4 de abr de 2010

Réquiem para uma jarra

Eu matei uma jarra. A coitada saiu da loja no domingo de Páscoa para morrer de fratura dentro do elevador. Juro que não foi intencional. Essa jarra, que passou suas últimas horas nos esperando dentro do carro, teria uma vida de luxinhos e prazeres. Nada de suco de pacote. Ela ia ser usada somente nos finais de semana para uma finalidade bem específica: seria A Jarra do Clericot.
Isso não exime minha culpa, mas eu segurava várias sacolas. Vai ver, aquela jarra estava fadada à reciclagem de vidro e pressentia que nunca, jamais, iria sentir gosto algum. O som foi seco e certeiro, a fina camada de plástico bolha não conseguiu amenizar o contato com o metal do elevador. Entrei em casa já esperando o pior, carregando um cadáver. A Jarra do Clericot rachou, inutilizou, foi direto para o lixo enrolada na própria sacola.
Eu queria dar banho, colocar no armário das louças chiques e aguardar o sábado seguinte para fazer uma inauguração solene. A Jarra do Clericot faria um triângulo amoroso comigo e o Ricardo, veria DVDs e compartilharia com a gente momentos de relax. Eu estava pensando em tantas frutas picadas e tantas risadas pra nós.
Não foi desta vez. Logo eu, sempre cuidadosa, acabei com ela – e sem uma gota de álcool nem no sangue, nem na jarra. Durante a semana, vou ter que voltar lá e comprar outra igual. Prometo pedir mais reforço de plástico bolha e talvez, numa penitência, eu suba os 19 andares de escada para que a nova jarra chegue intacta em casa. Um brinde vai ser pouco. De onde estiver, a antiga Jarra do Clericot vai me perdoar.
Foto: Flickr

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