10 de nov de 2008

Aos Doze

-Mãe, quero tirar o bigode.
Olhei para os dois agrupamentos de penugem entre o nariz e a boca do meu filho. Depois olhei para o visor do meu celular, procurando data e hora para registrar imediatamente aquilo no cérebro - pasta momentos inesquecíveis de mãe.
Analisando friamente a questão, ele passou o ano dando indícios de que não era mais o menininho de sempre. Começou a ir a festas no clube. A usar desodorante. A pedir privacidade. A fechar a porta do banheiro. Sem falar nos outros bigodinhos que apareceram pelo corpo. E dos copos derrubados. E dos abraços de cão São Bernardo, que quase me tiram do chão. E do tênis número quarenta que ele comprou semana passada. Eu ainda podia sentir um cheirinho de pomada de assadura pela casa. E de lencinho umedecido. Danoninho. Tip-top azedinho de leite. Bigode de gatinho desenhado pela profe da escolinha.
-Ouviu, mãe? Quero tirar o bigode.
Péssima hora para devaneios uterinos.Tinha uma boca rosada, carnuda e com um projeto de bigode esperando minha resposta. Gilete ou barbeador? Com a mão direita eu raspo o guri e com a esquerda eu tiro foto? Com ou sem flash? Azuleno pra acalmar a pele ou anestesia local pra acalmar a mãe?
-O pai disse que tirando com pinça não nasce mais.
Peloamordedeus, não era a melhor hora para eu explicar os princípios básicos da depilação para os dois. Ou melhor, para os três, porque meu filho caçula estava ligadíssimo em tudo, já procurando o seu bigode no espelho.
Nem preciso dizer que a família inteira foi para o banheiro. Após uma breve discussão sobre dor e folículos capilares, optamos pela maquininha de aparar cabelo. Rápida e indolor, como pedia a situação. Ainda tive o senso de humor de só tirar um dos lados do bigode pra gente dar risada. Depois passei a maquininha pro pai da criança concluir o serviço. E não é que o ex-bigodudo ficou ainda mais lindo?
Nove de novembro de 2008. Um domingo que poderia ter sido igual aos outros, mas entrou para a história. A essa altura, nas camadas mais profundas da epiderme, os hormônios do meu filho estão tramando as próximas surpresas. Podia ser pior. Ele poderia ter dito que queria camisinha.

3 comentários:

Fernanda disse...

Amei! Real e sensível.
Bjs

Marcia disse...

É, o tempo passa, ele já deve estar te dando abraços de urso de tirar do chão faz tempo!!! Adorei o texto! (E finalmente aprendi a comentar aqui!)
bjs

clarissa disse...

divertido como sempre!!!! beijo