3 de fev de 2010

Padronagens

Adoro ver gente velha tatuada. Fico com vontade de puxar conversa e perguntar em que fase da vida eles escolheram estampar o corpo. Mas não falo em ideogramas tímidos. O que me atrai é a quantidade, a intensidade de desenhos, o uso da cor, o conjunto da obra. O que me impressiona são as pessoas que correm o risco de se enjoar. A tribalzinha lá nas costas ou a estrela na nuca são fáceis de conviver, o tatuado e a tatuagem quase nunca se encontram. Até respeito quem escreve uma palavra aqui, um nome de filho ali. Fica interessante.
Agora eu admiro mesmo são os corajosos que não economizam pele, os que tomam conta de todo o antebraço, os que fazem do ombro uma tela, os que usam metade das costas, os que demarcam o território de lado a lado, ostensivos. Esses são os passionais, os poetas, os exibidos, os insanos. Em algum momento da vida, eles vão se arrepender. Ou não?
Por isso eu tenho um fascínio maior ainda por gente bem velha e bem tatuada. Elas mudaram, enrugaram, acumularam vivências, e os desenhos continuam lá, iguais ao dia em que saíram do tatuador (a pele é que degringolou). Não combinam mais com o presente, são avôs e avós frágeis, apesar de continuarem transgressores e inconsequentes.
Quem faz tatuagem não quer perpetuar o desenho, mas sim o estado de espírito. É a tentativa de eternizar uma escolha. A flor, a estrela e o nome do Global hoje podem ser apagados com laser - o que eu acho a contradição em pessoa. Quero ver apagar o dragão inteiro ou rosto do Bob Marley.
A artrite já pode ter invadido as articulações, o bíceps mole talvez precise se segurar para subir a escada. Só a tatuagem segue jovem, menos firme e igualmente forte. Mesmo que tentem escondê-la com um casaquinho, um dia os velhos vão ter que fazer um exame de sangue para conferir o PSA, o colesterol. E, assim que a tatuagem aparecer, alguma sobrancelha vai se erguer curiosa.

Photo from sangbleu.com

3 comentários:

Gislaine Fernandes disse...

Lindo post...adoro tatuagens..tenho algumas, mas discretas...porém admiro as que se fazem presentes em pessoas que ousam, e realmente eu as fiz pra eternizar um estado de espírito, um momento,uma vida...
beijos...
Ps: Um dia vou ter a coragem de fazer uma bem grande...

Bila Boolz disse...

Não tem como dizer que nunca vai enjoar, eu enjoo da minha própria cara, ainda bem que ela vai mudando com os anos...hehehe. mas estampar o corpo é aceitar a arte por inteiro. ADORO.

adriane disse...

magalita, como sempre um belíssimo texto. me identifiquei totalmente. beijos querida!