26 de ago de 2008

Plantão

A tarde de domingo está perfeita para Alceu. Vento frio, céu pesado, chuva em questão de minutos. Nenhuma alma nas ruas. E ele no plantão de vendas. É a quarta vez no mês que Alceu é escalado para o domingo. Antes, ódio e revolta. Hoje, as mãos para o céu.
Ele desce do carro, dá um beijo na mulher e se despede com cara de cachorro abandonado. Ela que volte logo para a casa, as crianças estão sozinhas e vem chuva. Ele vai ficar bem. Trouxe os classificados para ler. Seis horas passam rápido.
Abre a porta do plantão de vendas e confere o relógio. Faltam quarenta minutos para o jogo começar. Hoje tem a final do brasileirão e Alceu vai assistir cada lance na santa paz. Refugiado atrás de tapumes. Sem crianças pulando ao seu redor. Sem mulher perguntando o que é zagueiro.
Na pasta de trabalho, escondido entre os folders da obra, está o saco de pipocas que ele vai estourar no microondas do apartamento decorado. Por baixo do terno e gravata, a camisa do timão para dar sorte.
Começa a chover. Praticamente um dilúvio. Alceu abre os classificados, dá uma olhada nas ofertas de carros. Confere a cotação do seu Gol 99 quatro portas. Espia os preços das impressoras. Passa reto pelos apartamentos para vender e alugar. Tudo que ele não quer ver nesse momento é sacada com churrasqueira.
Toca o seu alarme interno, avisando que faltam cinco minutos. Alceu levanta, coloca uma placa de "volto logo" do lado de fora do plantão e se muda para o apartamento decorado. Usa o banheiro, depois o microondas, pega um refrigerante para clientes no frigobar e liga a TV. O jogo começa. A falsa sala se enche de vida.
Aos oito minutos do primeiro tempo, Alceu ouve um trovão. Antes fosse. Tem alguém tocando a campainha. É como se um raio caísse na sua cabeça. Duas velhinhas ensopadas de água estão paradas na calçada. Alceu não faz um barulho sequer. Elas não sabem ler? Volto logo. Isso acontece nos melhores plantões.
Alceu aperta a sua tecla mute e se concentra no jogo. Silêncio absoluto. Não satisfeitas em grudar seus dedos na campainha, as velhinhas batem no vidro com o cabo do guarda-chuva. Assim não dá. O coitado liga o radinho de pilhas que trouxe para uma emergência e enfia os fones de ouvido. Elas que morram de pneumonia. Ou voltem outra hora.
O jogo fica tenso. As panturrilhas dos jogadores inflam. Alceu enrijece o pescoço, levanta, se benze, rói as unhas, fecha os olhos. A bola corre endiabrada pelo campo, leva um chute aqui, uma cabeceada ali e, muito a contragosto, gruda na rede.
-Gooooooooooooooooooool!!!!!!
Alceu vibra, pula, chora, atira pipocas para cima, tira os fones de ouvido.
-Mooooooooooooooooooço!!!!!!
As velhinhas gritam em coro, ainda lá. É o fim do sossego e de Alceu. Ele se traiu. Se abrir a porta agora, as clientes vão ver que ele estava lá o tempo todo. E depois daquele grito de gol, não tem como não abrir.
Num rompante de loucura, Alceu abre a porta e diz para elas fugirem enquanto é tempo. O prédio vai cair, há rachaduras enormes por toda a obra e ele está ajudando o corretor a segurar uma parede enquanto não chegam reforços. Bota as velhinhas assustadas num taxi, abana rápido. Volta para o plantão e ainda pega a metade do segundo tempo.

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