30 de set. de 2008

Revista Claudia, abril 2007

O pessoal da Claudia pediu uma continuação da matéria sobre o diário da minha operação. Tirando a foto megaultrapowerexagerada, acho que ficou na medida.

Quando Claudia me convidou para investigar o que os homens realmente acham de peito com silicone, olhei para os meus (peitos, não homens) e pensei: já sei a resposta, pelo menos lá em casa. Tirando os decotes, meu marido não tem o que reclamar. Aliás, elogia sempre. Para entrar no clima dessa matéria Ricardo diria que, quase um ano depois do emplacamento, meus peitos ainda têm cheirinho de carro zero. Machista? Ih, você ainda não leu nada. É a testosterona com a palavra. Munida de um questionário e uma blusa discretinha, fui a campo ouvir outras opiniões para dividir com você. Vai ser como entrar num vestiário masculino, e isso pode ser divertido. Não garanto isenção nas perguntas e muito menos na análise das respostas. Confesso que às vezes tive vontade de quebrar o protocolo e levantar a blusa para mostrar que nem todo silicone fica artificial. Conversei com publicitários, jornalistas, engenheiros, administradores de empresas, consultores, escritores, empresários e chefs de cozinha. O que posso garantir é que os entrevistados responderam de peito aberto – com o perdão do trocadilho.

Posso citar seu nome na matéria? Talvez essa tenha sido a pergunta mais embaraçosa. Temendo constrangimentos ou cenas de ciúmes, a maioria pediu para não ser identificado - chamarei esses precavidos de um único codinome. Como foi a primeira vez que você tocou num peito com silicone? Tinha fantasia a respeito? “Fantasia, não muita. Curiosidade, imensa.” (Homem, 48) “Notei que havia algo estranho, uma presença a mais na cama.” (Martin Haag, 41) “Tinha curiosidade de saber se faria algum barulho. Tchóin? Blup? Nhec? Não fez barulho, mas foi geladinho.” (David Coimbra, 44) “A sensação foi ruim, de algo artificial, meio duro, sem flexibilidade”. (Homem, 53) “Tinha curiosidade quanto à resistência, mas o gosto é o mesmo.” (Ricardo Beck, 26) “O primeiro que toquei tinha sido recém colocado, ainda dava para sentir as bordas da prótese na ponta dos dedos.” (Homem, 49) “Tenho a fantasia inversa, de peito natural, macio, formato de pêra.” (João L. Fonte, 24) “Foi estranho, a garota estava esperando uma avaliação, era mais um julgamento do que uma curtição.” (Gilberto Della Giustina, 42) “Achei melhor que peito pequeno, mas não se compara com o original”. (Homem, 24) Qual o lado positivo e negativo do silicone? “Estará sempre lá, no mesmo lugar”. (Homem, 26) “Se bem feito, fica incrível. Se mal feito, fica horrível.” (Homem, 27) “De positivo, muitos. Como aumentar a auto-estima das mulheres e outras coisas no homem. De negativo, só se for a inveja das amigas.” (Thiago Ferreira, 27) “Ver a mulher de bem consigo mesma não tem preço. É bom para ela e, consequentemente, bom para nós.” (Homem, 26) “O lado negativo não está no silicone em si, mas em quem coloca nele a responsabilidade de se tornar mais atrativa sexualmente, exagerando no tamanho.” (Cláudio Gzelchak Jr, 44) “Se você quer introduzir um corpo estranho no seu corpo, posso sugerir um tipo melhor... além do mais esse não é permanente: ele entra e sai.” (Homem, 48) Já teve dúvida se o peito era turbinado e ficou com vergonha de perguntar? “Se for silicone, ela vai falar, faz parte da coisa contar para os outros.” (Homem, 45) “Nesse caso se consulta os amigos da roda.” (Lucas Waechter, 25) “É como discussão de pênalti: passa o replay, analisa o lance, o movimento.” (Martin Haag, 41) “É só olhar: se os dois forem iguaizinhos, é silicone. Quando os peitos são de verdade, um é sempre maior que o outro.” (Homem, 49) “É que nem cabelo de homem pintado: se nota à distância.” (Homem, 53) “Costumo acertar. Inclusive sempre passo nos testes de revista masculina”. (Homem, 24) “Fiquei surpreendido quando descobri que eram 2 mísseis, originais de fábrica, apontados para cima!” (Homem, 31) Passou por alguma situação engraçada frente a um peito com silicone? “As cicatrizes em volta dos mamilos estavam bem visíveis, tinha medo que aquelas tampinhas saltassem.” (Homem, 49) “Ouvi um ‘não aperta muito’ e fiquei imaginando a prótese se deslocando para as costas.” (Ricardo Beck, 26) “Eu era o único homem no aniversário de uma amiga que ganhou os peitos de presente e lá se foram todas para o banheiro apalpá-la. Fiquei sozinho do lado de fora.” (Vinicius Malinoski, 25) “Já vi um que era tão desproporcional que parecia cômico.” (Homem, 54) “Pedi para apertar e levei um imenso ‘não’. Todas as mulheres apertam, por que essa discriminação com os homens?” (Lucas Waechter, 25) Um striptease com peitinho ou um papai-mamãe com peitão? “Papai-mamãe com peitão!! - será que alguém vai responder diferente?” (Homem, 26). “Os dois, de preferência ao mesmo tempo.” (Thiago Ferreira, 27) “Striptease com peitinho é mais sensual”. (Jorge Nascimento, 41) “Um peitinho mais ousado é melhor do que um peitão que acha que está podendo”. (Homem, 27) “Qualquer coisa desde que com peitão. Mas também não recusaria a primeira opção”. (Heleno Schneider, 30) Mulher com silicone age diferente na cama? “É mais exibida, mais solta, mais orgulhosa do próprio corpo. Elas ficam sem vergonha, em ambos os sentidos.” (Homem, 49) “Quando é recente, algumas querem experimentar coisas que antes não podiam fazer... e viva a Espanha!” (Cláudio Gzelchak Jr, 44) “O silicone traz uma feminilidade e principalmente uma segurança que melhoram muito as atitudes da mulher na cama.” (Homem, 27) “Enquanto elas não estão adaptadas ao novo ‘modelo’, não param de olhar”. (Homem, 40) Mulher com silicone muda a forma de se vestir? "Claro! O silicone faz parte de um projeto muito amplo onde entra a postura, academia, roupas novas e até, quem sabe, um homem novo.” (Martin Haag, 41) “Se pouco peito é sem graça, peitão siliconado balançando e saindo para fora é engraçado.” (Homem, 27) “Lógico. Decotes profundos como Nietzsche.” (David Coimbra, 44) “Algumas ficam ajeitando os peitos toda hora, como se fossem uma peça de roupa.” (Homem, 33) “Óbvio que sim, para mostrar o investimento. Principalmente para as amigas, sempre as amigas.” (Homem, 49) É melhor peito com silicone na sua mulher ou na mulher dos outros? “Na minha, na dos outros, em todo mundo”. (Homem, 27) “Em todas que fiquem bonitas e se sintam mais felizes.” (Jorge Nascimento, 41) “Como um cara casado eu prefiro na minha mulher, pois o que é dela é meu”. (Daniel Pettenuzzo, 28) O silicone da vizinha sempre vai parecer mais macio que o da sua mulher”. (Homem, 49) “Na dos outros, na minha deixa natural”. (João L. Fonte, 24) “Gosto de secar a dos outros mas também de me exibir com a minha”. (Rafael Bedin, 27) Homem olha para peito por força de hábito ou porque realmente não consegue evitar? “É automático e involuntário. Desculpem-nos, mulheres, se às vezes perdemos a concentração no meio da conversa.” (Heleno Schneider, 30) “Não conseguimos evitar por força do hábito. E por força do hábito, não conseguimos evitar”. (Homem, 30) “Eu vejo aquele vale desenhado na minha frente e dá vontade de fazer parte de tudo aquilo, colocar uma casinha ali e assistir da varanda os dias passando.” (Martin Haag, 41) “Com a moda do silicone, prefiro olhar para as bundas, que ainda permanecem naturais”. (Homem, 33) Filosoficamente falando, homem gosta de peito grande porque tem saudade do tempo em que só mamava, só dormia e não tinha contas para pagar? “Não gosto só de peito grande. Dou valor aos médios empinados e aos pequenos orgulhosos também.” (David Coimbra, 44) “Filosoficamente falando, homem gosta de peito e pronto. Gosta de bunda e pronto. Gosta de mulher e pronto.” (Homem, 26) “Sempre é bom ter onde mexer, pegar, abocanhar. Homem gosta de manipular, faz parte da masculinidade”. (Homem, 45) “É tara mesmo, o instinto procura a mais bem preparada.” (Homem, 24) Se você fosse mulher, colocaria silicone? “Se tivesse peito caído, com certeza. Ou se fosse muito pequeno”. (Homem, 31) “Se tivesse um zíper, acho que sim. Para tirar e botar quando bem entendesse.”(Homem, 49) “Será que no clitóris funcionaria?” (Homem, 48) “Não, eu usaria roupas que favorecessem, sutiãs que aumentassem, e trabalharia para que a moda do peitão passasse.” (Homem, 53) “Depende: isso me deixaria mais feliz ou é porque todas estão colocando?” (Homem, 24) “Creio que não, da mesma forma que não tenho cabelo e não uso peruca”. (Homem, 42) Olhar peito com silicone e não poder tocar é como ir ao shopping sem dinheiro? “Olhar já dá uma certa satisfação, mas não substitui o roçar dos dedos, a sensação de apertar os dois ao mesmo tempo.” (Homem, 49) “Até é, mas dá pra se divertir bastante imaginando como aquela roupa da vitrine cairia bem em mim.” (Homem, 27) “É pior. Um belo par de peitos é muito mais irresistível que qualquer liquidação.” (Thiago Ferreira, 27) “Depende da dona da ‘carteira’. Tem mulher que pode estar com uma D&G e não saber carregá-la. Tem outras que podem estar com uma bolsa sem marca e ser um charme.” (Homem, 40)
Vai dizer que você também não se sentiu num vestiário masculino? Com ou sem silicone, eles olham. E olham muito. É como se os homens já nascessem com o cargo vitalício de catalogar os peitos mais bonitos, harmônicos e perfeitos. Óbvio que peitos turbinados atraem ainda mais olhares. Mas os exagerados só fazem sucesso em pornografia. Na vida real, a preferência é o peito que encha a mão e seja gostoso de apertar. Os homens que testemunharam – como disse alguém – a “experiência antropológica” do Antes e Depois adoraram as mudanças externas e internas na parceira. Já os traumatizados não guardam boas lembranças. É como disse um dos entrevistados: “Entenda que há beleza em seios pequenos, médios e grandes.” E eles dão a dica: “mais importante do que ter, é saber o que fazer com os peitos.”

Peito com silicone é como...
celular: não sei como antes eu vivia sem.
final de campeonato: decisivo.
ar condicionado: sinto mais falta no verão.
carro automático: não sei como é mas logo pego o jeito.
produto paraguaio: não confio e não recomendo.
sexo: nunca é demais.
cerveja no verão: desce redondo.
salsicha: gostoso mas é melhor não saber como são feitos.

29 de set. de 2008

Economia de guerra

A crise bateu feio na casa dos Silva de Andrade e Almeida. O sobrenome já era um excesso, precisava tudo isso? Eles poderiam muito bem viver com apenas um. Optaram pelo Silva, mais popular e condizente com a pindaíba atual.
Economia de guerra era a nova regra da casa. E que ninguém quebrasse essa regra porque não tinha dinheiro para comprar outra.
Começaram cancelando as assinaturas de jornais e revistas, passando a surrupiar a Veja do primeiro vizinho que a dispensasse no lixo. As notícias não ficavam tão velhas de uma semana para outra, sempre alguém matava alguém, um famoso descasava de outro famoso, as falcatruas seriam sempre falcatruas.
Depois de cortar até manga de camisa, respiraram fundo e atacaram um ponto nevrálgico do orçamento: a lista de supermercado. A partir de agora, supérfluos como biscoitinhos em formato de urso teriam que ganhar autorização do Ibama para entrar na lista de compras. Bebida, só água da bica. Palmito, não. Cogumelo, nem pensar (só se nascesse no vaso de plantas). Filé, fora de cogitação. E os dentes da família, alinhados a peso de ouro? Todos podiam mastigar um músculo traseiro previamente amaciado com casca de mamão. E assim, sem piedade, riscaram itens antes consumidos sem dor na consciência. Foi quando alguém lembrou dos produtos de limpeza.
A empregada, já instruída a grudar restos de sabonete até formar aquela bola multicolorida, levou um choque quando comunicaram que a caixa aberta de Omo Dupla Ação Cores Plus seria a última. Marcas líderes, o fim de uma era. Elas nada mais eram do que uma dependência estabelecida pelos meios de comunicação de massa (falando em massa, Barilla non. Falando em italiano, cancela as aulas). Quem disse que roupas de fino trato não podem ser lavadas com marca diabo? Eles ainda tinham roupas de fino trato para lavar e pendurar nos cabides (de lavanderia, mas eram cabides. Lavanderia, outro fim de outra era). Comprar Omo cegamente era um preconceito em relação a... a... a... ninguém lembrava os nomes de sabão em pó existentes no mercado. Bando de mal-acostumados.
Não demorou até que a família chegasse ao assunto mais polêmico da casa, algo sempre poupado em crises anteriores dada a complexidade do tema: o papel higiênico. Precisava comprar papel higiênico colorido? Com essência de óleo de amêndoas? Com camada ultra-extra-soft com picotes light, que não agridem a natureza da sua pele? Alfreeedo, traz o lixinha.... A filha se rebelou e disse que até abria mão do sobrenome pomposo, do palmito, da Barilla. Mas se fosse obrigada a usar lixa nas partes íntimas, sairia de casa. O pai topou na hora. Uma boca a menos.

26 de set. de 2008

Queria escrever de novo para Revista Estilo Zaffari

Escrevendo essa matéria, eu me senti meio jornalista, meio turista, meio falcatrua. Mas gostei do resultado.



Atenção: este é um texto cheio de palavras japonesas. Mas fique zen porque você não vai precisar de tradução simultânea. A idéia é justamente mostrar quantos japonismos já foram incorporados ao samba nosso de cada dia. E vice-versa.
Vamos começar com um passinho para cá, dois para lá: a palavra sushi dispensa apresentações e foi deliciosamente explicada na matéria de capa. Agora, cá entre nós, Manekineko pareceu grego para mim. Eu conhecia os simpáticos gatinhos mas não sabia que eles tinham esse nome. Amuleto típico do Japão, o Manekineko é um primo sortudo da Hello Kitty e possui diversas cores e significados: o gatinho manchado é o desejo de sucesso profissional, o preto atrai saúde e o dourado (adivinhe!) é riqueza na certa. Se o gato estiver com a patinha direita levantada, você vai encontrar um grande amor. Se for a patinha esquerda, prepare-se para receber bens materiais. Sim, os japoneses também são supersticiosos como nós. Vire a página e descubra que as semelhanças não param por aí.

O japão aqui

Enquanto os japoneses dormem no outro lado do mundo e sonham com celulares miniatura implantados no tímpano, o ocidente vive um dia-a-dia cheio de referências nipônicas e nem se dá conta. Se a palavra ocidente parece distante demais para você, esqueça a Europa e os Estados Unidos. Feche seus olhos e pense no Brasil.
Pedro Álvares Cabral ia achar uma piada se voltasse agora ao Brasil e descobrisse o nosso japa way-of-life. Nas praias, garotas com os cabelos presos com hashis revelam suas nucas tatuadas com ideogramas japoneses (eles continuam em alta nas melhores casas de tatoo do ramo). Nas baladas, essas mesmas mulheres surgem de cabelos exageradamente lisos por horas de escova, chapinha japonesa e progressiva - quem sabe tentando ser gueixas à procura de samurais nas pistas de dança.
No centro das cidades, lojas de departamento vendem filmadoras Sony, máquinas digitais Panasonic e DVDs que vêm com tudo – inclusive karaokê, o passatempo preferido dos japoneses. As empresas de locação para festas que o digam: o karaokê e suas pastas cheias de opções musicais animam desde aniversário de sete anos a jantar de gente grande. Apesar de eu não achar graça em ver a imagem congelada do Monte Fuji e a letra da música pulando na parte de baixo do vídeo, o povo se diverte e canta aos berros para então ganhar uma nota. Silêncio, alguém lá dentro da TV está pensando... seis e meio!! Parabéns, você é um excelente cantor de chuveiro!
Na hora do almoço, o feijão com arroz parece brasileiro demais. Melhor chamar um telesushi, passar por um sushi-drive ou descongelar um Yakissoba comprado no supermercado. Se a fome for pouca, um Miojo Nissin ou uma saladinha de cogumelos Shitake temperada com molho Shoyo resolvem o problema.
De tarde, adultos estressados fazem shiatsu no trabalho e idealizam um banho de ofurô no fim do dia. Já as crianças tomam Yakult com lactobacilos vivos e se divertem com a infinita quantidade de desenhos japoneses. Cavaleiros do Zodíaco, Yu-Gi-Oh, Pokémon e Samurai Jack agitam ainda mais os meninos. E para as meninas que amam a gatinha Hello Kitty, tem Ami e Yumi - inspiradas nas roqueiras japonesas mais pop da terra do sol nascente. Se tudo isso parecer coisa de criança, as adolescentes podem ligar a TV e copiar o modelito que a atriz japa-fashion Daniela Suzuki está usando. Os garotos vão preferir fazer origami com o cérebro de quem inventou essas bobagens e certamente irão escolher um videogame de lutas marciais. Ou ler Mangás – as histórias em quadrinhos japonesas que cada vez mais conquistam os brasileiros.
A moda ocidental há tempos reverencia estilistas japoneses como Kenzo, Issey Miyake, Yoji Yamamoto e Rei Kawakubo da Commes des Garçons. Quimonos e Obis vão e voltam nas passarelas, orientalizando os guardaroupas de tempos em tempos. A indústria da beleza também pede a benção aos lançamentos da Shiseido. E que brasileira seria kamikaze a ponto de ignorar as japonesas com sua pele alva e macia, a boca vermelha e pequena como uma cereja, o cabelo impecavelmente liso, os gestos delicados e o corpo esguio?
Apertando os olhos e forçando o foco no Rio Grande do Sul, descobrimos que o Japão também é aqui. Pegue seu Toyota ou Honda e vá até a Praça Japão, no coração de Porto Alegre. Ou o recanto oriental da Redenção num belo domingo de sol. Você vai ver muito gaúcho da gema tomando chimarrão misturado com chá verde. Faz bem para a saúde, sem dúvida. Mas virou moda. Quem preferir tomar mate no aconchego de casa pode escolher a poltrona perto da luminária japonesa e apoiar os pés num futon de seda. Ou então ir para a tranquilidade da sacada decorada com pedrinhas brancas e muro de bambus onde corre um fio de água da fonte presa na parede – opa, alguém andou vendo revistas zen e buscou inspiração nos jardins japoneses. Só falta um Bonsai no centro da mesa e carpas no aquário do banheiro.
Se antes eu achava exótico ter bala de algas para vender no supermercado, imagine agora que fazem no interior do Estado até campeonato de Sumô, a tradicional arte que surgiu no Japão há milênios. Por isso, minha amiga, pegue um saquê e faça um brinde a tudo de bom que vem do Japão. Desde, é claro, que os gafanhotos caramelizados permaneçam bem longe daqui.

O Brasil lá

Enquanto os brasileiros dormem e sonham com o final das CPIs, no lado de lá o Japão acorda e se prepara para outro dia de trabalho árduo – especialmente se forem os mais de 250 mil dekasseguis, descendentes de japoneses que largaram o Brasil para voltar à terra dos antepassados.
Mas não pense que eles só enxergam as linhas de montagem na sua frente. Depois de um dia puxado dentro das fábricas, nada como pegar a bicicleta e ir até o bar mais próximo tomar uma cerveja com os amigos. Se o assunto for futebol, a pedida é uma Brahma ou Antarctica (que atravessaram o mundo e continuam geladíssimas) e ficar conversando sobre a atuação do Zico, técnico da seleção japonesa de futebol. Quando o assunto terminar, os brazucas podem fazer como os nativos e apreciar as árvores de Cerejeira que florescem e formam túneis cor-de-rosa. A beleza é tanta que o garçom vai entender se você levantar o dedo e pedir “Salta um Haicai na mesa 3!” Em caso de fome, que venham o pastel e um churrasquinho de saideira.
Se mesmo bebendo ficar difícil entender o que eles falam, nada de pânico. Onde tem brasileiro, tem jeitinho para tudo. Um bom exemplo é o jornal semanal Tudo Bem, editado pela JBC – Japan Brazil Communication, que também faz a ponte aérea de mangás e livros. O jornal é escrito em português e vendido em mais de 400 locais, além da versão atualizada diariamente na internet. É um verdadeiro guia de sobrevivência para os conterrâneos que vivem no Japão e também um elo de ligação com o Brasil.
Site lembra internet, que lembra cybercafé, que dá uma vontade louca de tomar um cafezinho. Se você é como eu, movida a expressos e capuccinos, fique tranquila porque os japoneses já descobriram o kohi (do inglês coffee) e tomam o pretinho quente ou frio. É, aos poucos nós estamos invadindo a ilha. Já exportamos até manifestações culturais típicas como a festa de São João e, claro, o carnaval que no Japão se chama Matsuri e também enche as ruas de alegria. Quem sabe o próximo a cruzar o oceano é o Festival de Parintins – consigo imaginar os bois Caprichoso e Garantido dizendo arigatô no final.
Samba, música sertaneja, show do Supla e gente pulando com a Sandy e o Júnior pedem licença ao J Pop (como eles chamam o som pop nipônico) e arrancam bis da galera. E mesmo que os japoneses fabriquem ídolos na mesma velocidade com que produzem eletrônicos, sempre tem palco sobrando para o astral dos brasileiros. Até a Turma da Mônica enfrentou o jet lag para mostrar os planos infalíveis do Cascão e Cebolinha, o pêlo azul do Bidu e a gula da minha xará – aposto que a Magali deve ter adorado as melancias sem sementes que eles inventaram.
Nova Iorque ficaria com ciúmes se visse a quantidade de lojas que vendem produtos brasileiros nas ruas do Japão. Em algumas cidades, há placas em português e o brazuca way-of-life bomba nas vitrines. Falando em consumismo, nós parecemos o Tio Patinhas perto dos orientais. Pegue sua máquina digital e vá para os bairros de Shibuya e Harajuku. Você vai se sentir numa Disneylândia fashion - ou dentro de um Mangá-rave, quem sabe numa festa a fantasia de dragqueens. Imaginou algo excêntrico e bizarro? E é mesmo. Foi o jeito que a molecada encontrou para acabar com esse papo de que japonês é tudo igual. Quando a semana termina e eles tiram os sisudos uniformes do colégio, o negócio é se vestir de Anjo de Luto, Sailormoon da Sapucaí, Barbie-Pikachu, Gueixa Psicopata, Marilyn Shoyo Manson e curtir o domingo, cada um na sua tribo.
O Japão é assim, muita informação para assimilar. Ouvi dizer que tem japonesa colocando silicone no bumbum para imitar o nosso padrão estético. E não vou estranhar se a Ana Maria Braga ensinar a fazer cuscuz de sashimi no seu programa. O fato é que as culturas oriental e ocidental nunca se misturaram tanto. Viva a globalização que transformou o globo numa bolinha de pingue-pongue que a gente joga de lá para cá. Sophia Coppola que me perdoe, mas existem muito mais encontros do que desencontros com os japoneses.

25 de set. de 2008

Turbulência

-José Antônio! Você tirou foto das nuvens!
-Qual é o problema?
-Parece até que foi a primeira vez que andou de avião.
-Olha que tapete branco e fofo, Solange.
-Foto de nuvem, José Antônio. Sinceramente.
-Aqui embaixo elas são apenas coadjuvantes.
-Nuvem é sinal de chuva, isso sim.
-Mas lá de cima, a gente vê que o céu é quase nada. Existe uma cidade de nuvens, Solange.
-Só pode ser algo estragado que você comeu no vôo.
-E eu seria doido de olhar para aquelas barrinhas com tanta nuvem para admirar? Acho que as nuvens dizem "Xis" para sair sorrindo nas fotos...
-José Antônio, você está me assustando...
-As nuvens são seres mutantes, libertários e muito fotogênicos.
-Nunca vi tanta bobagem.
-Pois devia. Olhar as nuvens purifica.
-José Antônio da Silva Paes, quem é a loira nessa foto?
-É a Vanda da 6B, também uma apreciadora das nuvens.
-Desde quando você canta mulher em vôo?
-Eu sentei na 6A, ela na 6B. A gente mal se falou até eu abrir a janelinha.
-Duvido.
-Depois a Vanda achou uma nuvem que parecia o meu chaveiro em formato de J.
-E eu que desconfiava de aeromoça.
-Com toda aquela claridade eu vi melhor as coisas, Solange.
-Hã?
-Você é uma nuvem preta. E a Vanda disse para eu ter cuidado com as nuvens pretas.
-Eu sabia! Você tá de caso com essa mulher!
-A Vanda é ótima mas não é perfeita. Deve ser por isso que ela é ótima.
-Uma vagabunda aérea! E não se atreva a dizer que ela te deixou nas nuvens!
-Eu e a Vanda vamos entrar para a Tobogã Sagrado, uma seita de estudiosos da anatomia das nuvens.
-E eu vou entrar numa pensão bem gorda para falir você.
-Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu, um novo homem.
-Demente safado!
-Solange, libera os trovões que relampejam aí dentro.
-Vou liberar é a porta da rua, desgraçado.
-Ah, cancelei nossos bilhetes para Miami. Vou doar as milhas para quem nunca andou de...
José Antônio não terminou a frase. Levou um chute na sua pista de pouso e apagou de tanta dor. Ficou atirado no chão da sala, vendo estrelas e o céu preto.
Solange deu um último soco no que sobrou do José Antônio, pegou o cartão de crédito dele, uma muda de roupa dela e foi para o aeroporto. Ia comprar passagem para o primeiro vôo que encontrasse. Já estava na hora de ver outras nuvens e de juntar suas próprias milhas.

24 de set. de 2008

Revista Claudia, outubro 2006

Minha estréia na Revista Claudia. Desde então tenho a honra de dizer que sou colaboradora da editora Abril.



Sou libriana como Claudia. Quando você ler essa edição de aniversário, vou estar curtindo o presentão que me dei de 39 anos: peitos novos. Sim, eu poderia ter escolhido um vestido, uma bolsa, uma sandália, uma viagem. Mas como disse meu melhor amigo, o que adianta passar uma semana em Salvador e continuar sem peito?
Não que os meus fossem invisíveis. Até eu fazer um regime quatro anos atrás e perder onze quilos, eles eram satisfatórios. Longe de serem o ideal. Depois que emagreci, o pouco se foi e começou a fazer falta especialmente no verão. Usando uma metáfora, é como se eu tivesse redecorado toda a casa mas havia ainda um cantinho que poderia ficar mais acolhedor e ser melhor aproveitado. Eu, que suei tanto para diminuir três números do jeans, estava louca para aumentar alguns números do sutiã. E haja coragem para assumir que uma mulher sem vocação para stripper quer ter peitão.
Talvez a indústria da lingerie mereça um busto em praça pública por ter me apresentado ao sutiã com enchimento (não... pensando bem, se alguém merece é meu amigo, o primeiro a pronunciar a palavra silicone em voz alta e olhar em minha direção). Foi enganando a torcida no dia-a-dia que percebi a diferença que faz um plus a mais. O único problema era tirar o sutiã e aceitar a verdade. Se era para viver com enchimento, então que fossem os meus.
Pesquisando na Internet descobri um universo de possibilidades: prótese lisa e texturizada, perfil alto e baixo, formato redondo, em gota ou natural. E também questões delicadas como encapsulamento, anestesia, seroma, incisão via aréola, axila, inframamário e uma lista de pode-isso-não-pode-aquilo. Aos poucos essas informações foram sendo absorvidas e meu cérebro gentilmente as transformou em decotes generosos, regatas, blusinhas de frente única. Sim! Se as mulheres fazem tudoplastia e sobrevivem cheias de hematomas para contar, por que justo comigo daria problema?
Era só não pensar que iriam abrir duas gavetas no meu tórax e guardar lá dentro o silicone (nessa hora lembrei do silicone de colocar nos móveis, na esteira, no pneu). Mesmo assim, decidi entrar na faca e algumas consultas depois perguntava se não dava para dar uma forcinha e puxar para dentro das gavetas uma pelanquinha que sobrou dos partos. Esquece. Fica para a próxima.
Ah, a primeira consulta. Por ser indicação de uma grande amiga e guru, eu já simpatizava com a médica antes de conhecê-la. Só não contava com o nervosismo. Minhas mãos suavam frio na sala de espera. Eu já estava me achando um homem de tanto olhar para seios nas ruas e revistas. Caso não conseguisse abrir a boca, era só mostrar o recorte de uma página com o par de seios mais lindos que consegui encontrar. O que eu ia dizer? Oi, meu nome é peito e quero Magali - ou algo assim. Pensei em inventar um trauma de infância, mas aí a médica abriu a porta e a cumplicidade foi instantânea.
Quando vi, tinha feito até test-drive de teta (e adorado!). "Mas não quero aquele degrau que fica em algumas mulheres. Quero um peito tipo escada rolante, que vai surgindo e subindo. Não quero me sentir gorda ou matrona. Nem virar a cover da Pamela Anderson. Não quero me arrepender. Nem de colocar muito. Nem de colocar pouco." Além de cirurgiã plástica e mastologista, eu queria que ela fosse psicóloga?
Mesmo a adorando desde o início, quis ouvir uma segunda opinião. Um cirurgião também superindicado, supercompetente e... precisava ser supercharmoso?! Ele está acostumado a ver tudo, pensei. Óbvio que viu o meu constrangimento. Fiz milhares de perguntas tentando adiar o inevitável: mostrar meus peitinhos para aquele homão. Antes que você me chame de tarada, explico. Faço parte da ala feminina que prefere ginecologista mulher porque se sente mais à vontade e acaba usando o mesmo raciocínio para outras especialidades médicas - especialmente quando tem que tirar a roupa. Na hora do vamos-ver, mirei um ponto fixo na parede e desabotoei a blusa. Ele olhou e eu murchei com sua reação: "é... tem que botar".
Não pense que foi fácil reconhecer que eu queria ficar turbinada. Depois de lidar com meu próprio preconceito, tive que abstrair o preconceito dos outros. Sobrancelhas levantaram e testas franziram quando contei minha intenção. "Silicone? Você!?". Ouvi relatos escabrosos do silicone que escorregou pâncreas adentro, a prótese que foi parar no dedão do pé. E com tanta gente passando fome no mundo, eu ia gastar dinheiro com algo tão... tão.. fútil?
Ainda bem que a maioria vibrou e as amigas fizeram contagem regressiva comigo. Cada uma sabe onde aperta o sutiã. Ou onde ele afrouxa. Conversando com diversas neo-peitudas, descobri que o único arrependimento era não ter colocado um pouquinho mais. Isso me fez repensar os mililitros. Não era só o tamanho da prótese, o que eu estava mensurando era sensualidade e auto-estima.
Lembro da primeira vez em que, meio de brincadeira, comentei a idéia com meu marido. Ricardo abriu um sorriso e me surpreendeu com um belo "e por que não?". Se eu tinha uma intenção, ele tinha segundas. O engraçado foi acompanhar as mudanças no seu comportamento. A empolgação inicial se transformou em insegurança quando ele viu que eu estava mesmo decidida. "E se eu achar que está muito decotado?". Para me ajudar, um amigo nosso o tranquilizou dizendo "mulher que bota silicone quer mostrar". Mas nada como dar tempo ao tempo. Sabe o bebê que olha para a mãe e vê uma mesa posta? Depois eu podia jurar que Ricardo olhava para mim e via uma plaquinha "Breve aqui Playground".
Falando nisso, eu ainda precisava contar a novidade para dois homenzinhos: meus filhos de 10 e 6 anos. Enquanto o menor já fez disso uma brincadeira e ficou imitando como a mãe ia ficar "tetuda", o mais velho perguntou por quê. Expliquei que se a gente não gosta de algo no corpo, pode mudar. O argumento não fez muito sentido. Aí falei que eu queria ficar bonita. Ele me olhou com aquele jeitinho amado e disse: "mas mãe, você já é bonita". É, Rafinha, vá entender as mulheres.
Se eu tivesse um numerólogo, ele se orgulharia da data que marquei a cirurgia: 7 de 7 para o verão 2007. Finalmente o dia chegou e eu estava tranquila. Optei por anestesia local e sedação – desde que eu apagasse por completo. O procedimento durou menos de duas horas e fui para casa no mesmo dia. Não doeu nada. Claro que a primeira coisa que fiz ao acordar na sala de recuperação foi espiá-los (depois fiquei sabendo que a primeira palavra que pronunciei ainda sonolenta foi “Biquíni!!”). A diferença era visível. Mas como já saí da cirurgia usando um sutiã-modelador-armadura, não consegui ver direito. Só fui apresentada oficialmente a meus peitos novos 24h depois, quando voltei para tirar o dreno. Ao abrir o sutiã, eles saltaram lépidos e faceiros. Muito prazer! E o prazer era todinho meu.
O pós-operatório foi tranquilo, mas foi um pós-operatório. De chegada, precisei de ajuda até para escovar os dentes (e me irritei muito). Fiquei presa em casa mas mantive os olhos pintados. Minhas mãos e barriga incharam tanto que parecia um dejà vú de gravidez. Morria de medo de mexer os braços e acabei tensionando de tal forma os ombros que precisei de sessões de fisioterapia. Num excesso de zelo, troquei de cama e de quarto. Dormi algumas noites sentada no sofá da sala. Fiquei sem dirigir por 2 semanas e sem fazer esporte por 45 longos dias (que medo de engordar!). Tive um princípio de inflamação em uma das cicatrizes. Mas o pior de tudo foi o desconforto de dormir de barriga para cima – eu e 7 travesseiros tentamos tantas posições que daria um Kama Sutra do Sono. Já o fator mais valioso da recuperação foi a total disponibilidade da cirurgiã, sempre tão cuidadosa, rápida e carinhosa.
A volta ao trabalho também foi um momento marcante. No imaginário das pessoas, o silicone é necessariamente extravagante. Frustrei os que esperavam me ver com estrelas prateadas nos bicos dos seios. Grande mesmo era a curiosidade de todos. Teve até uma amiga que não resistiu e me apalpou em plena luz fluorescente. Alguns olhares eram disfarçados. Outros, bem objetivos. E eu sentindo um misto de orgulho e vergonha. Se tem uma frase que diz tudo foi a que ouvi do meu chefe quando voltei de uma consulta para tirar os pontos. Ele perguntou se estava tudo bem. Repetindo as palavras da médica, falei que era para ficar em observação. Ao que ele prontamente se ofereceu: “Então observaremos!!!”.
Como uma boa libriana que pesa tudo na balança, valeu muito a pena. O resultado ficou bem como eu queria: natural e sensual. É como se eu recuperasse algo que era meu de direito. Que sensação gostosa sentir o braço roçar na lateral do seio. E comparar as fotos de antes e depois da cirurgia! Meus sutiãs novos são lindos e meus peitos, mais ainda. Plagiando aquela clássica preocupação masculina, descobri que tamanho é importante, sim.

23 de set. de 2008

Os esquecidos

O abridor de latas perguntou para o descascador de batatas qual foi a última vez que ele havia sido usado naquela cozinha. Boa pergunta, respondeu o outro. Fazia tanto tempo que ele nem lembrava. Ontem mesmo ele e o coador pequeno estavam conversando sobre isso. No fundo da gaveta, onde os dois ficavam, tinha até teia de aranha. Já o coador grande não podia reclamar, disse o abridor de latas com uma pontinha de inveja.
O coador grande, que ouvia a conversa de longe, aproveitou a deixa para se manifestar. Ele era bem solicitado, sim. Até demais. Mas para coar miojo, que não era a sua função e o colocava numa situação delicada com o escorredor de massas, seu amigo desde os tempos do supermercado. De tanto coar miojo e ir parar na lavalouça, sua tela estava ficando escura. Desse jeito, logo ele seria aposentado no lixo e o substituiriam por um coador inexperiente, que ia levar água fervendo na cabeça e agradecer.
Panela velha é que faz comida boa, gritou uma voz que veio do armário de baixo da pia. Era a panela de alumínio, já sem cabo e sem tampa. Ela, que foi a responsável por carreteiros inesquecíveis, agora passava os dias vendo a ascensão das colegas de teflon. Aquele armário parecia uma loja de tantos tamanhos de panelas. E uma loja às moscas, porque ultimamente ninguém se dava ao trabalho de pegar uma delas para cozinhar.
O abridor de latas, o descascador de batatas, os coadores e a panela de alumínio não eram os únicos insatisfeitos. Ainda bem que a turma do armário aéreo não podia ouvir. Lá dentro, o mixer e a fritadeira elétrica esperavam sua liberdade há anos. Eles queriam ser úteis, misturar ingredientes, picar legumes, fritar batatas fritas, essas coisas que os eletrdomésticos modernos fazem. E nunca viam a luz da fluorescente. Lá dentro a solidão era tanta que esse armário ganhou o apelido de solitária. Quem entrava, não saía nunca mais.
Em cima do balcão, a iogurteira lembrou dos áureos tempos, quando o iogurte caseiro estava em alta na família. Ela passava a noite inteira ligada proliferando lactobacilos. O iogurte ficava tão bom que os seis potinhos de vidro imediatamente esvaziavam e voltavam para a base da iogurteira, que chegava a ser requisitada duas vezes na mesma semana.
O microondas ficou quieto no seu canto. Por ele, o trabalho podia ser dividido entre todos. Pipoca e arroz na panela de alumínio, por exemplo. Pizza no forno do fogão. A torradeira e o grill concordaram em gênero, número e grau. Eles não passavam um dia sem preparar sanduíches. O pessoal da casa era mais do lanche, fazer o quê. Pressão, disse uma das panelas. E um feijãozinho, please.
Os ânimos se exaltaram. A conversa ecoou pela cozinha, os azulejos ficaram nervosos e começaram a suar. O filtro de água aproveitou o clima e disse que não aguentava mais pingar o dia inteiro. O liquidificador perguntou se existia sindicato de eletrdomésticos. O fogão abriu as quatro bocas e disse que estava nessa. A geladeira deu apoio. A agitação era tanta que os talheres se batiam dentro das gavetas. E se alguém ouvisse o barulho, o que ia ser deles? A lavalouça ligou a pré-lavagem para disfarçar.
Os donos da casa apareceram. Pela quantidade de sacolas que troxeram do supermercado, hoje ia ter movimentação. Quem sabe um jantar à luz de velas com entrada, prato principal e sobremesa. Que nada. O homem e a mulher trocaram de roupa e saíram de novo, combinando em que restaurante iam jantar. E ainda deixaram todas as compras no chão da cozinha.

22 de set. de 2008

A seco

Ligar para a lavanderia. Foi esse o recado que a Heloisa encontrou quano chegou em casa. O que será que eles queriam? Movida pela curiosidade, pegou o papel com o número do telefone e ligou.
-A senhora ganhou uma linda escova de tirar bolinha de roupa!
-Eu?
-Sim! Pela quebra de recorde! Oito meses e três dias…
-Que recorde?
-É o tempo que o seu edredon está aqui! E quase deu empate. Tem uma Carmem que não busca um vestido há 6 meses e meio…
-Não lembro de ter deixado nada para lavar…
-Um edredon branco com bolinhas vermelhas e um remendo mal-feito em uma das pontas.
-Mas eu jurava que ele tinha ficado na praia!
-Venha buscar a escova e veja com seus próprios olhos.
-Obrigada!
-Nós é que agradecemos. Só tem uma coisa, vamos ter que lavar o edredon de novo.
-Mas eu recém mandei lavar!
-Isso foi há oito meses e três dias. Ele amarelou, pegou umidade...
-E agora?
-Nós temos uma revolucionária técnica de clareamento feita com produtos importados.
-Quanto custa?
-Não se preocupe que já aceitamos cheque pré.
-Diz logo quanto sai…
-Uma mais duas de trinta.
-Noventa reais para lavar um edredon!
-A senhora disse a mesma coisa da outra vez.
-Que outra vez?
-Bom, nós ligamos ano passado para avisar do edredon. Mais velho que ele aqui só a dona Vera, a passadeira, que tem dois anos de casa.
-Quer dizer que essa é a segunda vez que eu esqueço de buscar?
-E perceba que de lá para cá nós não aumentamos os preços.
-Se eu pagar de novo, esse edredon vai sair o preço de um novo!
-Vale a pena. E tem a escova.
-Está muito caro.
-Então encare os cento e oitenta reais como o aluguel da prateleira onde o seu edredon está morando.
-E se eu não buscar?
-Ele é despejado no caminhão de lixo.
-Vocês não teriam coragem…
-Com monograma e tudo.
-H & D… eu tinha esquecido! O Dani vai me matar!
-Diga que estava caído atrás do armário.
-E os cento e oitenta?
-Diga que foi o preço da escova de tirar bolinha.
-Mais é muito cara!
-Diga que é feita com produtos importados. Sempre funciona.
-Então é mentira?
-A escova sempre funciona! A escova!