25 de jul de 2011

Esconde-esconde

Que aflição achar que tem algo preso no dente e não ter certeza. A língua faz o que pode, coitada. Se puxa na inspeção, mapeia cada cantinho em busca do intruso mas nunca é clara o suficiente. A dúvida permanece, à essa altura já virou certeza absoluta. Sim, existe algo que não deveria estar aonde quer que esteja.
O que nos resta? Meter a unha disfarçadamente, como se isso fosse possível? Se esconder atrás de uma cara fechada ou sorrir para o primeiro que passar na nossa frente e observar sua reação? E se essa pessoa for alguém conhecido? Será que ela vai avisar ou morrer de rir ou não contar de propósito? Melhor sair o quanto antes à procura de um reflexo esclarecedor. Qualquer um. Banheiros e espelhinhos de bolsa nunca estão por perto quando a gente mais precisa deles.

Foto: FFFFound

22 de jul de 2011

Como ter uma boa ideia

Esforço. O resto é detalhe.

Imagem: It isn't Happiness

Fofo





É aquela velha história. Com criatividade, tudo é possível.




Fotos: Julia Petit






20 de jul de 2011

Dia do Amigo - ou como Adicionar Sinceridade

O Facebook faz a gente ter a impressão de que é amigo de todo mundo. Aproveitando que faltou sem luz (e fiquei desconectada), penso de novo sobre isso. Amigo, lá no dicionário e na vida, faz muito mais sentido. Será que só eu implico com essa nova obrigação social de adicionar? Seria mais honesto o Facebook oferecer outras opções: Conhecido Das Antigas, Já Foi Muito Próximo, Conheci Faz Pouco, Nem Conheço Mas Vou Adicionar, Amigo De Um Amigo, Conhecido De Um Conhecido, Adicionante Simpatizante, Apenas Contato, Apenas Curiosidade, Colega Com Potencial De Amizade, Amigo Top Ten, Achei Que Era Amigo Mas Não É.
Quem tem quinhentos ou dois mil amigos? Quem tem essa ilusão? Gosto tanto da palavra Amigo, sempre gostei e respeitei. Aí veio o Facebook, banalizou e confundiu tudo. Na vida real, ninguém pergunta se o outro quer ser amigo porque não existe resposta imediata. Leva tempo e requer dedicação. Amizades morrem feito planta sem sol e água. Estar online não significa necessariamente estar criando vínculos. Quantas vezes a gente vê a luz verde do chat acesa e não sente a menor vontade de falar com a pessoa? Curtir fotos e atualizações pode ser saudade das boas ou apenas um vício adquirido.
Já que inventaram o Dia do Amigo, que seja pra pensar em quem da listinha (ou melhor, listona) a gente levaria pra uma ilha deserta. Sem Wi-Fi, sem uploads e downloads, só pela companhia, pelo prazer da conversa e principalmente pela confiança adquirida.

19 de jul de 2011

A história segue

A dupla aí em cima apareceu na minha frente poucos minutos antes de eu entrar na faca, sexta passada. A TV ligada era pra distrair a turma que logo apagaria graças a essa coisa linda chamada anestesia. Não estava mesmo funcionando observar os outros, esporte que tanto me diverte. Foi quando olhei pra TV e vi Tom Rafa e Jerry Fabio perseguindo um ao outro. Tive que rir, os quatro são iguais. Na véspera da cirurgia, o Fabinho me abraçou e disse, como quem não quer nada: "ninguém no mundo nunca vai te substituir, mãe." Só fui contar pro Ricardo no dia seguinte, em casa, sã e salva. Por mais que a gente reclame da normalidade da vida, tem momentos em que nada é melhor do que o roteiro conhecido de sempre. Fui, voltei, a história segue.
Quer detalhes sórdidos do pós-operatório? Eu conto. Fiquei o final de semana inteirinho (na verdade, 3 dias) sem tomar banho. Que alegria absurda sentir de novo a água quente do chuveiro batendo nas costas! Desde que saí do hospital, tive a companhia forçada de um dreno que ficava amarrado no sutiã tipo barriga de grávida e monopolizou nossa atenção. Ter dois caninhos pendurados um de cada lado do peito pode fazer você rever seus conceitos de higiene e priorizar a segurança da gaze intacta. Me livrei do dreno só hoje e não vou sentir saudade. Nem da cápsula dupla que se formou numa das próteses e rendeu alguns momentos de celebridade.

Nos próximos dias, vou seguir com cuidado total pra que tudo se ajeite e eu fique 100% boa. E quando eu menos esperar, vou poder de novo dormir de lado. Garanto que esse é um dos maiores prazeres que existem.

12 de jul de 2011

3... 2... 1... delegar!!

Quem me conhece sabe que sou hiperativa, agitada, rapidinha e ansiosa. Relaxar na frente da TV é um castigo. Em casa, por onde vou passando já recolho algo do chão, dobro, guardo, organizo, apronto, mudo. Sou aquele tipo (maluco) de pessoa que prefere fazer em vez de pedir. Obviamente porque assim garanto que tudo vai ser feito da maneira que eu quero. A cama, por exemplo. Em outra vida devo ter sido uma camareira de hotel 6 estrelas. Ou uma sargenta possuída pelo demo: estico lençóis e cobertores com rigor militar. Que venha a inspeção.
É por isso que ainda estou deglutindo a frase que o Ricardo disse hoje cedo no elevador:
-Te prepara porque não vai ser tudo do teu jeito.
Ele tem razão e, de tanto que me ama, resolveu avisar. Quando eu voltar do hospital na sexta-feira, vou precisar mudar de conduta. Ou deixo rolar ou estou ralada. Por um bom tempo, não vou poder carregar peso e terei que cuidar os movimentos dos braços. Em outras palavras, vou precisar de alguém pra fazer muita coisa por mim. Do jeito desse alguém, não exatamente do meu jeito. No primeiro final de semana, talvez eu tenha que terceirizar até o singelo ato de escovar os dentes. Se gentileza gera gentileza, então agora espero receber de volta as tantas gentilezas que já fiz. Hoje no banho, ensaboando os cabelos e pensando na alegria de levantar os braços na hora em que eu quiser, entendi que esse período de pós-operatório também vai ser um curso intensivo de como delegar. E eu vou aprender.

8 de jul de 2011

Caos aéreo

Sentar no corredor do avião é a garantia de ter sempre a rota de fuga desobstruída. Imagine que você está na janela, todo faceiro olhando as nuvens, e dá vontade de fazer xixi. Você vai ter que incomodar duas pessoas que podem não ser tão ágeis ou simpáticas quanto se espera. Elas vão resmungar, soltar o cinto de segurança, resmungar, levantar, resmungar e sair da sua frente. Isso pode durar uma eternidade se você estiver apertado. Sem falar que o carrinho das bebidas talvez esteja no meio do caminho, o que só agrava a situação. E na volta, a via-sacra terá que ser percorrida novamente. Agora o segundo pior lugar do mundo dentro do avião é a poltrona do meio (o primeiro é o banheiro claustrofóbico). Você se transforma no recheio do sanduíche prensado. Cotovelos certamente vão ultrapassar as fronteiras, coxas roçarão sem pedir licença e o excesso de bagagem na cintura dos outros vai incomodar mais do que turbulência – ela nunca dura o tempo inteiro do voo. Não tenho medo de avião, só de não conseguir sentar no corredor.

Imagem: FFFFound

Já pro conserto

Semana que vem, eu e meu carro vamos pro conserto ajeitar umas coisinhas. Já que é tão difícil um de nós ficar parado, combinamos de parar simultaneamente e resolver a vida.
Acho que ele está pior, faz um barulho alto e esquisito quando anda. Sei lá o que pode ser. No meu caso, é um problema mais discreto e localizado. Por motivos de segurança, vou ter que substituir os airbags. Há cinco anos, decidi colocar prótese e nunca me arrependi, mesmo com esse encapsulamento que não estava previsto. Tenho uma teoria: podia ser pior. Sempre.
Não vejo a hora de acordar na sala de recuperação e ver que deu tudo certo. Sexta dia 15, às 7:30 da manhã, pode mandar boas energias que vou aceitar de bom grado.

Foto: Flickr

6 de jul de 2011

Concessões de inverno

O Ricardo reclama, resmunga, protesta mas não adianta. Nas noites congelantes eu preciso dormir com meias de lã. Daquelas feitas pela minha mãe, onde cada ponto de tricô é um abraço quentinho. Aos poucos, o iceberg no dedão do pé vai descongelando e eu consigo pegar no sono. Sei que não é nada sexy, fazer o quê. São concessões pra sobreviver a esse inverno glacial. Pé gelado é como gripe, tem que cuidar pra não passar adiante.

5 de jul de 2011

Um piadista no meio do caminho

Ele me viu e não se conteve. Antes de abrir a boca, teve alguns minutos pra decidir se falava ou não.
-A senhora está com problema pra dar à luz?
E desabou numa risada que deve ter sido sua sobremesa.
-Quaquaquá! Quaquaquá!
Eu estava com uma lâmpada queimada na mão, eu sou mulher e mulheres dão à luz. Portanto, houve pertinência. Aquele senhor não se importou em falar algo tão desgastado pelo tempo, ele mesmo era antigo e ainda estava de pé. Preferiu não perder a piada.
Tive que rir da risada dele, que chegou a se sacudir todo. Paguei de uma vez a lâmpada. Antes de sair, outra pérola:
-Esse aí tá só enrolando.
E desabou numa risada que deve ter sido seu cafezinho.
-Quaquaquá! Quaquaquá!
O vendedor estava enrolando o fio que o próprio homem pediu. Aposto que ele nem precisava ter saído de casa, estava apenas com vontade de rir.

Ilustração: Doe-Eye

Requeijão feelings

Comecei a notar que a gente era diferente quando os amigos das crianças passaram a frequentar nossa mesa. "Não tem margarina?! Nem manteiga?!"
Somos movidos a requeijão. Light, pra não pesar tanto na consciência. Consumimos uma quantidade industrial dessa golesma fantástica. Lá em casa o requeijão é paparicado e idolatrado. Participa do café da manhã, do jantar e até mesmo do almoço - o Fabio adora colocar uma colherada em cima da massa.
Copos de requeijão vão como água. São figurinha fácil na minha lista de compras - como se eu precisasse anotar um item tão indispensável. Passei a comprar margarina a pedido da Dodô, pra usar na cozinha. Não pense que não admiro uma boa Manteiga Aviador. Também aplaudo de pé o cream cheese e já consegui seguidores. Tentei infiltrar a geleia no seio familiar, sem resultado. Só eu continuo fã.
Agora quem está sempre na mesa, firme e forte, é o requeijão. Ninguém destrona essa delícia. Podemos passar sem pão, mas não sem requeijão. Ele é a nossa manteiga de amendoim. Se algum amigo gringo dos guris aparecer lá em casa, já sei como explicar essa tara.


Foto: My Love For You

4 de jul de 2011

Escabelada

Vou fazer uma escova progressiva na minha escova de dentes, pra ver se ela toma jeito. Já cansei de comprar outra. Rapidinho a escova nova escabela também. Já conversei com a mão direita, pedi pra ela pegar leve mas não adianta. Então a saída é a progressiva. Quero os fios bem lisos, domados, chapados, sem uma cerda fora do lugar, dentro do padrão estético vigente. Imagina se uma visita entra no meu banheiro e dá um flagra no estado da escova. Vai me chamar de relapsa ou de pão dura. E olha que esse meu muque impulsiona as vendas do setor. Meus dentes não se importam, eu é que não quero concorrência. Crespa e penteada pelo vento, só eu.

Foto: Flickr