8 de nov. de 2010

A psicopata dos cabides

Ou pode me chamar de sequestradora de cabides, que também condiz com a situação atual. Tudo começou com uma organização, que virou um hábito, que se tranformou em mania. Juro que não percebi essa última mudança de fase. Talvez tenha sido depois do cabide 5.874. E mesmo que tivesse percebido, seria tarde demais.
Hoje não posso ver um cabide vazio que preciso levá-lo o quanto antes para a área de serviço. Vasculho guarda-roupas atrás de cabides desocupados, não permito que eles fiquem matando tempo e conversando com as blusas e casacos pendurados. É algo mais viciante do que roer unhas.
Se o Nelson Mandela lê esse post, vai dizer que criei um Apartheid. Ele não deixa de estar certo, porém quero deixar claro que eu não discrimino a cor dos cabides. Brancos, pretos, amarelos ou transparentes, tanto faz. Se estiverem livres, não podem permanecer no mesmo recinto dos ocupados.
Ainda bem que eu não arrumo as roupas por cor dentro do armário, isso sim é caso sem tratamento. Se bem que, lá nos primórdios da civilização, eu escolhia a cor do prendedor conforme a cor da roupa lavada - e o azul molhado nem sempre combina com o azul seco. Foi no tempo de recém-casada, onde a gente brinca de casinha deslumbrada como se tivesse 5 anos. Pelo menos, desse mal eu me curei.

Fica a dica

As geladeiras estão cada vez maiores, já reparou? A gente devia utilizar melhor o amplo espaço do lado de fora para esclarecer a geografia da casa. Em vez de ímãs fofos e recadinhos, eu sugiro pendurar um mapa mundi mostrando onde se localizam os panos de chão, a colher de sorvete, o sabonete novo, os porta-copos. Assim, qualquer turista (seu filho) circulando por regiões inóspitas e desconhecidas como a área de serviço vai se achar. E achando o que precisa, não vai pedir que você procure aquilo para ele. A cartografia pode ser a nossa salvação!!
É só na minha casa, anos após a família estar devidamente instalada, que alguém pergunta onde fica o Alegrete? Ou Arizona, pra quem não é do Sul? E quando a gente mostra a prateleira certa, revelando onde o Alegrete sempre esteve nos últimos 4 anos, o que acontece? O cidadão faz cara de quem descobriu a América! Só falta querer tirar uma foto do ponto turístico.

Sutileza é pouco

-Vocês estão na metade. Eu e o Rafa, não.

E foi assim que o Fabio nos situou na linha do tempo. Na metade da história. Nem lembro que assunto a gente conversava. A frase recochiteou pelas paredes da cozinha e, como sempre, arrancou risadas. Pior é que o comentário não foi um elogio a tudo que eu e o Ricardo ainda temos pela frente. Foi tipo um alerta: a segunda parte passa mais rápido ou algo assim. Ribanceira abaixo, entende? Eu me senti um tanque de combustível pela metade. Ainda dá pra rodar muito, mas sab-se lá até quando.

6 de nov. de 2010

Inevitável

Já perdi a conta de quantas vezes a água da massa transbordou da panela e inundou o fogão. É um clássico, igual a macarrão com queijo ralado.
Fico de sentinela feito soldado na trincheira. O problema é que, por alguma razão inexplicável, em algum momento eu me distraio só um pouquinho e a maldita da água transborda. A panela parece um vulcão em erupção. Escuto a tampa sacudindo, se chacoalhando toda, na nobre tentativa de me avisar. Tarde demais. Vai ver, esse barulho é ela rindo da minha cara.
Hoje aconteceu de novo. A esponja veio sozinha, pegou a minha mão, alcançou o detergente, o ritual se repetiu. Da próxima vez, juro que desligo o fogo um segundo antes.

É chegada a hora

Aqui no Sul, existe um momento crucial em que a mulher tem certeza absoluta de que o calor chegou. É quando ela não consegue mais usar suas botas. Ela ainda tenta algumas semanas, mesmo suando um riacho no dedão do pé. Mas se vê obrigada a abandonar as adoradas botas, em nome do bom senso e das futuras dermatites.
Se pudessem, as gaúchas já sairiam da barriga das suas mães usando botas. E de couro, pra esquentar mais. Eu me incluo nesse grupo, também sou tarada por botas de todas as espécies. Hoje me dei conta de que só tenho usado sapatilhas. Infelizmente. Chego a sentir um aperto no peito só de fazer as contas e me imaginar usando botas novamente daqui a quatro ou cinco meses.
É tempo de pedicure. Os calcanhares escondidos por meias grossas serão lixados, hidratados e logo vão ganhar as ruas. As unhas dos pés serão pintadas de cores fortes. Rasteirinhas, sandálias e chinelinhos, agora é tudo com vocês.
(Garanto que esse post não faz o menor sentido para quem mora no Nordeste ou no Rio. Se você nunca usou uma bota cano longo, não sabe a delícia que é.)

5 de nov. de 2010

Olho vivo

Maquiagem não combina com pressa. Não se logo depois você for se olhar no implacável retrovisor do carro. Aquele espelhinho de nada é um tirano, um ditador, um invejoso. Nem quer saber o que aconteceu, se você não ouviu o despertador tocar, se teve um princípio de incêndio em casa. Ele vai logo apontando o traço torto do lápis, os cílios grudados de rímel, o corretivo que era para ter ficado imperceptível mas não ficou, a testa com brilho, o batom que sujou o dente. Sem falar nos excessos (pra não dizer matagal) da sobrancelha. Melhor evitar o retrovisor porque alguma dessas falhas técnicas você vai constatar no meio do caminho. Ou então, acorde dez minutos mais cedo e evite constrangimentos. Por causa dele já pensei em ter cotonete e demaquilante dentro do carro. Pinça é claro que tenho.
Se você saiu apressada de casa, eu recomendo: evite o retrovisor. Especialmente em dia de sol, com iluminação perfeita. Você vai enxergar coisas que jamais teria visto na luz do banheiro. Um perigo.


Foto: FFFFound

4 de nov. de 2010

Come e tranca

Já contei muitas frases de efeito do Fabio e ele sabe que apanha se quiser ser publicitário. O que nunca contei aqui no blog é que existe outra frasista na família. Valy, minha mãe. De todo o portfólio de frases engraçadas que ela já falou na vida, uma é hors concours: come e tranca.
A Vavá, apelido instituído pelo primeiro neto (o Rafa) que virou seu codinome desde então, poderia simplesmente dizer pra gente guardar segredo. Sem drama e sem impacto.
Em vez disso, ela criou essa pérola. Uma livre associação com o aparelho digestivo. Um novo papel para os intestinos, que se transformam em guardiões. Reter nas entranhas, essa é a ideia. Causar uma proposital retenção anal em nome de algo que jamais pode ser revelado. Só mesmo uma mãe para ensinar o valor da discrição utilizando como figura de linguagem o alimento.
Vavá, garanto que tu nunca tinha pensado nisso. Esse é só um dos motivos porque eu te amo tanto.

Imagem: FFFFound