27 de ago de 2008

Figuração... Ação! parte 1

A primeira parte que apareceu num comercial de TV foi meu cotovelo esquerdo. Naquele tempo eu estava fazendo bico como dublê de pé num comercial de sapato porque minha prima, que sempre teve o dedão mais lindo do mundo, tropeçou numa pedra e amanheceu com a unha roxa. Por sorte e por um pouco de genética, eu a susbtituí.
Meu papel era ficar sentada próxima ao ator principal e esperar que a câmera passasse perto dos meus pés. O diretor resolveu abrir mais o plano porque cismou que o braço do sofá era poético. Então meu cotovelo foi enquadrado junto. O pessoal da agência entrou na viagem do diretor e eu quase enfartei quando reconheci meu cotovelo em cena. Era ele, e como agregou poesia ao tecido floral do sofá. Até hoje não consegui cópia, preciso ligar para a produtora.
Depois do comercial de sapato, foi um pulo para eu começar a fazer figuração. Acho que nasci para isso. Nunca quis ser uma Juliana Paes. Elas erram muito o texto e passam horas na maquiagem para vender o quê? Cerveja, carro, liquidação. Os figurantes fazem parte de um contexto, ajudam a dar o clima, compõem a cena, dão veracidade. Ou você se empolgaria com um bar vazio e teria vontade de ir num shopping entregue às moscas?
Adoro quando estou no set de filmagem e o diretor grita bem alto “Câmera... figuração... ação!”
É a prova de que existimos e, sem nossa presença, o ator principal perde o fio condutor. E como eles se perdem. Especialmente os modelos que são forçados a dar texto. Peça para uma estátua se emocionar – é mais ou menos isso. Não vai baixar o Robert de Niro. Arroubos de interpretação não são como soluços, que surgem do nada. Tenho observado que, se sobra corpo, falta humildade para essa geração de atores-modelos. Depois de fazer três ou quatro comerciais, eles acham que estão graduados em Drama com MBA em Shakespeare. Me poupem. Juntando todas as suas falas, não forma um parágrafo.
Eu sou um exemplo nos sets, pode perguntar pra qualquer um da equipe. Mesmo a comida sendo liberada, tenho consciência de que provavelmente só trouxeram um número de calça para a figuração. Então priorizo o zíper ao canelone. A gente volta pra casa maquiada, mas não pense que tudo é glamour. Tem que ter estrutura emocional para fazer figuração. É preciso se colocar no lugar do diretor – apesar do cachê dele ser 20 vezes maior que o meu. E entender que, se ele grita “Tira o figurante!” e cinco minutos depois berra “Bota o figurante!”, é porque cinema é uma coisa orgânica.
Acho que minha filha puxou a mim. Ela adora passar correndo lá atrás quando alguém está tirando uma foto. No vídeo de casamento da minha prima (a dublê de pé), sem querer Doroty fez uma ponta na valsa dos noivos: seu corpinho dormindo, jogado no meio da pista, deu um contraste interessante à cena.
Esqueci de dizer que me chamo Maria, um nome que também nasceu para fazer figuração em Marias Fernandas, Marias Carolinas, Marias Cristinas.
Vou parar por aqui porque a ansiedade é grande. Me chamaram para trabalhar num comercial de moda. Veja como levo a sério minha profissão, vou agora na banca comprar a Elle. Não posso destoar e chegar no set vestindo a tendência errada. E não tenho a menor idéia do que vestir.

(Continua. Não sei quando.)

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