25 de ago de 2008

Pura ilusão

-Onde isso vai parar? Onde?
Era o que todos se perguntavam, entre goles de café morno no saguão do hotel. Mais um ano de apresentações em festinhas infantis, circos miseráveis e convenções de firma havia chegado ao fim. Depois de serrar corpos ao meio e fazer aparecer lenços multicoloridos, lá estavam os mágicos e ilusionistas novamente reunidos no seu próprio encontro para repensar a profissão. E tentar encontrar a resposta que tanto os desafiava:
-Para onde vão as canetas que somem?
Eles já não tinham ilusão de aprender muitas coisas. Talvez tirar da cartola dois coelhos em vez de um só ou então uma capivara de tamanho médio - havia limitações técnicas, será que os fabricantes de cartola não percebiam esse filão inexplorado?
João Carlos, mais conhecido como El Magnifico, quebrou o protocolo e subiu ao palco. O Grande Torto e suas novas técnicas de entortar colheres que o perdoassem, mas ele precisava falar. Ajeitou o microfone e tirou um papelzinho de dentro da manga para ler.
-Meus amigos, se não for pela nossa profissão, que seja pelo nosso bolso. Estou cansado de perder canetas e ter que comprar outras. Ontem foram quatro! Eu tenho uma teoria. Acredito que exista uma grande força inexplicável - um potente ímã gravitacional esferográfico - que atraia as canetas para lugares obscuros, talvez buracos negros ou fendas geológicas. Não há canto atrás de armário que dê conta de tanta caneta sumida e...
Ele não conseguiu terminar o raciocínio. A platéia veio abaixo.
-Finalmente alguém fala abertamente sobre isso!
-Eu me sinto um burro...
-Ilusionista não é Einstein!
-Algumas questões fogem do nosso controle.
-Conheço uma menininha que faz sumir oito bics de uma só vez...
-Impressionante!
El Magnifico precisou levitar para retomar a palavra.
-Caros colegas, de que adianta conseguir se soltar de cadeados e correntes dentro de um tanque de água congelada se nós não conseguimos fazer reaparecer uma caneta? Estamos fragilizados!
Silêncio e tensão na platéia. El Magnifico não tinha papas na língua, ia tocar no cerne do problema.
-Meus amigos, vocês já pensaram em quantas canetas somem no mundo todo, a cada minuto? Multipliquem pelos segundos! Se qualquer pessoa sem atuação no ramo consegue dar sumiço em canetas, imaginem no dia em que alguém conseguir fazer uma delas reaparecer. Será o nosso fim!
El Magnifico ganhou uma salva de palmas. Mas ainda não tinha terminado.
-Alguns acreditam que é um fato isolado com os modelos de tinta azul. Então compram canetas que escrevem em roxo, verde e dourado, perdem dinheiro e tempo colando seus nomes com durex. Mais dia, menos dia, elas também vão sumir e a economia mundial entrará numa crise irreversível! Não sobrará um dos nossos para ensinar o truque.
Mago Antunes, o mais antigo em atividade profissional, pediu a palavra. Se existia algo que El Magnifico temia, além de ser mordido por uma pomba na frente de crianças debochadas, era ter que responder perguntas em público.
-Ô Magnifico, só faltou um detalhe na sua brilhante oratória: por que as tampas não somem na mesma proporção que as canetas? Hein? Hein?
-Boa pergunta. Antes, vamos ouvir o ilusionista lá do fundo, de mão levantada...
-Obrigado. Com a devida permissão, penso que as canetas são seres nômades e não fixam residência. Elas querem ficar livres e exercer o direito de ir e vir.
O burburinho aumentou. El Magnifico ia falar e não conseguiu. Ele podia jurar que tinham colocado um esparadrapo invisível na sua boca. Mago Antunes subiu ao palco e pegou o microfone:
-Eu tenho outra teoria, aliás, infinitamente melhor que a sua. As tampas não somem porque as canetas também não somem. Elas mimetizam. Adquirem a cor do carpete, do tabuão, do rodapé, da estante de madeira, da toalha de mesa e da pele humana. Somem das mãos mas estão ali, debaixo do nosso nariz. Já o mesmo não ocorre com as tampas, dotadas de uma pigmentação superior. Por isso vemos mais tampas perdidas pelo chão.
Até que provassem a veracidade da teoria, já era um alívio. Conforme o estatuto do sindicato, mágicos e ilusionistas não tinham obrigação de saber sobre mimetismo, camuflagem ou aposematismo.
A organização do evento solicitou que os dois sumissem dali antes que o Grande Torto acabasse com o faqueiro de todos os hotéis da redondeza. Quem quisesse continuar esse debate que entrasse no chat de Mago Antunes.
Todos queriam. O assunto era instigante, pertinente e substancial. O problema? Encontrar uma caneta para anotar o site. Como sempre, todas haviam sumido.

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