10 de ago. de 2011

Comprovante de residência

Para mim, comprovante de residência é a nota do edredon que está na lavanderia (e demora tanto pra gente buscar, que o papel vira um origami dentro da bolsa). Também é o bilhetinho escrito às pressas "comprar café, papel higiênico, banana e pasta de dente". O post-it colado no visor do celular, lembrando de chamar urgente o encanador. Ou o pedaço de papel com aquela receita anotada de qualquer jeito, com muita probabilidade de estar faltando algum ingrediente. São esses comprovantes que dão veracidade a uma residência. Aliás, a palavra residência é formal demais para um lugar que tem tanto valor sentimental. Nenhum endereço impresso do lado de fora de uma correspondência pode validar tudo que acontece do lado de dentro da nossa casa. Por isso, da próxima vez que pedirem comprovante de residência, vou apresentar minha lista do supermercado. Ela, sim, é um documento valioso.

Foto: FFFFound

9 de ago. de 2011

Engajamento de mural


O engajamento de mural é o novo spam. Ou aquelas correntes que a gente odiava receber por e-mail, lembra? Quem frequenta o Facebook certamente já viu (e se irritou) com essa febre do “Se você tem......, copie e cole no seu mural.” Conheço muita gente boa que inclusive já postou um desses em algum momento de comoção. Dentro da etiqueta do Facebook, deve somar pontos. Tipo assim colocar trabalho voluntário no currículo. Talvez seja só falta de assunto.
"Se você tem ......, copie e cole no seu mural.” Agora preencha o espaço em branco com qualquer pessoa incrível que você tenha: irmã incrível, pais incríveis, filho incrível, melhor amigo do tempo do colégio incrível, vizinho incrível, professor incrível. E não esqueça de copiar e colar a parte de cima da mensagem, geralmente um parágrafo recheado de elogios e agradecimentos para a pessoa em questão.
Muita gente leva esse engajamento de mural a sério, sorte que sempre tem a ala debochada que lança novas versões. A última é a divertida “Se você tem um zelador que salva a sua vida, copie e cole no seu mural.” Genial! O setor dos prestadores de serviços abre infinitas possibilidades de homenagens. Se você tem um entregador de galão de água de confiança, se você tem uma depiladora puxada, um podólogo que salva qualquer unha encravada, uma designer de sobrancelha, um flanelinha honesto, um taxista da família, um garçom de festa de casamento, um entregador de pizza, um pipoqueiro de praça, um frentista amigo, um empacotador do Zaffari preferido, um Azulzinho de blitz camarada, uma revendedora Natura que faz seus pedidos chegarem antes da data, copie e cole no seu mural.
Tomara que o seu mural seja bem resistente. O meu já não aguenta mais.

5 de ago. de 2011

Sonho adiado

Acabei de ler uma matéria que comprova algo que vejo acontecer cada vez mais ao meu redor. Agora são os homens que pressionam as mulheres pra ter filho. Pedem, insistem, tentam negociar, fazem cara de pedinchões quando encontram bebês fofos na rua. As mulheres na faixa dos 30 não caem nessa conversa tchutchuquinha, não. Dizem com todas as letras algo que até então saía da boca dos homens: “não estou preparada”. Para tristeza deles, a gravidez é empurrada com a barriga em nome de mais uma viagem, curso ou promoção. E lá se vai a chance de trocar fralda e embalar sua própria cria. Essa postura feminina não é novidade, o que mudou foi o comportamento (às vezes desesperador) dos homens modernos. Eles, sim, estão ouvindo o relógio biológico. E assumem a vontade latente de exercer a paternidade. Parece que os novos homens vão ter que esperar um pouco mais para conseguirem ser os novos pais. Ou então, que sejam mais persuasivos no pedido.








Ilustração: FFFFound

4 de ago. de 2011

De volta pra casa

E aqui estou eu, novamente em processo de recuperação. Em casa, bem quietinha, tentando colocar em prática duas palavras difíceis de administrar: REPOUSO + ABSOLUTO.

Lembra da cirurgia para a troca de peitos? Foi tudo ótimo, retomei a rotina mantendo vários cuidados e 18 dias depois tive uma surpresa desagradável chamada seroma. Agora já sei o que as grávidas sentem quando estoura a bolsa. Seroma é tudo o que não pode acontecer num pós-operatório de mama. Sorte que o corpitcho providenciou uma drenagem por conta própria, o que me assustou bastante. Corri para a médica e estou desde terça em casa, com mil antibióticos, reações alérgicas e os peitos enfaixados feito gueixa. Posso teclar, mas quem diz que me sinto livre e leve pra isso? Repouso absoluto significa nem ao menos caminhar pela casa - ou o mínimo possível. Consequentemente, voltei à irritação de pedir ajuda para tudo e para todos. Mas vou conseguir sair dessa, já estou conseguindo. Tem um tio meu que diz o seguinte: "mexer no original, só em último caso." É verdade. E as mulheres se contentam com aquilo que vem de fábrica? Pior é que (agora caiu a ficha!) meu carro também ficou com um barulhinho errado, nem ele conseguiu ficar 0km.

Imagem: vomaria.com

3 de ago. de 2011

Pai é tudo de bom

Crônica para o site do Bourbon Shopping



Tem algo errado no calendário. Você já reparou como o Dia dos Pais sempre parece uma data menor se comparada ao Dia das Mães? Os comerciais de TV não são tão emocionantes, as filas do lado de fora dos restaurantes são menores, os presentes não arrancam as mesmas lágrimas, as palavras de agradecimento são mais sucintas.
Não acho justo, não depois de tudo que eles fizeram nessa longa caminhada para se aproximar dos filhos e evoluir o conceito da paternidade. Desde que o mundo é mundo, as mães brilham. Já os pais tiveram que correr atrás. E conseguiram rever seu papel a tempo.
Antigamente, era sinal de respeito chamar o pai de senhor. Ganhar beijo de filho era tão raro quanto ganhar beijo de pai. E as conversas, que mal aconteciam? Tanta formalidade acabava por afastá-los. Talvez os pais do passado até preferissem dessa forma, sem saber como reagir a um abraço mais caloroso ou a alguma confidência de um filho. Liberdade de expressão ou de emoção era algo que não fazia parte da rotina.
Hoje a história é bem diferente, os pais abrem o maior sorriso ao serem chamados de amigo. Fizeram por merecer. De provedores da casa a parceiros de brincadeiras, muitas regras foram transgredidas. Sem falar nas mães, que invadiram territórios sagrados como o mercado de trabalho e os esportes, atraindo ainda mais os holofotes. Pais que antes chegavam em casa e esperavam serem tratados como reis tiveram que arregaçar as mangas e preparar a janta para os filhos. Quem ganhou? Todo mundo, com certeza.
Mesmo com inúmeras mudanças, fica uma sensação de que os pais não conquistaram a melhor parte de todas: o reconhecimento. Cabe a nós, filhos, transformar o dia deles em uma data tão significativa quanto o Dia das Mães. No dia 14, você já sabe. Até fogos de artifício para eles!

Adoro essa revista




Saiu a nova Estilo Zaffari. E tem uma matéria minha sobre chá. Prepare o seu e boa leitura!


1 de ago. de 2011

Leitores de obituário


Quem lê bula de remédio é apenas hipocondríaco perto dos leitores de obituário. Esses, sim, podem dizer que leem tudo.
Fiquei curiosa e li alguns. Tive a sensação de estar entrando em velórios de quem não conheço, só para dar uma espiadinha no morto. Ler obituário é chegar justamente na hora em que um ente querido está falando sobre o falecido. Poucas palavras nunca vão dar a real dimensão de toda uma vida. Será que os tímidos aprovariam a exposição?
A gente deveria pedir licença antes de invadir o conteúdo estritamente pessoal de um obituário. Mais que uma homenagem póstuma, é uma micro-biografia não autorizada. Sua publicação revela sonhos, conquistas, gostos e qualidades. O morto sempre será poupado dos seus defeitos, medos e contradições. E nós ficaremos sem a parte mais humana e interessante.
Os leitores de obituários procuram histórias de vida e encontram o resumo parcial do personagem. Ou vai ver é só hábito de leitura.