecesse da vida lá dentro.
As situações de crise sempre geram soluções brilhantes. Alguns passaram a usar o banheiro do andar alheio. Outros importaram máscaras do carnaval de Veneza para entrar e sair incólumes. Os práticos fizeram uma vaquinha e compraram revistas comunitárias. Houve quem pedisse para colocar um laptop com internet liberada em cada banheiro. O tempo foi passando e aos poucos todos se acostumaram a fazer o Número Dois entre uma reunião e outra – isso quando não entravam falando no celular e seguiam a conversa lá dentro. Até que um dia o Pedroso do Suporte fez o Número Dois de porta aberta. Não era para ficar à vontade?
A Diretoria deu descarga no pessoal do RH e arrancou as plaquinhas de Eles e Elas. O papel higiênico desapareceu da empresa e os banheiros foram subitamente ocupados por caixas de papel carta, recibos e grampeadores. Nem o Número Dois, nem o Número Um.
Os colegas não sabiam se atiravam o Pedroso no poço do elevador ou se erguiam um busto de clipes em sua homenagem.

15 de out de 2008

Aqui se faz, aqui se paga

A porta do ônibus abriu e os primeiros passageiros subiram. Duas mulheres e três homens. Nenhum com vetê - os abomináveis vale-transporte. Wanderson era mesmo um cobrador de sorte.
-Um passinho à frente, faz favor!
A frase ecoou dentro do ônibus, totalmente desnecessária. Wanderson não precisava mais pronunciar seu bordão já que agora, trabalhando na madrugada, o ônibus estava sempre vazio. E o que era melhor, os passageiros pagavam em dinheiro. Assim ele podia realizar sua tara mais secreta: dar o troco.
Tá achando estranho? Todas as taras são estranhas. O cara gostava de manipular moedinhas, de fazer múltiplas combinações de centavos e prorrongar ao máximo o momento-êxtase: a entrega do troco nas mãos do passageiro, o ok silencioso e o barulho da catraca despachando o cidadão.
E não era uma tara tão secreta assim. Tomé, o motorista, tinha certeza de que o colega gostava mesmo é de esfregar os dedos na palma da mão alheia. Wanderson nem perdia tempo explicando. O seu negócio era outro, ele gostava de sentir o peso do metal. Se pudesse, queria ser uma máquina de parquímetro para ficar o dia inteiro recebendo moedinhas sem precisar devolver nenhuma.
-Ô, meu! É pra hoje ou pra amanhã? - disse o passageiro na sua frente.
Tomé foi obrigado a estacionar o ônibus. Wanderson estava branco (eu contei que ele era um negão lindo?) e com os olhos parados, um fio de baba escorrendo pelo canto esquerdo da boca. Após levar um tabefe na cara (o motorista sempre quis baixar o sarrafo no tarado), Wanderson voltou a si.
-É... essa... nota... de... vinte... reais... - balbuciou.
-Que foi, nunca viu, mané? - disse o passageiro, sem a menor paciência.
Óbvio que Wanderson já tinha visto notas de vinte reais. E teve que repetir que seu negócio era outro, ele gostava de sentir o peso do metal.
-Ele vai levar todo o meu troco!!!
E levou. Não sobrou uma moedinha na gaveta. O ônibus arrancou e Wanderson ficou ali, amarelo como a cédula de papel que acabara de receber. Como desgraça pouca é bobagem, a próxima da fila pagou a passagem com vetê.
-Aqui se faz, aqui se paga!!! - praguejou o cobrador.
Não deu outra. O tal passageiro desceu duas paradas depois e foi atropelado por um caminhão de telentulho. Morreu na hora. Wanderson correu para socorrer suas adoradas moedinhas, que ainda respiravam no bolso do defunto. E devolveu a nota de vinte. Ele era tarado mas não era louco.

14 de out de 2008

De bandeja

Devia ser proibido ir direto do trabalho para aniversário de criança. Último dia de trabalho, então, deveria ser considerado crime inafiançável. Prisão Perpétua. Cadeira elétrica com choque duplo nos genitais.
A tristeza de deixar para trás amigos queridos. A saudade antecipada. Os abraços sinceros. A força para não molhar o rímel. As oitos horas mais longas da vida. O e-mail de despedida. O chalalá de partir para novos desafios. E depois aquelas bandejas de docinhos dizendo “vem cá regular a lenta, querida”.
Alguém gentilmente coloca uma bandeja na minha frente, como se percebesse um desejo latente de afogar as mágoas na glicose.
-Agora não, obrigada.
-Come, você está tão branquinha.
Pensando bem, um porre de branquinhos seria perfeito. Segurar o pelotine transparente como quem ergue uma taça de cristal e mandar ver. Para começar, vinte branquinhos um atrás do outro, sem sentir o gosto. Só o açúcar descendo redondo e queimando a garganta. Os granulados fazendo cosquinha e subindo direto para o cérebro. Depois mais vinte brigadeiros para alcançar aquele estado débil-alegre-foda-se. Com tantas crianças gritando e subindo pelas paredes, ninguém vai reparar se eu enrolar a língua na hora do parabéns.
A consciência fala mais alto. Lembro das horas investidas na esteira, do prazer de vestir uma calça muitos números menor e levanto da mesa. Já comi um papaya antes de sair. Vou até a janela tomar ar. Quem sabe um guaraná diet com gelo.
O menino mais suado da festa (talvez do mundo) engole o gás hélio de um balão e fala com voz de pato. Uma risada automática escapa da minha boca – é piada velha, mas relaxa como dedos fortes massageando os ombros numa sessão de shiatsu infantil.
De repente a tensão desaparece. Amanhã é outro dia e outra vida. Converso com as pessoas, passo batom, me ofereço para limpar um nariz ranhento, quase tiro os escarpins e entro na fila da cama elástica. Parabéns para eu mesma, que finalmente consegui relaxar.
Quanto às tentações alimentícias, lembro de um truque testado e aprovado em regimes passados. Imagino que aquelas bombas calóricas são docinhos de plástico. E também os salgadinhos, os cachorrinhos, a torta fria, a mãe do aniversariante. Tudo cenário.
-Aceita um caramelado?
Que sacanagem. Ela deve ter lido meus pensamentos. É como oferecer champanhe a uma pessoa com sede. Aceito, sim. A bandeja inteira. Caramelados são meu ponto fraco. Sento numa mesa do canto e começo com os amarelinhos. Minhas mãos suam de euforia. A calda derrete e gruda nos dedos. Não importa. Um brinde a quem inventou esse Lexotan docinho. Enxergo muitas bandejas de caramelados se multiplicando pelas mesas. Sinto que é hora de abandonar o recinto quando me deparo com um brigadeiro comido pela metade, já melequento na toalha da mesa, e devoro o infeliz. Saio antes de pedir ao menino mais suado da festa um gole de fanta uva.

10 de out de 2008

Da série "crônicas que viraram anúncio"

Já tem tanta desgraça por aí. Do jeito que a coisa anda, prefiro ser otimista nas pequeníssimas coisas.

Entrei na cozinha e lembrei o que fui buscar lá. Achei o carro no estacionamento do shopping. Liguei para casa e todos estavam bem. Não precisei fazer conta de cabeça nem ler manual de instruções. Liguei o rádio do carro quando estava dando uma música que eu gosto. O vôo não atrasou. Meus órgãos vitais funcionaram conforme o previsto. Abri a porta e o jornal estava me esperando. Acordei com o cabelo bom e com quem eu amo do lado. Não fiquei presa atrás do caminhão de lixo. O soluço parou. O salto do sapato permaneceu intacto. Se é que algum dia vou ter síndrome do pânico, não foi hoje. Entrei no meu jeans recém-lavado. Não recebi ligações de telemarketing. Perdi a parte de trás do brinco e logo encontrei. Causei uma boa impressão em alguém. Não quebrei minha caneca preferida. Na sala de espera, achei uma revista que ainda não tinha lido. O telefone tocou de madrugada e era engano. Tiraram uma foto e eu saí bonita. O fio dental não arrebentou no meio dos dentes. Tomei um copo de água a mais e uma xícara de café a menos. Corri e o joelho não doeu. Escapei da reunião de condomínio. Não faltou luz quando eu estava dentro do elevador. Minha batata frita veio sequinha. Não fui abduzida. Ao longo do dia, parei em quinze sinaleiras e não fui assaltada quinze vezes. As canetas mantiveram uma distância regulamentar da minha camisa branca. Nada caiu da bolsa. Não achei asa de cupim nos móveis. Parou de chover bem na hora em que levei meus filhos no colégio. Passei por alguém que fumava e consegui trancar a respiração a tempo. Cheguei em casa antes de começar a novela. Esqueci de ligar o celular e sobrevivi. Lembrei de me espreguiçar antes de sair da cama e de encolher a barriga antes de entrar na reunião. O pingo de azeite caiu no guardanado de pano. Não fiquei famosa e pude andar tranquila nas ruas. Encontrei uma amiga do colégio e ela estava com mais rugas do que eu. Estacionei entre dois carros de primeira. Passei batom e não fiquei com os dentes sujos. Tive vontade de assaltar um banco mas desisti a tempo. Não precisei cozinhar. Mudei de perfume e perceberam. Almocei com quem eu mais queria. Não me pediram dinheiro emprestado. Recusei uma fatia de torta. Soltei o sutiã sem ninguém ver. Lembrei que faltava queijo antes de chegar no caixa do supermercado. Consegui fazer o DVD funcionar sozinha. Salvei a vida de uma formiga. Nenhuma espinha saiu no meu nariz. Ouvi uma piada boa. Mandaram um beijo para mim. Levei o ferro de passar roupa para consertar e ainda estava na garantia. Fui convidada para ver desenho no sofá. Se alguém falou mal de mim, não fiquei sabendo. Tirei uma felpa sem fazer chorar. Espirrei e disseram saúde. Quis tomar um suco geladinho e tinha. Saí do banho e a toalha estava no seu devido lugar. Do jeito que a coisa anda, ganhei o dia.

9 de out de 2008

Amor de mãe

A babá demitiu a mãe da criança por justa causa. A mãe não era mais a mesma desde que Isabel nasceu.
No início, chegava pontualmente para conferir se a água do banho estava na temperatura ideal. Comprava sabonete cheiroso e xampu que não ardia os olhos do bebê. Fazia questão de trocar as fraldas sempre que estava em casa, levava ao pediatra, fazia aviãozinho com as últimas colheradas da sopinha.
Depois Isabel foi crescendo, a novidade passou e a mãe começou a se ausentar. A babá avisava que tudo estava pronto para o banho e a mãe não ia conferir a roupa escolhida, nem tirava fotos da menina ensaboada. Ouvia contar que Isabel tinha caído do sofá e não dava um beijo mágico tipo cura-tudo.
A babá não dizia nada. Ficava com o coração cortado, beijava ela mesma o galo na testa da Isabel. Ia nas reuniões com a professora, assinava boletins. A cada dia que passava, percebia que a mãe não respeitava os horários. Saía cedo demais, voltava muito tarde. E tinha que engolir desculpas esfarrapadas como “ganhei dois ingressos de cinema”, “ganhei uma aula grátis na academia”. E a criança, sem ganhar atenção.
Depois que todos iam dormir, a babá corria para o seu quarto minúsculo e conversava com o silêncio: “vou demitir essa relapsa, isso não pode ficar assim”. Onde já se viu uma mãe que não brinca com a criança, que não pergunta se ela comeu bem, se aprendeu passou novos no balé.
A babá sabia que ela mesma era a grande culpada por essa situação. Ela fez vista grossa por muito tempo e, na ausência da mãe, assumiu um filho que não era seu. Confiou que a mãe não ia se atirar nas cordas, que ia viajar menos a trabalho, que ia levar a menina na pracinha nos dias em que estava em casa. A babá tirava folga e, quando voltava, encontrava a criança no mesmo lugar. Com cheiro de mofo. Sem maçãs rosadas no rosto.
Um dia, a babá chamou a mãe para uma conversa séria. “Dona Cássia, há quanto tempo a senhora não pega a Isabel no colo, não diz para essa menina que é louca por ela, não faz cosquinhas? A senhora é mãe há 5 anos, já devia ter aprendido que a menina sente sua falta. Por mais que eu me envolva, que ame a Isabel e tenha a chave da casa, não é a mesma coisa. E olha que eu sempre cumpri com as minhas obrigações. Usei uniforme branco, conheci o meu lugar, nunca cantei o seu marido, nunca botei a menina contra a senhora. Assim não dá, se não se endireitar, vou ter que demitir.”
Sabe o que a mãe respondeu? “E o fundo de garantia, será que eu tenho direito?"
Foi aí que a babá decidiu demitir a mãe por justa causa, para ela sair com uma mão na frente e outra atrás. Se não gostava de ser mãe então porque teve a menina?
Na primeira noite depois da demissão, a babá não conseguia dormir. Foi no quarto da Isabel. Abriu um pouco a janela, destapou seus pés. Fechou a janela de novo, cobriu seus pés com o lençol. Pegou sua mãozinha caída e ajeitou embaixo do travesseiro, como ela gostava. Sem querer, a acordou. Sonolenta, a menina sorriu e disse “boa noite, mãe.”

7 de out de 2008

Turistas

Eles beijaram as crianças e saíram.
Beijaram fraco para não acordar e ter que explicar de novo que voltariam depois de amanhã – as crianças entenderam logo, a explicação era para eles mesmos.
No caminho para o aeroporto, ele ouvia o silêncio dela. E pensava se já beijava ela agora ou depois.
Ela pensava se tinha deixado os bilhetes na porta da geladeira, os cobertores extras, o telefone da ambulância, o termômetro ao alcance, a caixa de leite, as bananas e maçãs. Depois parou de pensar para não estragar a viagem.
Queria ter deixado morangos, mas não encontrou. Queria ser menos boba. Queria ter fugido antes.
Agora eles estavam no taxi. Eles e a mala cheia de tempo livre. Para onde mesmo eles iam?
Os dois queriam ir um para o outro.
E rir um do outro. Contar piada sem graça.
Lembrar coisas – qualquer coisa. E dizer frases sem sentido.
Dançar podia ser, mas eles não sabiam.
Queriam entrelaçar os dedos das mãos enquanto caminhassem. Depois fazer cosquinha com o dedão.
E conversar até ficar sem voz – era tanta conversa guardada que eles poderiam cruzar oceanos conversando.
A rua mais comprida seria percorrida em um segundo. Ou horas, sei lá – o relógio não embarcou porque deu overbooking.
Eles olharam para trás, para ver se não tinha ninguém seguindo.
Ufa.
Só os dois era tão bom que chegava a ser estranho.
Sabe quem pediu para vir junto? O ponto turístico. Um, não. Muitos. Ouviram um “não” bem grande.
O mapa ameaçou sair da gaveta e entrar na mala – podia ajudar a achar o caminho. Eles repetiram a mesma desculpa que deram para o city tour: bobagem, a gente já volta.
Se quisessem dobrar à direita, sim.
Se quisessem dobrar à esquerda, tá.
Se ela dissesse que era para atravessar a rua, claro.
Se ele achasse que os dois já tinham passado por ali, também.
Se a mesinha de um café os encontrasse na calçada seguinte, quem sabe.
Se uma livraria abrisse os braços, que bom.
Se quisessem comprar brinquedos, sempre.
Se um dissesse para o outro “olha lá”, onde?
Se ela perguntasse para ele tu me ama, muito.
Se já fosse hora do almoço e eles sentissem vontade de comer nada, combinado.
Se ela quisesse pegar um elevador e subir no último andar, na mesma hora.
Se ele quisesse dar um beijo sem motivo, oba.
Se o mar molhasse as barras das calças deles, e daí?
Se ela quisesse ligar para casa, não agora. Mais tarde.
Se um turista pedisse para tirar foto, uma só.
Se os raios do sol quisessem namorar com os cabelos dela, pode.
Se os pés cansassem e desse vontade de sentar na areia, a tarde toda.
Se ela inventasse uma frase poética, ele ia ouvir. E rir.
Se os beijos fossem tantos que sobrassem, deixa assim. Beijo nunca é demais.
Se as entradas para o teatro caíssem na rua, melhor.
Se ninguém juntasse do chão, entendi.
Se eles voltassem logo para o hotel, agora mesmo.
Se no outro dia chovesse ou fizesse sol, tanto faz. Só os dois já estava perfeito. Eles não precisavam de muito mais.

5 de out de 2008

A Mansão Fonseca para Chefes Imaginários

Os quartos eram em número suficiente para acolher todos os chefes que só existiam na imaginação dos funcionários. Eles chegavam aos montes, sempre sorridentes, educados, generosos e absurdamente prestativos.
Ao circular pelos corredores da mansão, os chefes imaginários encontravam o mesmo ambiente corporativo: sala de estar de reunião, sala de jantar de reunião, cozinha de reunião, banheiro para eles e elas, divisórias no lugar de paredes, máquinas de xerox e de café em cada andar e muitas portas falsas de elevador.
O triste é que na Mansão Fonseca para Chefes Imaginários não havia para quem distribuir lucro e entregar bloquinho extra de ticket-restaurante no fim do mês. O senhor Fonseca, dono da mansão e o mais antigo chefe imaginário da casa, disponibilizava power points, flip charts, gráficos e folhas de rascunho para passar o tempo. Difícil era explicar para chefes tão perfeitos por que eles tinham sido dispensados.
No início eles não perguntavam nada. Trocavam cartões, contavam piadas. Quando passava a novidade, entendiam o que estavam fazendo ali. Nada - absolutamente nada. Eles eram fruto da imaginação de gente que não os queria mais. E sem aviso prévio, o que eles jamais fariam. Rejeição pura. Dura realidade.
Não que esses trabalhadores finalmente tivessem encontrado chefes bacanas de verdade. Muito antes pelo contrário. A decepção era tanta que eles preferiam abrir micro empresas e passar para o lado de lá do computador. Ao acreditar que eles próprios poderiam ser chefes ainda melhores que os criados por sua imaginação, mandavam os simpáticos engravatados para a Mansão Fonseca.
Esses ex-funcionários nem imaginavam que num futuro próximo também seriam fonte de inspiração para seus funcionários criarem novos chefes imaginários.
Chefes que chamavam funcionário de colaborador. Que jamais ligavam para incomodar quem saía de férias - e que obrigavam todo mundo a tirar férias. Ofereciam térmicas com suco de laranja e capuccino. Sabiam os nomes dos filhos de sua equipe. Davam abraço de feliz aniversário e aumento sem pedir. Jogavam futebol com a galera e depois pagavam a cerveja. Liberavam todo mundo mais cedo na sexta-feira. Elogiavam, motivavam, sorriam, encantavam.
Ainda bem que a Mansão Fonseca para Chefes Imaginários tinha um belo terreno ao redor. Dava para fazer um puxadinho e receber muita gente.

2 de out de 2008

Para Roberta

Roberta, seja bem-vinda. Agora você faz parte da família. Aqui as portas estão sempre abertas e a geladeira, cheia. Já que toquei no assunto, esse é um dos motivos porque trouxemos você para cá. Nós precisamos de ajuda. Oferecemos sacada, comida light e top lavado. Além de silicone regularmente. Em troca, queremos incentivo. Sete dias por semana, chova ou faça sol. Feriados inclusive. E que o cansaço do trabalho jamais nos afaste.
Roberta, escolhemos esse nome para enxergar em você não uma esteira, mas uma amiga do peito, dos glúteos e das coxas. Alguém de carne, osso, aço e lona. Quando você ficar sozinha em casa, pode apostar que estamos no trabalho e no colégio. Se quiser ligar a TV, sinta-se em casa. Mas não espere ter a nossa companhia em domingos de sol. Temos filhos pequenos e precisamos levar as crianças para arejar.
Roberta, as academias não são páreo para você. Também São Pedro não é mais uma ameaça. Queremos ouvir o seu motor funcionando. Queremos comemorar cada quilômetro avançado, cada caloria queimada. Queremos suor e lágrimas – tudo que evite a retenção de líquidos. Com seu porte atlético, esse painel tecnológico e seus oito amortecedores, você veio para ficar.
Nos próximos meses, suas prestações vão pesar como uma bomba de chocolate no nosso extrato bancário. E pode ter certeza de que vamos pagar com gosto cada uma delas. Mas desde já precisamos fazer um pacto: você custou caro demais para ser transformada em cabide. Para pendurar roupas, preferimos os de plástico. No passado tivemos uma esteira manual que, além de ser pré-histórica, marcava muito as roupas.
Roberta, sem cenas de ciúmes. Aquela outra nem nome tinha. Os tempos são outros. Os pesos também. Para continuar com a consciência leve e a cintura fina, elegemos você como a nossa personal-tudo. Olhe como sua presença mudou os hábitos da casa. Estamos alongando antes e depois – sem pressa, contando até 30 em cada posição. Por sua causa, resgatamos o colchonete e os abdominais. Encaixamos o quadril. O jantar perdeu o foco das atenções.
Roberta, você instituiu uma saudável competição entre nós. Agora disputamos para ver quem chega primeiro. Logo vai ser preciso implementar um sistema de agendamento, talvez mandando e-mails durante o dia ou correndo ao redor da quadra. Sem dúvida, com você nossas noites ficaram mais energéticas. O suor redentor, o banho quente e depois cama. Na manhã seguinte, poder dormir mais um pouquinho e acordar com aquela sensação gostosa de panturrilha dolorida. Roberta, desculpe se repito muitas vezes seu nome. Talvez seja o meu inconsciente registrando você no álbum da família. Bem ali, pertinho das lembranças dos amigos queridos, das férias de verão, do cheiro de leite fervido na casa da minha vó, do cheiro de grama recém-cortada, do perfume do churros de doce de leite do Café Tortoni, do aroma inesquecível daquele cachorro quente de carrocinha que comi num parque em Londres - viu como preciso de você, Roberta?

1 de out de 2008

Ata

Ninguém vai escrever isso na ata da reunião, mas pode apostar que o Miranda do 603 está de olho na Janete do 204 – justo a síndica. Não vejo outro motivo para explicar esse súbito interesse no prédio. Até o tamanho dos sacos de lixo ele comentou. Daqui a pouco o homem vai pedir para ver a planta elétrica da garagem.
Reunião de condomínio com duas horas e meia de duração é pior que chamada extra. Se o Miranda não tem consideração por quem ainda não jantou, que tenha dó da velhinha do 802 – olha ali a coitada segurando a chave da casa como quem se agarra ao terço.
A gente chega cansado do trabalho e tem que aguentar vizinho contando que achou cupim na caixa de correspondência só para impressionar. Formiga dentro do armário da cozinha é mil vezes pior. Por que o Miranda não corta o fio do telefone, se enforca no meio da sala e chama a Janete para resolver? Ela não é de se jogar fora, só que síndica é que nem irmã de amigo. Não dá para pegar porque acaba em confusão. Depois como é que o cara vai reclamar do preço da jardinagem? E se os dois brigarem, como é que vão dividir o mesmo elevador?
Ele vai perguntar sobre o vazamento. Perguntou. Eu já senti cheiro de gás no corredor, todo mundo já sentiu, coisa de nada. O prédio não vai explodir por causa disso. Se for tudo pelos ares, só vão sobrar as baratas e nenhuma delas vai se preocupar se queimou a lâmpada dicróica do hall de entrada – sim, o Miranda incluiu no seu monólogo esse requinte de decoração.
Logo hoje que a novela vai estar boa ele resolve contar que encontrou xixi de cachorro no chão da garagem. Regra Número Um: não seja louco de tocar em assunto polêmico na reunião de condomínio. É o atestado de não tenho nada melhor para fazer em casa. Regra Número Dois: qualquer animal de estimação causa polêmica. O cachorro estava apertado, promete não fazer de novo. Ruim é ouvir vizinha chamando pulguento de filhinho.
E agora o Miranda inventou de falar nas rachaduras do prédio. Outra polêmica que rende horas de reunião. Deixa o prédio envelhecer, Miranda. Você também está cheio de rugas e nem por isso vou mandar passar argamassa na sua testa. Próximo assunto, por favor – e que seja o último. Reunião de condomínio devia funcionar como leitura dinâmica. Rachadura... portaria... salão de festa... fim.
-Posso ajudar na tomada de preços. Do jeito que estão os juros, é melhor fazer cinco orçamentos.
Cinco! O homem quer fazer orçamento ou balanço contábil? A Janete não consegue disfarçar o sorriso, logo vai convidar o Miranda para conferir o balanço do colchão.
-Que gentil, Celso.
Celso! A gente mora dez anos no mesmo prédio e pensa que conhece todo mundo. Então o mané se chama Celso.
-Será que não é o caso de orçar também uma impermeabilização completa, Jan?
Jan! Esse já está tirando o lixo de outro apartamento. Jan e Celsinho ao vivo. O mundo acabou e eu não sabia.
-Quem sabe a gente faz uma votação para ver se pinta a fachada do prédio de caramelo médio ou creme claro? Mas só se os porteiros usarem gravata da mesma cor.
Esse sou eu e o meu espírito-de-porco. Se não posso comer a chuletinha que sobrou na geladeira, então ninguém vai jantar hoje. A síndica notou o sarcasmo e tomou a palavra.
-Bom, já está tarde. Proponho encerrarmos a reunião. Os assuntos pendentes eu trato depois com o sub-síndico. Para quem não sabe, é o Senhor Celso do 603.
-É muita responsabilidade, gente. Por isso eu me ofereci.
Os sobreviventes da chacina condominial não têm nada a declarar. Que conste na ata: o Miranda está matando a síndica.