11 de fev de 2010

Só falta ter a cópia da chave

Crônica feita para o site do Shopping Bourbon
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Não sei se você reparou em uma mudança que aconteceu nas últimas décadas. O shopping é o novo lar, doce lar. Só não tem aquela plaquinha pendurada na parede. Só não dá para tirar os sapatos assim que chegamos.
Ele é a nossa segunda casa, tem conforto de sobra. Neste mundo inseguro e apressado, quem mais está sempre de cancela aberta, pronto para nos receber? Nem na casa dos avós a gente encontra tantas opções de alimentação. Com a diferença de que, se a fome não for grande, dá para beber apenas um refrigerante sem magoar ninguém.
O shopping é a grama verde do vizinho. E cresce para compensar o tamanho cada vez menor dos apartamentos. Quem não tem a sorte de morar em condomínios megaequipados vai se refugiar onde? Adivinhou. Até quem mora nesses clubes urbanos também corre para lá, na nobre tentativa de escapar do chato do 401.
Eu ainda vou abrir o jornal e ler a seguinte notícia: mulher deu à luz dentro do shopping. Totalmente compreensível, as contrações passam despercebidas com muitas roupas e sapatos para nos distrair. Falando em bebês, as novas gerações praticamente se criam nos seus andares. Muitas crianças escutam lá dentro o primeiro N-Ã-O (Não mexe no manequim! Não derruba a vitrine! Aiaiai, não conheço você!).
É para o shopping que os adolescentes vão quando querem testar sua liberdade vigiada. Ou quando gostariam de fugir de casa mas falta coragem. Então eles prolongam a estadia, almoçam, lancham, jantam, ficam. Qualquer hora, se mudam definitivamente - olha que ideia ótima transformar o estacionamento do subsolo em albergue para jovens.
Casais se conhecem nos lançamentos de coleção, brigam nas promoções imperdíveis, fazem as pazes no cinema, dividem o vinho e a conta, trocam presentes fofos nas datas que só existem para eles. Diferente do passado, os pares românticos de hoje têm o seu mix de lojas, não necessariamente uma música. E com tanta gente bonita circulando, descobrem que sentir um pouquinho de ciúmes até faz bem.
As escadas rolantes, acredite, nos preparam para a vida. Mostram que se um dia estamos descendo, logo logo estaremos subindo. O shopping é um espaço para ver e ser visto, respeitar e ser respeitado, treinar as regrinhas básicas de convívio e aperfeiçoar a humanidade.
Diga-me com quem andas e te direi quem és. Mas se você for sozinho, tudo bem, claro que vai encontrar alguém conhecido.

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