27 de ago de 2008

A Engolidora de Sapos

-Reeeeespeitável público! E agora, a grande estrela do nosso circo de
horrores! Vinda diretamente da vida real, eu apresento.... a Engolidora
de Sapos! Essa mulher consegue a façanha de engolir um sapo de uma
só vez! Se existem pessoas com estômago fraco na platéia, fechem seus olhos
porque a cena é reeeeeeeepugnante!!!
As luzes mostram uma mulher que entra no picadeiro. Ao contrário do
esperado, ela não veste roupas bizarras, não é corcunda, não possui barba ou
qualquer outra disformidade. Ao vê-la, algumas pessoas viram o rosto. Mães tapam
o rosto das crianças, que espiam assustadas pelos buracos entre os dedos.
Um anão vem logo atrás, trazendo uma jaula cheia de chefes irritados, vizinhos reclamões, desconhecidos estressados, colegas de trabalho mentirosos, amigos da onça e outras feras.
Do outro lado do picadeiro, a mulher mantém a calma. Abre e fecha a boca várias vezes, alongando a mandíbula. Massageia o pescoço, preparando-se para engolir os sapos.
O primeiro a sair da jaula é o chefe irritado. Ele se aproxima da mulher e grita. Ou melhor, só mexe os lábios. Seu microfone não está ligado e ele precisa gritar de novo.
-Sua incompetente! Esse trabalho está medíocre! Vai virar a noite refazendo!
A mulher engole os três sapos um atrás do outro e limpa a boca com o dorso da mão. A platéia acompanha tudo horrorizada.
Depois vem o vizinho reclamão, que já chega soltando as patas.
-Vou virar o meu lixo na porta da tua casa! Vou roubar o teu jornal!
A mulher engole fácil. Pede um palito de dentes para o anão. Perto dos outros sapos, esses são girinos.
Luzes focam um casal de velhinhos que acha a cena desconfortável demais e se retira. Eles não são obrigados a ver uma mulher educada dessas levando desaforo para casa.
O clima fica tenso. Um silêncio constrangedor ecoa no ar. O dono do circo faz sinal para que o anão liberte mais um da jaula. Vem o desconhecido e, pelo jeito que ele toca uma buzina imaginária, é um estressado do trânsito.
-Vai aprender a dirigir! Sua destruidora de calotas!
Ela abre a boca e engole os sapos de uma só vez. O último fica entalado na garganta. Um homem grita lá do fundo da platéia, puxando um coro de vozes.
-Cretino! Cretino! Cretino!
Nisso, tocam os tambores, anunciando o ponto alto do espetáculo. Os elefantes, próxima atração, estão mais agitados que o normal. O anão solta o colega de trabalho.
-Vou te sacanear! Vou te fazer de idiota na frente de todo mundo!
Ninguém sabe se é por causa do sapo anterior que ainda está entalado ou se é uma reação de defesa do próprio organismo. A mulher começa a tremer e tem um acesso de chega. Fala fala fala fala até não poder mais parece uma metralhadora esquece de falar as vírgulas e os pontos diz tudo que quer e coisas que nem imagina que estão guardadas. Com esse desabafo, a mulher cresce de tamanho até encostar a cabeça na lona, que rasga. A platéia não pisca.
Quando a ex-engolidora de sapos termina, vem o silêncio. Dali para a frente, gostem ou não, o show acabou. Alguém levanta e bate palmas. Uma senhora também levanta e assobia. Toda a platéia faz o mesmo. As palmas enchem o circo.
A mulher espera as palmas cessarem e agradece, curvando o corpo enorme o máximo que consegue. Mas ainda falta um sapo no seu caminho. O dono do circo percebe que é com ele a coisa. As luzes o focam dessa vez. Amedrontado, ele manda chamar os seguranças.
Não é preciso. Os elefantes, que são muito educados e não suportam ver mulher sofrer, entram no picadeiro e pisoteiam o dono do circo. Ele morre na hora. A platéia explode em palmas. Agora sim o show acabou.




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