19 de jan. de 2011

O valor do espaço

A lógica da geladeira deveria valer para o mercado imobiliário. Não faz sentido um casal de 2 rodelas de abacaxi ocupar um privilegiado potão 5 quartos. Eles devem procurar um potinho JK, liberando espaço para quem precisa (uma couve-flor inteira, por exemplo). Se a família fictícia de abacaxis já foi grande um dia e as rodelas saíram de casa, não tem porque o potão dar eco de tão vazio. Geladeira é como condomínio, tem espaço mas tem que saber aproveitar.
Na minha cozinha, a hierarquia dos potes é rigorosa. Não posso ver um restinho de comida ocupando 3 vagas na garagem que já tomo uma providência imediata. E lá se vai a mudança para uma metragem adequada. Do maior para o menor. Ou sendo mais específica, do pote grande para o médio confortável, depois para o médio justinho, para o pequeno espaçoso, o pequeno apertado e o minipote claustrofóbico. Seria injusto uma rúcula velhinha, já com o pé na cova do lixo, ficar guardada em uma área nobre da gaveta de verduras, enquanto o kg de batata se espreme e quase vira purê. Ordem de despejo nela! Eu vivo lavando potes mas fico com a consciência tranquila.

17 de jan. de 2011

Filhos idealizados X Filhos reais

Meus filhos nunca comeram brócolis ou beterraba em restaurante (muito menos em casa), atraindo suspiros invejosos de outras mães. Para falar a verdade, eu sempre estava sentada na mesa de onde saíam esses suspiros. Uma criança levar cenoura pra comer na hora do recreio, como já ouvi relatos orgulhosos, sempre pareceu coisa de ficção científica. Talvez seja mais fácil eu cruzar com o Darth Vader no Zaffari.
Meus filhos nunca dormiram a noite inteirinha quando eram bebês. Sei que existem pais felizardos que narram essa experiência surreal com detalhes. Impossível não comparar com as noites em que o Rafa nos fazia acordar cinco (5) vezes.
Meus filhos não gostam de ler, não tanto quanto eu. E também já fui informada de que existem, sim, crianças da mesma idade que devoram livros enormes. Por isso, estabeleci como missão de férias fazer a dupla ler.
Acreditando que milagres podem mesmo acontecer, quero que eles descubram que leitura dá prazer, não sono. E que a gente pode esperar o dia inteiro para finalmente chegar de noite e retomar um livro, uma história, um mundo à parte.
Ontem os dois foram na Livraria Cultura e, diante de um cardápio tão apetitoso, escolheram um livro cada um. Criei uma única regra: ler uma hora todos os dias. Rapidamente o Fabio colocou um relógio enorme pra marcar o tempo. Tive que flexibilizar a regra antes que virasse um tiro no pé (o meu, claro). Ler o suficiente para se envolver com a história.
Há pouco fiquei sabendo que o Fabio está gostando das Crônicas de Nárnia, apesar de achar meio confuso. Ele começou pelo segundo volume, por motivos óbvios. "O primeiro tem umas 750 páginas, mãe. Ninguém merece!"
Até o fechamento desse post, o senhor Rafael não tocou no seu exemplar sobre a história das seleções brasileiras de futebol. E você sabe, se um não está fazendo o combinado, o outro se sente no legítimo direito de descombinar também. Convoquei o Ricardo para dar um cartão vermelho no cara. E cheguei à conclusão de que a maternidade é mesmo a Terra Encantada das Idealizações.

13 de jan. de 2011

Brilhante definição

"O adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas; está para a língua assim como a cor para a pintura. O mundo sem ele é triste como um hospital no domingo."

(Revista Piauí de janeiro, matéria Em Defesa dos Adjetivos)

12 de jan. de 2011

Ciúmes numa hora dessas?

Atenção mães blogueiras, esse é um post-pesquisa. Quero saber se acontece com vocês: filho com ciúmes do blog. Atenção antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros ólogos, pode ser uma nova tendência de comportamento: a DR com filhos.
Achei que era só comigo mas hoje, conversando com a Alexandra do Destemperadinhos, fiquei sabendo que ela também passa por isso e já ouviu a frase "tu quer casar com o teu computador!!". O Fabio seguido reclama que dou mais bola pro blog do que pra ele - vê se pode. E ainda tem ciúmes do Twitter e do Facebook. O Rafa e até o Ricardo entraram na onda e engrossam o coro. Será a nova neurose feminina?
Desculpe, essa é uma culpa que eu não vou absorver. Já tenho tantas! Claro que manter um blog atualizado toma tempo e requer dedicação. Mas se nos dá prazer, a gente dá um jeito. Posta de madrugada, do trabalho, do banheiro. Escrever é uma terapia econômica e produtiva. O pessoal vai ter que se acostumar com a ideia. Inteligente é a minha amiga Fernanda Reali, que fez um blog pro Guga e outro pra Helena. Cada um no seu quadrado.

Mr postman

Hoje li duas coisas que deram saudade de uma cartinha à la antigamente. A carta é a tataravó do e-mail e por séculos conectou as pessoas. Foi moderna e prática do seu jeito.
Olha que legal. O correio americano vai lançar selos com personagens da Pixar. Só isso já dá vontade de comprar papel, envelope e caprichar na letra. Agora o que eu amei mesmo foi uma ação feita em Madrid ano passado, chamada Poesia iluminada. Um grupo de poetas pendurou mil cartas em um jardim, cada uma com uma luzinha e uma poesia dentro. Por 3 dias, as pessoas foram convidadas a pegar uma dessas cartas e enviá-la pra alguém especial. Achei sensível e surpreendente. Pra não dizer romântico até entupir o canal lacrimal.

Começa assim

Vou prestar mais atenção quando abrir meu guarda-roupa. Posso estar separando algum casalzinho sem querer. Ou forçando a barra, fazendo com que a regata branca que é ex do cinto marrom saia de novo com ele. Será que lá dentro rola o mesmo clima que acontece nas empresas, com muito colega se querendo? Talvez o guarda-roupa seja um micro-cosmo social onde a convivência também cria vínculos - nem sempre coleguísticos.
Já era difícil escolher o que vestir de manhã cedo. Agora a logística complicou.


Foto: Booooooo.com

7 de jan. de 2011

O Primeiro

(publicado no site do Bourbon Shopping)


Já reparou como a gente cultua o que vem primeiro? O Primeiro beijo, O Primeiro da fila, O Primeiro lugar no concurso, O Primeiro carro, O Primeiro amor, O Primeiro apartamento, O Primeiro emprego, O Primeiro filho, O Primeiro neto. Todos esses primeiros costumam ocupar espaço nobre na nossa memória (incluindo aí O Primeiro fora, O Primeiro porre e O Primeiro fio de cabelo branco). O dilema clássico do “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?” na verdade é só uma disputa pelo primeiro lugar. Nada menos filosófico do que isso.
Se O Primeiro sempre ganha os holofotes e ganhou até maiúsculas nessa crônica, por que janeiro não tem a mesma sorte? O Primeiro mês do ano merece um tratamento mais digno, mas acaba sendo encarado como uma ressaca de dezembro. Sinceramente, acho que dezembro não é tão legal assim. Ele teve a sorte de estar na hora certa e no lugar certo – ou seja, no final do ano, onde todos se emocionam fácil.
Janeiro pode muito bem ser sua extensão, roubar um pouco desse carisma, pegar carona nas idealizações, sonhos e promessas. Quer ver um bom exemplo? No mês passado (você sabe qual é), bati o recorde de happy hours. Tive uma urgência de rever todos os amigos, atropelei beijos e abraços. Eu poderia ter deixado alguns desses excelentes momentos para janeiro. Ainda dá tempo de fazer isso. E com ar-condicionado tão geladinho quanto o espumante.
Janeiro é pontapé inicial, primeiro vagão do trem, ponto de partida, fio condutor, pedra fundamental. A menos que você tire férias nesses 30 dias e automaticamente promova janeiro ao melhor mês da vida, vai precisar mudar sua atitude em relação a ele. A Dilma nunca mais vai esquecer esse janeiro. Os primeiros bebês do ano ganharam destaque no jornal, tomara que ganhem atenção para sempre. Minha sugestão? Se cada um de nós fizer uma coisinha incrível durante esse mês, seu conceito vai subir. E se nada disso acontecer, pelo menos janeiro já ganhou uma crônica em sua homenagem. Beijão para você, querido!