30 de out de 2008

Até que a morte os separe

A história de amor de Bruno e Catarina começou onde muitas terminam.
-Você vem sempre aqui?
Seria a cantada mais previsível do mundo se eles não estivessem no cemitério. Ela desviou os olhos da lápide e encarou o homem ao seu lado. Ele era bonito. Aquele tipo de beleza cafajeste que tanto atrai e trai as mulheres.
-Estou perdido, não acho a saída.
Quem sabe respondendo logo ele sumiria do mesmo jeito que apareceu.
-Desça a escada no fim do corredor, à direita.
-Desculpe, eu não quis dizer o que você acha que eu quis dizer.
Catarina ficou em silêncio. Voltou a olhar para a foto envelhecida do homem e da mulher abraçados. Com cuidado, ajeitou as rosas vermelhas que decoravam a lápide.
Constrangido por interrompê-la, Bruno tentou ao menos ser gentil.
-Seus pais?
-Não. Eu não conheço os dois.
-Estranho... quer dizer, as rosas vermelhas.
-Fui eu que trouxe as rosas ontem. Não acho estranho. Eles eram um casal. Pela fotografia, apaixonados. Merecem rosas vermelhas e não flores horríveis de defunto.
-Ontem?
-Se você está realmente perdido, venha. Eu mostro a saída.
Catarina saiu caminhando e Bruno foi atrás. Com tantas perguntas na cabeça, ele abriu a boca apenas para dizer o seu nome. E perguntar o dela. Alguns lances de escada depois, contou que veio para se despedir de uma tia. Chegou tarde demais, se perdeu, perdeu o enterro. Mas não era sobre isso que ele queria falar.
-As rosas. Ontem. Hoje. Você vem sempre aqui?
Catarina respondeu que sim, que gostava de ir lá para pensar. Sempre que tinha um problema, e os problemas a perseguiam ultimamente, escolhia uma lápide e ficava horas pensando. Na vida dos outros, na causa da morte, o que tinham deixado para trás, como reagiram os familiares. Um exercício de ficção que geralmente melhorava a sua realidade.
-Olhe a vida que tem nesse lugar. Quantas histórias para contar.
E apontou para duas lápides, uma próxima da outra.
-Prestou atenção nos sobrenomes? Na semelhança das fotos? Pai e filho. O pai pediu para ser enterrado perto do filho, eles sempre pedem. Esperou vinte e quatro anos, compare as datas.
Bruno, cada vez mais curioso, queria saber algo sobre Catarina. Por que ele não encontrava uma mulher dessas na noite, numa festa. Justo no cemitério. Quantos anos ela deveria ter? Era uma mulher bonita, olhos e cabelos profundamente negros, ar triste, pernas que fariam a alegria de alguém. E que profissão ela teria, para estar numa quarta-feira à tarde no cemitério?
Quando ele se deu conta, já estavam na calçada.
-Agora você deve saber o caminho. Tchau.
Bruno ficou parado. Se ela fosse embora a pé, podia oferecer uma carona. Catarina chamou um taxi e entrou. Antes que ele cogitasse a hipótese hollywoodiana de seguir uma mulher que conheceu há 20 minutos, lembrou que seu carro estava estacionado do outro lado do cemitério.
Durante a semana, Bruno pensou em Catarina muitas vezes. Leu obituários de jornais, tentou achar algum pretexto para voltar lá. Idéia absurda, comentaram os colegas num chope de fim de tarde. Absurdo era enxergar o rosto de Catarina em todas as mulheres que cruzavam o seu caminho. A garçonete, mostrou Bruno. Parecia Catarina.
-Você não disse que ela é morena? Essa daí é loira, cara.
Bruno nem ouvia. Fazia planos para o feriado que se aproximava. Finados. Ele ia acampar no cemitério se fosse preciso. Ia fazer plantão um dia antes e um dia depois. Tudo para encontrar mais uma vez Catarina. E a encontrou.
-O cachorrinho tem telefone?
Catarina o olhou de relance, como da primeira vez. Ele sempre dizia a frase menos apropriada ao momento.
-Olha que eu mando o Tom avançar...
-Não é o que você está pensando. Sou veterinário, Catarina. E nunca sei como puxar conversa com você.
-Flores de plástico! Como alguém tem a coragem de plantar flores de plástico numa lápide?
Bruno ficou parado, enquanto ela praguejava os familiares sem coração.
-Eles visitam no primeiro Finados, no segundo aniversário. Depois botam flores de plástico, para não precisar voltar tão cedo.
Aos poucos, Bruno conseguiu mudar de assunto - não muito. Descobriu que Catarina trabalhava numa clínica de quiropraxia. Endireitava colunas, estralava ossos. Ossos que, por mais bem-tratados que fossem, acabavam ali, engavetados. Os que desafiavam o tempo eram tirados dos caixões e colocados em caixas ou sacos de lixo, cedendo espaço para outra pessoa da família.
-Aposto que você visita cemitérios quando viaja.
Catarina já estava na calçada, se despedindo.
-Sim. O da Recoleta é o meu preferido.
E lá se foi Catarina, deixando Bruno mais curioso do que nunca.
Ele mudou o trajeto de casa para passar na frente do cemitério todos os dias. Pensava nela o dia inteiro. Estava obcecado, como diziam os amigos. Apaixonado, como ele dizia para si mesmo.
Numa das idas ao cemitério, Bruno encontrou Catarina. Dessa vez, numa fotografia. Era ela sorrindo. Na lápide, seu nome, a idade, a sacanagem do destino. Olhou a data. Sua morte tinha acontecido dez dias atrás.
Bruno chorou por tudo que não aconteceu entre os dois. Pelas perguntas que ele não fez. Pelo beijo que nunca daria em Catarina. Por tudo que poderia ter começado entre os dois se aquela carona tivesse acontecido. Bruno chorou e sentou no chão. Ia ficar ali, esperando, até que aparecesse alguém da sua quase futura família.

Um comentário:

Anônimo disse...

Talvez eu erre, mas sempre vou tentar, com toda a minha força... Bia