30 de set. de 2010

Território sagrado

Número 1: banheiro é território sagrado, é enfim sós, é aula de privacidade, é patrimônio tombado, é esconderijo secreto, é oásis, é ilha deserta, é cofre fechado com senha.
Número 2: não é justo a gente usar esse bunker maravilhoso só pra fazer número um, número dois e tomar banho correndo.
Eu gosto de pensar no banheiro. Os azulejos já me conhecem, respeitam meu silêncio. O vaso sanitário vira banco de praça. As toalhas penduradas são a paisagem. Fofas, compreensíveis.
A frente do espelho é outro lugar bom pra pensar. E com a escova de dentes dentro da boca. E com a torneira fechada, pra não desperdiçar pensamento. E com o cotonete no canto do olho. E com o algodão na ponta do nariz. E atrás da porta do box. Em cima do tapetinho de borracha. Embaixo da água quente.
Eu gosto de pensar que o banheiro é só meu.


Foto: FFFFound

Como diria Johnny Walker, keep walking

Sou meio suspeita pra filosofar em cima de conceito de campanha publicitária, porém eu consigo descolar a frase do uísque. Eta frasezinha boa. Seguir caminhando é uma verdade absoluta. E necessidade também. Muitas vezes a gente não tem a menor ideia pra onde está indo. O movimento das pernas vai te levar pra algum lugar, vá em frente e descubra. Melhor do que ficar parado.
Do final de 2008 pra cá, eu caminhei no automático, tateando o cordão da calçada pra me manter em linha reta. Uma sensação nada boa, diga-se. Agora tem tanta coisa incrível acontecendo que eu olho pra trás e chega a ser óbvio. Eu estava caminhando em uma estrada, não em uma ruazinha qualquer.
E vou seguir, pra ver o que tem lá adiante.

Foto: Flash Glam Trash

Você já alinhou hoje?

Alinhar é o verbo mais usado pelos publicitários. Alinhar expectativas, ideias, conceitos, pensamentos, estratégias, reuniões. A gente passa o dia alinhando. Em bom português, alinhar significa "todo mundo com a mesma informação na cachola." Tudo se alinha, nada pode ficar torto. Tenho minhas dúvidas se não é saudável manter alguém propositadamente desalinhado, pra questionar tantos cérebros alinhados.
Esses dias escrevi sobre as palavras que envelhecem, lembra? E agora me deparo com a consagração absoluta do verbo (promovido a jargão) alinhar. Usado desse jeito, ele não envelhece tão cedo. Mas desgasta a imagem das linhas em geral. Eu alinho, tu alinhas, ele alinha. Será que, se a gente alinhar almoços e happy hours, consegue encontrar mais fácil os amigos publicitários?

Foto: Behance

29 de set. de 2010

Bem-estar é o novo luxo

Imperdível a entrevista com o sociólogo Gilles Lipovetsky no Caderno Equilíbrio da Folha de São Paulo de ontem. Ele traduz de forma objetiva as neuroses e cobranças do mundo contemporâneo. Concordo que o bem-estar é o novo luxo. Mas é um grande paradoxo porque usamos a lógica do consumo pra conseguir esse bem-estar idealizado. "Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão ao shopping center", diz. "Há tanta ansiedade, tanto estresse, tanta angústia e tanto medo que a abundância não consegue proporcionar um sentimento de completude". Em que cilada fomos nos meter. Bem-estar é uma palavra tão pura e gostosa. Não pode virar ditadura, lei, regra, doutrina.

28 de set. de 2010

Organização à antiga

Preste atenção na sinceridade desses organizadores. Se você vive fazendo listinhas como eu, pode ser uma boa tática. Bote tudinho no papel, mas tenha critério na hora de separar as pendências. Never é never mesmo!! Nesse caso específico, registrar o que você nunca vai fazer é apenas um descargo de consciência. Já ajuda.
Um kit desses é um belo presente de fim de ano para organizar as resoluções para 2011. Never faltar na academia. Ou never voltar pra academia e entrar para o Fung Fu. Never levar desaforo pra casa. Maybe é outro que vai ficar lotado porque essa palavra tira o peso da decisão. Maybe aprender francês. Maybe cortar o cabelo curtinho. Maybe parar de fumar. Yes para as novas amizades. No para o emprego chato. Só não esqueça de Read os papeizinhos durante o ano.

Foto: KrisAtomic

Fernanda, não tente isso em casa



Podia ser um comercial da Ikea, aquela marca gringa de móveis que faz campanhas geniais. Para os adoradores de cachorros, como a minha amiga Fernanda, podia ser uma entrada triunfal no showbizz.

From Desire to Inspire

O que você levaria dentro de 1 ou 2 malas?

Esses dias achei um raciocínio bem interessante no blog Oficina de Estilo: dá pra pensar no guarda-roupa como uma mala de viagem, onde o suficiente é mais eficiente. Faz sentido. Não sei quanto a você, mas pencas de roupas geralmente só fazem volume. A gente acaba usando sempre as mesmas, as preferidas, as que funcionam mais, as testadas e aprovadas na frente do espelho. Por isso eu acho tão difícil arrumar mala: o espaço é pequeno e somos forçados a escolher o que realmente vamos precisar. Como é chato, longe de casa, perceber que você esqueceu justo aquela blusinha básica e trouxe várias que nem usou. Em compensação, é um alívio voltar de viagem com a mala bem aproveitada.
A fila anda até no guarda-roupa. Substituições, não acúmulos. Desapego e doação. Excesso, só de histórias vividas. E organização, palavrinha que combina com tudo.

Foto: Desire to Inspire