31 de mar de 2009

Nostalgia

Acredita que eu vi um selo de verdade? E que selo bonito! Em tempos de e-mail, msn, sms, twitter e sei lá mais o que, eu fui surpreendida por um selo moderninho. Quando o homem do correio colou o selo no envelope pardo, o colorido gritou. Chamou minha atenção. Deu saudade de receber uma carta escrita à mão (lembra?). E rasgar o envelope ansiosa - coisa que hoje eu só faço com a fatura do cartão.

Convicção é tudo

Um amigo do meu filho caçula almoçou lá em casa hoje. Batata frita liberada, sorvete, chocolate (isso depois da salada e do feijão). O combinado era uma tarde de muita brincadeira (certamente eles nem ouviram a parte do tema). Até aí, tudo dentro do previsto. No meio do almoço, ele contou que uma vez conseguiu voar. Por um ou dois minutos, mas conseguiu. Pegou um guarda-chuva, foi para o alto de um morro e voou. Que presente pra uma terça-feira! Por um ou dois minutos, eu desejei ter de novo oito anos. Só pra voar com ele por aí.

Tráfego intenso

Hoje de manhã saí de casa e fiz duas escalas antes de chegar ao meu destino final, o trabalho. Agora chamo assim as paradinhas estratégicas no meio do caminho. Cumpri mais duas escalas programadas para depois do almoço e cheguei só um pouco atrasada – nada que a Tam não tenha feito.
Uma passada no sapateiro, que é bem perto de casa, equivale a uma ponte aérea. Ir ao correio, mais fora de mão, é como uma escala pra Vitória. Supermercado, eu nem conto. Vai no piloto automático. Oficina nova vira Tocantins, não sei bem onde fica, mas eu acho. Às vezes minhas rotas lembram o vídeo que está circulando na internet, cheio de pontinhos amarelos mostrando o tráfego aéreo mundial.
Essa semana estou a própria Congonhas, pra lá e pra cá. O que tenho de escala pra comprar presente e resolver coisas! Se eu fizesse todas juntas, ia ser mais cansativo que voo de oferta da Gol pro Acre - com direito a jet lag. Não pense que eu só levo e busco carga. Seguido tenho passageiros. Alguns surgem de última hora, como um pouso forçado.
Eu sou o piloto, a torre de controle e o balcão de check-in. Organizo as escalas conforme a demanda. Tirando uns Macapás que não estavam programados, eu dou conta. Se continuar assim, vou contratar um daqueles homens que ficam sinalizando a pista de noite, pra aterrisar em casa.

30 de mar de 2009

Revisão

Sendo bem realista: todas as coisas, mais cedo ou mais tarde, vão estragar. Tudo precisa de manutenção. Então por que com as pessoas vai ser diferente?
O ar condicionado do meu carro está sem gás. Tadinho, quando ouvi isso, juro que fiquei comovida. E eu reclamando que ele já não era mais o mesmo. Sem gás, nem ele nem eu vamos longe. No fim de semana eu fui pra serra justamente atrás disso, voltei novinha. O gás do ar condicionado vai ser reposto numa oficina, já que dormir e comer bem não fariam o mesmo efeito para ele.
Daí lembrei de outras coisas que sofrem com a ação do tempo. O sofá que desbota é como a nossa pele ao sol. A luz que entra pela janela é gostosa, parece um dia de praia. Mas a pele vai manchar sem uma cortina, ops, protetor fator 30. A tinta que lasca e mostra a madeira crua embaixo – lembrei dos fios de cabelo branco, de como um retoque é necessário. O edredon que descostura, a meia que fura, o parafuso que solta (da panela e da cabeça), o vidro que trinca, a porta que range (joelho também faz barulho), o choro que não sai, a conversa que empena, o inox que perde o brilho – deusmelivre perder o brilho no olho!
Difícil manter tudo novo num carro que é bem usado, numa casa que não é showroom de loja, numa pessoa que é bem vivida. Lembro de ler numa revista feminina que rir muito pode causar marcas de expressão. Ah, faça-me o favor. Prefiro ter minhas rugas de gargalhadas.
O não usar também estraga. O que você acha que acontece com um coração zerinho de emoção, sem ninguém lá dentro? Vai estragar de tristeza. E as pessoas fechadas como casa de praia, que se esquecem o ano inteiro ou se abandonam por causa do trabalho? Essas, na melhor das hipóteses, vão mofar. Pensando em tudo isso, no gás que às vezes falta e a gente não percebe, acabei de marcar uma revisão na médica. Não sinto dor, só vida. O que não impede de eu me cuidar. A manutenção de uma pessoa nada mais é do que se dar atenção.

27 de mar de 2009

A1 + B1 + C1

Cheguei à conclusão de que a rotina faz bem. Ela precisa existir, estabelecer a repetição e dar sequência aos fatos só pra gente, quando sentir vontade, romper com tudo isso. Jantar no café da manhã, se é que você me entende.
A rotina é uma tabela de Excel, certinha e racional. Ela organiza e calcula tudo para você, nem precisa conferir. O inusitado é um telefone anotado à mão, às pressas, num pedaço de papel. Os dois têm números, mas aí acabam as semelhanças.
Ao contrário da rotina, as surpresas da vida não cabem naqueles retangulinhos. Boas ou ruins, elas são imprevisíveis e surgem em formatos diferentes. As voltas que o mundo dá também não encaixam numa coluna do Excel. Não tem como planilhar quando você vai estar por baixo ou por cima da carne seca. O mundo vai dar as famosas voltas quando ele bem entender, esteja atento.
Por isso a rotina é útil. Sem um padrão vigente, perdemos o comparativo. É bom se deixar levar pelas banalidades da semana para valorizar um dia com fortes emoções. E ele aparece assim, sem mais nem menos.

26 de mar de 2009

Da Daslu pro Carandiru

A presidiária mais bem-vestida desse país! Eliana Tranchesi, dona do império Daslu, foi parar no Carandiru. O que adianta ter tanta roupa e não ter compostura? Não sou perita em sonegação fiscal, nunca comprei um par de meias na Daslu. Mas o exemplo é oportuno. Imaginei ela, naquelas filas de penitenciária americana, esperando para pegar seu macacão laranja de caimento imperfeito. Claro que vão tirar a mulher de lá rapidinho. Se não pagou os impostos, o mico ela pagou.

25 de mar de 2009

Little Black Dress

Ele é elegante até no nome. É um clássico, mas pode ser beeem moderno. Tem um apelido carinhoso – LBD – que faz brilhar os olhinhos das fashionistas. Definitivamente, é o que toda mulher chique deveria ter no seu guarda-roupa.
O Little Black Dress surgiu com Coco Chanel e Audrey Hepburn ajudou a criar o mito. Não tem Vogue que não mostre um deles. E nem precisa ser iniciada no assunto para entender o poder de um bom vestido. Esse pretinho básico (que de básico só tem a cor) combina com noite, festa, encontros e já foi visto em muitos tapetes vermelhos. Na minha opinião, o acessório perfeito é uma taça de champanhe na mão direita (ou esquerda, se você for canhota).
Difícil errar com um LBD. Facinho causar uma ótima impressão. É um vestido que finge ser simples. Quer ser despretencioso mas não consegue. É um uniforme, sempre com um algo a mais que garanta a diferenciação.
Hoje eu acordei com vontade de usar um deles. O meu não é tão little, é black e é dress. Achei que a quarta-feira merecia. O do tapete vermelho, tadinho, segue no guarda-roupa.


24 de mar de 2009

Querida, estou grávido

Fiquei pensando no transexual espanhol que engravidou de gêmeos. Li que ele nasceu mulher e mudou para homem, mas manteve o aparelho reprodutor que veio de fábrica. E agora fez inseminação artificial. A esposa dele, que já tem dois filhos, deu todo o apoio para o marido (ou seria mulher?) sentir na pele os nove meses de gravidez. De preferência, com estrias.
Modernidade é pouco. Eu me sinto pré-histórica. Ou, no mínimo, confusa. No futuro, o que os gêmeos vão dizer na escolinha quando a profe pedir para levarem fotos deles na barriga da mamãe? Mostram uma foto da barrigona enorme e cabeluda ou eles sendo amamentados em seios tão peludos quanto? O que os amiguinhos vão achar disso? Crianças podem ser mais cruéis que os adultos.
Se quisesse ser pai, o espanhol poderia adotar. E mais do que duas crianças. Ele quis ser mãe no sentido literal da palavra. Peraí. Não foi ele quem escolheu mudar para o sexo masculino? É realmente confuso. Não quero ser preconceituosa, só acho que a infância pede um pouco de normalidade. Se já é difícil para a gente entender a situação, imagine para os gêmeos.

23 de mar de 2009

Sofrer por antecipação

Estou aprendendo, já evoluí consideravelmente, mas ainda não cheguei ao ponto ideal. Quando eu começo a sofrer antes da hora, lembro das novelas mexicanas. E fico irritada, quero apontar o controle remoto pra mim e mudar de canal.
Menos drama, por favor. Tudo pode ser (e está sendo!) bem mais leve. Mesmo que seja inevitável um sofrimentozinho de vez em quando, vou fazer força para adiar esse momento ao máximo. Quem sabe assim ele se manca e vai embora.
O problema de sofrer antes da hora é que a gente tem coisa melhor para fazer na vida. Se antecipa, fica com mais tempo para se armar e remoer a preocupação. Não sai do lugar e a corrida nem começou. As respostas já vão para a ponta da língua, sem que ninguém ainda tenha feito as perguntas. Preparativos só ajudam em dia de festa. Coisa chata a gente encara na hora H. Antes, não tem por quê.

20 de mar de 2009

Banho de espuma

Se me pegam numa blitz, eu levo multa da vigilância sanitária. Documentação em ordem, carro imundo. Um perigo para a saúde dos meus caroneiros, com risco de gerar uma epidemia alérgica ou doença de pele.
Meu carro está a um passo (ou a uma quadra) de uma infecção hospitalar. Com certeza eu fui contaminada. Notei que isso afetou a visão porque já não vejo tanta sujeira. Mas o estofamento, se não me falha a memória, tinha uma estampa mais clean.
Fui acostumando, deixando para o próximo fim de semana. Preguiça de tirar as coisas de dentro do carro, a previsão do tempo em cima do muro. A única desculpa que não posso usar é a distância: tem uma lavagem do lado do meu condomínio. Talvez eu tenha criado um certo apego pela mistura de folhas, barro e pedrinhas. Meu carro virou eco friendly, convive pacificamente com os dejetos da natureza. O que sempre faço é esvaziar o saquinho do lixo preso na mudança – deve ser o hábito de tirar o lixo em casa.
Do jeito que o carro está, também posso me incomodar com a EPTC. Se eles conferem a placa (ainda legível graças às poças das ruas), vão ver que a cor correspondente deveria ser prata e não cinza-chumbíssimo. Podem achar que alterei a aparência do carro para me camuflar num assalto a banco.
Amanhã, chova ou faça sol, tem banho completo. A sujeira vai levar um balde de água fria – com cera líquida para a lavagem durar mais. Prometo não reclamar daquele jornalzinho que vem de brinde, como capacho.

19 de mar de 2009

Balanço do quadrimestre

Que louco. Eu parei de contar, de comparar e principalmente de pensar no assunto, mas o cronômetro permaneceu ligado (chamam isso de passagem de tempo). Todas as horas, minutos e segundos desde que o dia em que fui demitida chegaram à marca de quatro meses.
Não pode ser.
Confiro no calendário: de 14 de novembro a 14 de março... um, dois, três – só quatro meses?!! Parece que faz beeem mais tempo. E provavelmente daqui a quatro meses essa lembrança vai ser insignificante e descartada – nosso cérebro apaga as coisas ruins para dar espaço ao novo.
Novo emprego, novos hábitos, nova rotina, novos amigos, novos planos. E os queridos de sempre.
São raros os momentos na vida em que a gente consegue contabilizar mudanças profundas num curto espaço de tempo. Por fora, eu sigo baixinha. Por dentro, agora tenho 1,80 (com o queixo erguido, pode somar mais 3 centímetros). Demorou mas eu entendi: o que aconteceu comigo foi um estirão de crescimento.

18 de mar de 2009

Tem crônica nova no site do Bourbon Shopping

Recomeços

Troquei de celular e iniciei uma nova rotina com ele. O mês não poderia ser mais apropriado: março, quando tudo recomeça. Estamos nos conhecendo, ele mostra um atalho, eu retribuo apresentando um amigo querido. Apesar da facilidade do bluetooth que leva e traz os dados, aproveitei para arejar alguns nomes e colocar outros numa sacola para doar. Só mesmo em março para ter essa disposição de organizar tudo. Ao manejar o novo aparelho, às vezes me sinto canhota - é tudo igual, só duas teclas importantes trocaram de lado. Estranhezas de março, aposto que em abril nós já seremos velhos amigos.
Quando meus filhos eram menores, no início das aulas havia o período de adaptação. Uma hora a mais por dia, uma novidade de cada vez, professoras e amiguinhos sendo absorvidos de um jeito bem light. Lembro da entrada do caçula na cheche. Ele se enturmou rapidamente. Eu é que precisei de colo, de ficar sentada no pátio e enxergar com meus próprios olhos que meu bebê estava bem.
Em março, de uma forma ou de outra, todo mundo merece um tempinho para adaptação. O trânsito volta a ser agressivo e tumultuado. As filas reaparecem nos bancos, até o cinema requer mais paciência. O colégio estipula os horários da família. O trabalho manda mostrar serviço. A praia fica distante, a piscina parece mais gelada. A cidade ocupa nossos finais de semana.
Por isso o mês de março deve ser encarado como um rito de passagem. Se você viajou ou não, se descansou ou trabalhou a mais para cobrir as férias do colega - agora tudo é passado. Quando fevereiro se despede, a ficha cai. É como se os fogos de artifício voltassem ao céu para avisar que, finalmente, 2009 chegou. E vem apressado, acumulado.
Aproveite as últimas semanas de março para desapegar do bronzeado, dar um up no visual e nos planos. A casa pede atenção, também tem uma listinha de materiais. Quer passar uma borracha nas marcas da parede, ganhar cortinas e flores nos vasos para alegrar feito lápis de cor. A rotina se restabelece, a vida volta ao normal (no melhor sentido da palavra), as plantas nos esperam para conversar, aos poucos os carros se acomodam nas ruas, as sirenes já não gritam tanto.
Março é necessário. É um professor que coloca a gente nos eixos, que prepara nosso espírito para o resto do ano. Saber recomeçar sempre é um belo aprendizado.

O último modelito

Já fui colega de ofício do Clodovil. Eu devia ter uns sete anos e era estilista das minhas bonecas. Muitas coleções eu criei, fazia até desfile em cima da mesa com música do toca-discos. Era minha brincadeira preferida, se naquela época existisse um Fashion Week para bonecas, eu teria participado.
Sempre que o Clodovil aparecia na TV rabiscando ideias de pano, eu grudava os olhos. Ele desenhava um pedaço de rosto das mulheres, os braços eram riscos esguios com dedos na ponta. E rabiscava aquilo numa rapidez que me impressionava. Se o desenho já estava pronto e ele só passava por cima ou se eu não percebia os cortes de edição, não importa. Para mim, era mágico ver o Clodovil em processo criativo.
Depois eu larguei a profissão, quis ser aeromoça, dona de loja, professora, arquiteta, dentista. Acabei publicitária, atrás de outro tipo de ideias. Quando o Clodovil entrou para a política, fiquei desapontada. Até ele? Segui acompanhando suas polêmicas em Brasília e as fotos bizarras na Caras. Lembro de um ensaio numa banheira com flores, ele passava creme nas pernas de um jeito mais feminino que nós, mulheres. Coisas de Clodovil. Gostando ou não, ele tinha estilo.
E tem a ironia do destino: um cara que passou a vida escolhendo o que os outros iam vestir não teve a chance de deixar separado o seu último modelito.

17 de mar de 2009

Bruxas e bruxismo

Tenho bruxismo, um mal da vida moderna. Quando eu durmo, meus dentes começam a ranger numa vingancinha ao estresse do dia. Se não uso uma placa na calada da noite, eles não sobrevivem. Ou seja, não tenho muita opção. Os sorrisos originais de fábrica são tão raros hoje em dia.
Mantenho uma relação de amor e ódio com a minha placa. Acordo várias vezes pra arrancar a maldita da boca. De manhã, é aquele jogo de esconde-esconde. Ela pode ter parado embaixo do travesseiro ou da cama, estar camuflada no lençol ou até fora dos limites do quarto, comprovando que tenho meus momentos de sonambulismo. Se perco o sono, boto a culpa na placa. Se não consigo dormir, boto a placa e durmo.
Não é que ela funciona? Eu olho para o estojo da placa e já relaxo. Sinto sua falta no trânsito e no trabalho. Quando as bruxas estão à solta, acordam o bruxismo. Às vezes dá vontade de usar a placa na agência. E apresentar vários roteiros. Com cliente na reunião. Ia ser uma cena engraçada.

16 de mar de 2009

Carteira fechada, poros idem

A Tefal podia ampliar seu segmento de atuação inventando um revestimento antiaderente para vitrines. Assim, mulheres como eu não grudariam que nem ovo frito em panela de ferro quando enxergam novidades. É evidente que nenhuma loja iria comprar esse incrível produto porque vai contra a lei natural do consumo. Mas eu digo: ficar só na vontade vai contra a natureza feminina, o que é pior. Encarar meses sem uma sacolinha pode ser tão difícil quanto largar a nicotina. E, pelo que eu saiba, ainda não inventaram um adesivo para colocar nos nossos braços.
Com essa crise interminável, fui obrigada a criar uma película protetora ao meu redor. O progresso é notório. O que não impede de eu salivar em algumas vitrines (a maioria dá pra descartar sem dó nem piedade, tem muito souvenir pra mulher-turista). Também evito almoço em shopping, senão posso comer um acessório de sobremesa. Aliás, tenho ido tão rápido a shopping que nem pago mais estacionamento. Resolvo tudo dentro do tempo cortesia e fujo das tentações.
O fato é que uma mulher vaidosa não gasta só com roupas e sapatos. Para deixar a casa apresentável, tem que investir. O sofá novo pode esperar, dá pra largar a almofada em cima do puidinho. Mas e a toalha de banho que já vai sozinha pra máquina de lavar? Não substituo até que as fibras do algodão se transformem num esfoliante grosseiro? No supermercado, sigo prestigiando as ofertas e separando o produto do apelo publicitário. Tenho feito grandes descobertas. Agora com maquiagem é fogo. Tem peças-chave que uma mulher precisa. Não vivo mais sem blot, aquele pozinho mágico que deixa a pele perfeita, com cara de rica. Faz tempo que me despedi dos importados. Tudo isso pra dizer que gastei hoje. Fiz mais uma substituição de marca que promete grande retorno. Quando você me encontrar, diga se valeu ou não a pena.

Outono

Meu filho menor todos os dias pergunta se já pode botar moletom. As pernas continuam de fora, então frio não é. Eu sei porquê. Adulto ou criança, todo mundo é movido por ciclos. A fila tem que andar. Se inventaram quatro estações, cadê a próxima?
Eu também estou louca para puxar o edredon de madrugada (só para cobrir os pés). O outono, que inicia sexta-feira, é uma das perfeições da natureza. Cariocas e nordestinos vão continuar suando. Aqui no Sul, a gente já vai querer ir para a serra tomar vinho e chocolate quente - se bobear, comer fondue com a lareira acesa. O banho vai começar a ficar mais quente, embaçando todo o box do banheiro. A cama vai usar truques baixos para nos segurar mais um pouco. As roupas de alcinha vão para o fundo do armário, junto com os biquínis e calções.
O frio prefere golas e, para alegria do meu filho, capuz e bolso. O problema é que as mangas compridas do ano passado devem ter virado manga curta para ele. E lá vou eu atrás de moletom novo pra saudar o outono.

13 de mar de 2009

Cabide enterrado

Hoje foi um daqueles dias. Minhas roupas aprontaram, estavam de sacanagem comigo. Devem achar engraçado uma mulher adulta mudar de ideia sem parar. Eu já tinha escolhido o que vestir, estava tudo certo, inclusive perdi minutos preciosos ligando o ferro para retocar uns amassadinhos.
Elas nem levaram isso em consideração. Fizeram eu trocar, trocar, trocar. Me confundiram. O que ficava bem isoladamente, no conjunto não funcionava. As cores brigavam, eu tentava apartar. Até bolsa e lingerie eu mudei. Já nem sabia se olhava pro espelho ou pro relógio. O café foi engolido em pé na cozinha, o mamão voltou intacto pra geladeira. Nem lembro o que passei no pão - espero que não tenha sido batom.
Eu já tinha corrido o suficiente na pista, não precisava dar voltas e voltas ao redor de roupa. No elevador, encontrei minha vizinha. Ela também estava atrasada e, adivinhe, pelo mesmíssimo motivo. Outro cabide enterrado. Nesses dias, a gente devia chegar no trabalho com atestado justificando o atraso.

12 de mar de 2009

Moda das ruas

Há semanas eu cuido uma moradora que se mudou para uma esquina bem movimentada da cidade. Literalmente uma esquina, passo ali duas vezes ao dia a caminho do trabalho. Essa moradora de rua, por alguma razão, escolheu aquele lugar para fixar residência. Trouxe os poucos pertences, colocou um plástico grande por cima de tudo e prendeu sua casa com pedras. Fica no portão, se existisse um, cuidando para que ninguém leve o que é seu.
Sempre que fecha o sinal, eu tenho mais tempo para uma visita. Do jeito que pode, ela mantém sua casa organizada. Não falta jornal. Esses dias apareceu uma cadeira branca de plástico no meio da sala (ou quarto, banheiro, cozinha). É onde ela senta para ver a novela dos carros.
De cara eu simpatizei com a dignidade que ainda tem no rosto dessa mulher. Se espera alguém, eu não sei. Uma ajuda, com certeza. Pensei em dar um cobertor, logo ela vai precisar. E como toda mulher que se preze, ela também tem coisas que aparentemente não precisa. Hoje passei ali e vi uma bolsa preta, dura e com alças, guardada embaixo da cadeira. Bolsa bonita. Bem que ela faz.

Quinta-delícia

Sou brasileira, não dá pra negar. Acordei toda alegrinha porque depois de amanhã é fim de semana. Ou, sendo bem prática, amanhã às 19h. Lendo o jornal eu já me concentrei no segundo caderno, tem tanto filme bom pra ver. Queria aprender a esticar esses dois dias ao máximo, deixar o sábado com 2,5 metros de altura e o domingo com os braços arrastando no chão (e a semana bem nanica, assim o fim de semana pareceria mais comprido ainda). Quem sabe se eu não dormisse daria tempo pra fazer tudo? Só que dormir num sábado de tarde é uma das coisas mais gostosas do mundo – com a janela fechada, a cara amassada. O jeito é anexar a segunda-feira ao domingo, grudar sem deixar emendas, ninguém vai reparar. Ih, tô brasileira demais.

11 de mar de 2009

Momento Miriam Leitão

Não conheço ninguém que, de uma forma ou de outra, não tenha sido afetado pela crise. Se não foi, vai ser. É um financiamento que pesa, uma demissão que assusta, uma viagem que é adiada, a lista do supermercado que diminui, a insegurança que ronda. Mas essa crise bandida veio para mostrar que dá para viver com muito menos. Todo mundo consome bem mais do que precisa. Tem que passar um período de abstinência para se dar conta disso.
Quem já fez um regime sério vai concordar que a situação é parecida: quando a gente aceita o fato de que precisa emagrecer e se reeducar, é só o estômago desinchar para ver que a fatia do bolo pode ser bem menor – se é que esse bolo é tão fundamental assim. Depois de um tempo cortando tudo, fica evidente que o bastantão de antigamente não tem razão de ser.
O problema dos regimes é a manutenção, aí é fácil se descontrolar de novo. Eu fui obrigada a apertar o cinto, toda a família foi. Estamos em processo de reeducação financeira e já é visível a cinturinha definida do extrato bancário. Logo, logo, a manutenção vai começar. Nunca mais quero ter uma fatura de cartão obesa. Quando as vitrines de inverno me tentarem com botas lindas, vou ter que ser forte. E fazer aquela velha pergunta: eu realmente preciso? Duro vai ser pronunciar a resposta.

10 de mar de 2009

Sebo nas canelas

Correr sozinha é bom, correr com cinquenta pessoas na pista é bem mais divertido. Todas as manhãs agora eu participo de uma maratona de revezamento – faço a minha parte, cinco quilômetros, o resto da equipe não foi convocada. Quando sobra tempo, vou mais longe. No último domingo, corri uma hora pela cidade. Com o trânsito calmo, dá para se arriscar nas ruas.
Tenho a sorte de morar em frente a uma pista de corrida. É raro chegar na janela da sala e não ver ninguém testando o fôlego lá embaixo. Os anônimos dão ânimo uns aos outros. Tem sempre uma panturrilha mais torneada, uma camiseta num estágio mais avançado de suor.
O público é eclético: vai do corredor profissional que voa à turma que passeia no shopping. No meio do caminho, estão os esforçados como eu. Gente que começou caminhando, foi acelerando o passo e um dia arriscou a correr. Depois viciou. Hoje tinha ventinho e sol recém-nascido, um luxo. Minha esteira foi rebaixada para os dias de chuva.
Já identifico pessoas pela roupa, meu ângulo de visão registra as costas e, na ultrapassagem, uma lateral. Os perfis vão ficando familiares (não a ponto de reconhecer fácil alguém à paisana no supermercado do bairro). Os horários se repetem, surgem cumprimentos na barra de alongar.
E tem os cones, separando a parte de quem corre dos que caminham. Hoje, num momento alucinógeno à base de endorfina, pensei em dar nomes a eles. Aí eu poderia correr até o cone Everaldo e dizer “agora até o Bob”... “só até o Romualdo”... “eu aguento até o Maiquel”. Ainda bem que o alongamento também colocou as ideias no lugar. E evitou que, num futuro próximo, eu convide o cone Kleber para correr comigo.

Jeans e Marisa

Que bom que a Marisa voltou a falar de mulher para mulher. Não sou cliente da loja mas, como publicitária, sempre admirei o slogan. Quando ouvi a Carolina Dieckman e a Taís Araújo falando que o jeans é a melhor balança que existe, concordei na hora. Fui pro Youtube ver de novo o comercial. Eu falo isso toda hora, é a mais pura verdade.
Sinceramente, duvido que elas tenham algum problema ao vestir seus jeans. A grande maioria das mulheres tem. O jeans é a balança, o termômetro, o cadeado na geladeira, o céu e o inferno. E digo mais que a Marisa: jeans tem que ter pegada. Mulher fica irritada quando o jeans aperta demais e frustrada quando ele está muito folgado. Fundilho caído é coisa de guri. A gente quer que o jeans fique na medida: nem pirigueti, nem disforme. Com pegada, ele dá um up na autoestima.
Na última viagem, eu pensei que tivesse comprado o jeans da minha vida. Falo de modelagem, não de marca. No provador, ele parecia perfeito. Até no comprimento, coisa rara para mim. Voltei na loja para comprar um igual, com outra lavagem, e não encontrei. Quando cheguei no Brasil, fui inaugurar o jeans. Alguma coisa ficou na alfândega. Ele estava folgadinho além da conta. Perdeu a pegada. Eu perdi o interesse.

9 de mar de 2009

Por dentro de tudo

Vi a exposição Corpos há três anos em Nova Iorque. Eles continuam bem conservados, tanto na versão fatiada quanto na quase inteira. Teve gente que passou mal ao meu lado. Eu, não. Saí de lá encantada. Estudei cada pedaço daqueles pedaços com uma curiosidade mórbida. Nosso corpo é genial por dentro. E muito mais complexo do que se imagina. Lembro que uma das coisas que mais me impressionaram foi achar pelos em certas partes, apesar da assepsia total. Os caras deixaram aquilo de propósito, só para nos lembrar que os bonecos foram pessoas de verdade. Outra visão memorável: todo aquele emaranhado de veias, deitadinhas como se fossem gente, mas sem a embalagem protetora. Puro design. Também adorei os corpos fazendo (ou imitando) atividades físicas, principalmente o que jogava basquete. Chineses, brasileiros, ingleses, jamaicanos - tanto faz a nacionalidade e a cor da pele. Por dentro, a engenhoca é a mesma. Duvido alguém sair da exposição e emendar um fast-food no shopping. Não por nojo, mas por respeito ao nosso avesso.

8 de mar de 2009

Eu quero mudar

Diga isso para o seu cabeleireiro e, definitivamente, você terá feito uma pessoa feliz. Uma, não. Duas. Pelo menos foi como eu e o Breno nos sentimos sábado de tarde. Ele com um salão novo e lindo, eu com um cabelo idem. Poucas coisas deixam a gente tão realizada do que tesouradas certeiras. Ganhei ombros de fora, estava com saudade deles. E já tratei de endireitar a postura. Também mudei a cor do cabelo para ter mais assunto com os espelhos.
Não sei como existem mulheres que passam a vida inteira usando o mesmo corte, não arriscam umas camadinhas, não brincam com o comprimento, ficam longe da cartela de cores. Cadê a química com o cabeleireiro? Deve ser a coisa mais frustrante para um grande profissional ouvir suas clientes repetirem o clássico “tira só as pontinhas, hein?”. Ou “corta igualzinho da outra vez” – sem falar das olhadelas assustadas a cada mecha caída no chão e o “aiaiai, tá cortando demais”. Como diz a propaganda do Boticário, acredite na beleza. E principalmente no cabeleireiro que você escolheu.

6 de mar de 2009

Sampa 40 graus

Hoje deu praia na Paulista. A avenida mais engravatada de São Paulo recebeu gente de biquíni e sunga para se bronzear em esteira de palha, canga e cadeirinha de lona. O asfalto que ficou embaixo não deve ter entendido a proposta lúdica naturalista.
Eu achei divertido. O sol apareceu e teve até cervejinha gelada. Pelo menos esse grupo de amigos (e atores) pegou uma cor que, ainda bem, não foi o cinza poluição. Faltou mar, e não atrapalhou em nada. Sobrou bom humor. Segundo eles, foi um protesto contra o calor X terno e gravata. Se foi uma ação da Skol, tudo bem. A Paulista estava precisando mesmo soltar o corpinho.

Sem comentários

Tive que tirar os comentários do blog. Os urubus voltaram e eu não tenho vocação para carniça. Não vou mudar meu estilo de escrever e minhas opiniões, senão isso não seria um blog, mas um anúncio pago. A curadoria é livre, seja para quem escreve como para quem lê. Conheço pessoas que desistiram de ter blog justamente por causa desses comentários que não acrescentam nada, só mostram que do lado de lá do computador tem muita raiva guardada. Também fiz isso em consideração a quem entra aqui para ler textos, não ofensas. Já tem tanta gente de cara feia nas ruas, sendo grosseira a troco de nada. Nesse blog, não. A internet é maravilhosa justamente pela quantidade de opções que oferece. Se entrou e não gostou, que siga abrindo janelas até se encontrar. Todo mundo precisa de mais positividade ao redor, não de urubus.

5 de mar de 2009

Mamma mia

O ecologicamente correto chegou na cozinha italiana. Li que estão questionando a quantidade exagerada de água usada para cozinhar a massa. Deve ter muita nonna revirando no túmulo. Para que tanta água? O fetuccine que se vire com menos. A crise já afinou o fio de azeite. O extravirgem perdeu espaço para o ofertão de óleo de soja. O coitado do sal é sempre excluído porque faz mal. Agora sobrou para a água fervendo. Os eco chatos alegam que virar toda aquela água na pia é um grande desperdício. Mas a massa grudar e ir pro lixo também não é?

Excesso de velocidade

A semana escorreu pelas mãos. Amanhã já é sexta, quem diria que esses sete dias iriam passar tão rápido depois da curtíssima semana pós carnaval.
Fico preocupada com as passagens bruscas de tempo. Acho que não aproveitei tanto assim, que o mais legal deixou de ser feito.
Se fosse uma semana voadora, tudo bem. Elas são competitivas, a próxima quer ser mais acelerada do que a que passou – talvez pra gente ficar aqui falando sobre isso. As semanas voadoras se multiplicam, confundem, tonteiam. Nem dá tempo de esperar o sábado, quando eu vejo é domingo. Vou ter que dar um jeito de segurar os dias, prender no pé da mesa, enrolar como quem poupa as últimas páginas de um livro incrível.

4 de mar de 2009

BBB

Acho que sou uma das raras pessoas que não assiste Big Brother. Não acho graça, fazer o quê? Nos primeiros, eu dei uma espiada e acompanhei alguns paredões. Depois larguei. Lembro do cowboy, da cabeleireira, se forçar a memória vem o rosto de um ganhador (mas não vem seu nome).
Agora é o BBB 18 ou 19? A cada nova edição anunciada, eu me pergunto como ainda tem gente que gosta disso. E como tem. O BBB é a reinvenção da novela (ou uma eterna tentativa de achar a nova Grazi). Ele gera longas discussões sobre o caráter dos personagens, prende em casa, pega voyeur de persiana e dá upgrade para sociólogo. Isso, por si só, é divertido. O comportamento dos outros nos redime. Melhor que ver a Fátima Bernardes contando desgraça.
Apesar de achar maluco quem paga pay-per-view para não perder nada, eu entendo - também tenho minhas loucuras. Além do mais, de manhã, de tarde e de noite não passa nada de bom na televisão. Bial segue firme e forte como o âncora das intrigas e confusões. Não sei se continua Pedro Miau, fico feliz dele manter esse empregão em tempos de crise.
Para não me sentir totalmente uma ET nas conversas, eu passo os olhos pelas matérias sobre o BBB (ex: sei que um dos bonitões teve um momento Tropa de Elite e pediu pra sair, parece que uma das bonitas conseguiu localizar o pai que não via há 20 anos). Agora decorar os nomes do elenco é impossível. Novela eu também não vejo, a diferença é que o Tony Ramos e o Lima Duarte sempre vão estar lá. A Juliana Paes também.
Achei uma boa ideia terem colocado gente da melhor idade na casa (e por que é sempre casa? Podia ter um BBB de apartamento, todos confinados num JK de fundos, o líder das provas ganhava uma hora de sol na cobertura.) Até fórmulas esgotadas cansam. Devem ter colocado gente mais velha para contrabalançar com as gostosas. Imagino o preparo glúteo-técnico que essas mulheres fazem antes de entrar na casa. Logo, logo tem o ensaio sensual. Não dá para comer salgadinho de pacote lá dentro, mesmo sendo de graça. Melhor intensificar os exercícios aeróbicos embaixo do edredon.

(acabei de descobrir mais um nome do BBB lendo o jornal: tem uma Ana Carolina, e ela é polêmica)

3 de mar de 2009

I kissed a girl

Olha a Kate Perry fazendo escola. Esses dias Marge Simpson beijou uma garota – ou melhor, uma velha amiga do clube de leitura. Adorei esse detalhe, queria saber o que elas estavam lendo no momento. A rosquinha deve ter caído da boca do Homer, mesmo sendo tudo coisa da sua imaginação. Mas pode apostar que esse beijo de língua entre duas donas de casa já entrou para os top 10 da América.
Fiquei louca pra apresentar a Marge pra Hebe, que adora tascar selinhos nas bonitas daqui. Quero ver ela seguir o exemplo da Marge e mandar ver. O sofá da sala é testemunha. Selinho não tem graça, é beijo sem vontade. Se é para experimentar, que tenha alguma emoção.

2 de mar de 2009

Vai um Starbucks?

Eu me enxerguei numa passarela. Foi no desfile da Dsquared2 em Milão. Aquela modelo que entrou segurando um café latte poderia ser eu – com cinqüenta centímetros a menos de altura, outras coisinhas a menos, mas com o mesmo copo da Starbucks na mão. Cheguei a sentir o cheirinho do café. E o calor roçando a ponta dos dedos. Eu também poderia ser a morena que entrou na passarela segurando uma revista embaixo do braço (eu levaria mais algumas). Também me achei parecida com a modelo que caminhava teclando no seu celular (será que ela digita rápido como eu?). Até que enfim, traços de normalidade. O cotidiano pedindo passagem. É marketing de passarela, eu sei. Que bom que alguém olhou, nem que seja um pouquinho, para o dia-a-dia. Tirando a boina púrpura (cadê a coragem?) e o casaco lindo, eu não conseguiria descrever o resto da roupa. O copo de café, sim. Ele era o meu número, a minha cor. O canudinho, um charme. Combina com tudo.
Não deixa de ser um alento para nós, seres humanas, identificar algo bem real no distante mundo da moda. Eu não vou deixar de sonhar com aquelas roupas lindas, muito pelo contrário. Com café, elas ficam mais fáceis de digerir. As modelos continuam magérrimas, ossudas, gigantes e com ar blasè. Pelo menos na cafeína e nas revistas, a gente se parece. Uma mulher normal, porém bem-informada, sabe que dá para garimpar muita coisa das passarelas. Desculpe, não consigo mais escrever. Preciso urgente daquele Starbucks.

Sem perfume

Meu perfume caiu no chão e me espalhou por todo o banheiro.
Os rejuntes dos azulejos nunca ficaram tão cheirosos, devem ter pensado que era dia de festa. Doeu não pelo caco de vidro que atingiu meu pé, mas porque aconteceu com meu perfume preferido. A nuca, sempre a grande privilegiada, ficou só na vontade. Nenhuma gota escorreu pelo pescoço, elas que sempre são muitas, ameaçando manchar a gola. Nenhum cacho de cabelo grudou na nuca. Os pulsos hoje não se encontraram, como fazem todas as manhãs, para misturar o perfume em movimentos circulares, levando o meu cheiro para a corrente sanguínea. Os ombros apenas mexeram, lamentando a perda.
Um vidro quase inteiro desperdiçado, com tanta pele para perfumar. Má sorte para o início de uma segunda-feira chuvosa? Que nada. Um dia da caça, outro do caçador. Cogitei a hipótese de molhar as mãos no líquido e passar em alguma parte do corpo, nem que fossem as pernas. Não adiantaria. O desastre aconteceu antes do banho, testando a minha vaidade. Para não sair sem perfume, eu coloquei outro. Estranho sentir um cheiro que não é meu. É como se tivesse saído outra Magali de casa.