29 de mai de 2011

Crônica publicada no Donna ZH de 29 de maio



Mulherada Futebol Clube


Esses dias meu filho se surpreendeu ao me ouvir citar o nome do David Beckham. Como assim eu conhecia o jogador?
Acontece que o futebol saiu do gueto masculino faz tempo. Virou pop. É midiático, como dizem. Migrou para a área dos conhecimentos gerais. Rende conversas em lugares improváveis como aniversário de criança e salão de beleza. O que faz com que até eu, uma pessoa desfutebolizada, decida escrever uma crônica sobre futebol.
Chego a esquecer que o Beckham é jogador. Sei mais do que deveria sobre sua vida. Mesmo se ele fosse horroroso, de tanto ler seu nome eu decoraria assim como sei os nomes das capitais. E do Milito, Rooney, Drogba e Cristiano Ronaldo. Só que o meu conhecimento é um minúsculo pedacinho de grama dentro de um Maracanã lotado de informação.
Entender (e gostar) de futebol é um traço que caracteriza a mulher contemporânea. É como se elas batessem nos peitos e falassem: “Até disso a gente se apropriou”. Não pense que esse domínio da bola me agrada. Antigamente eu podia ignorar o futebol. Era considerado normal uma mulher sair de fininho quando a discussão descambava pro esquema tático. Hoje, não. Elas discutem os lances de igual pra igual, formam times e racham a quadra, invadem estádios, desfilam com a babylook do timão, xingam a mãe do juiz. Acompanhe o Facebook e o Twitter durante um Gre-Nal. Dá empate de comentários entre homens e mulheres. Inclusive de palavrões. Eu me sinto uma dama renascentista, deslocada e confusa.
Algumas regras do futebol nunca vão sair da caixa-preta. Mas é inegável que existe um lado interessante para observar nesse universo. Graças aos jogadores-celebridade, consigo acompanhar alguma coisa. Está aí o Neymar, que não me deixa mentir. Sei lá se ele é zagueiro, sei lá onde é a zaga. Sei que ele engravidou uma garota de 17 anos e seu pai é controlador. Agora que o Imperador e os Ronaldos estão calmos, Neymar vai alimentar a Wikipedia das vaidades.
Futebol é a nova novela. Dá para saber o que aconteceu no último capítulo daquela contratação polêmica ou assistir ao time do núcleo rico passar para o núcleo pobre. Técnicos e jogadores rendem pautas de comportamento e de moda. Prepare-se para ver Neymar nas capas das revistas de bebês. Definitivamente, o futebol saiu da Placar e conquistou a banca inteira. Não sei como a Disney ainda não inaugurou um parque temático sobre a Copa do Mundo.
Ter filhos apaixonados por futebol com certeza forçou essa aproximação. Ao contrário do que possa parecer, eles não facilitam. Sofro bullying dentro de casa. Na remota hipótese de eu espiar cinco minutos um jogo, algum engraçadinho vai avisar pra qual goleira eu devo olhar. Quando vou nos campeonatos do colégio, é comum outra mãe entrar em campo de salto alto e esnobar conhecimento.
Décadas atrás, lembro do choque que tive ao saber que minha prima toda meiguinha ouvia os jogos de futebol grudada no seu rádio de pilha, deitada na cama. Ela era uma visionária! Uma das precursoras do movimento Mulherada Futebol Clube.
Não sei, tenho a sensação de que a gente está indo longe demais. Agora temos mais um segmento para atuar. Ficou sacramentado que futebol é coisa de mulher. Isso significa envolvimento e sobrecarga, elas não vão sossegar até decifrarem o maldito enigma do impedimento. Ser dirigente de clube não é mais novidade. Ser a melhor jogadora do mundo, também não. Logo uma louca vai querer ser técnica da seleção brasileira. Bons tempos quando a gente só queria olhar as coxas dos jogadores.

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