27 de out de 2008

Revista Claudia Bebê, outubro 2008


Já passei por dois partos, um de cesárea e outro meio-a-meio: senti todas as dores de um parto normal mas terminei na faca. Eu poderia falar das contrações e refletir por que nenhum hospital coloca revistas pra gente se distrair enquanto espera a próxima. Poderia lembrar da experiência gutural de gritar por um homem (no caso, o anestesista). Ou falar da sensação de ser costurada e não ter a chance de escolher a cor da linha.
Em vez disso, vou contar os olhares que mais mexeram comigo e que lembro até hoje. Podem inventar ecografia em 5D. Podem transmitir as imagens lá de dentro num sistema pay-per-view. Mas nada nesse mundo supera aquele momento mágico em que você finalmente olha para o serzinho que acabou de sair da sua barriga e se dá conta de que, apesar de tudo que vocês já passaram juntos, ele é um estranho. Então você analisa o nariz, o queixo - o resto você nem olha mais porque já está hipnotizada. A partir dali, seu olhar vai ser eternamente parcial e apaixonado. Se foi um encontro às escuras planejado pela obstetra e seu marido, nunca deu tão certo.
O outro tipo de olhar que ficou marcado na minha memória não tem nada de poético. Foi logo após o nascimento do meu primeiro filho, quando meu irmão nos visitou na maternidade. Ele babou pelo sobrinho, depois olhou para mim e ingenuamente disse:“ué, achei que a barriga saía.” O que mais doeu foi ele ter falado exatamente o que eu estava pensando. Eu, que li tudo sobre gravidez, também fui ingênua a ponto de me imaginar saindo da maternidade com as roupas e a barriga de antes.
Já explicaram a você por que ela não some depois do parto? Culpa sua. Nove meses alisando, passando óleo de amêndoas, fazendo cafuné, olhando de frente, de lado, de costas, idolatrando, conversando com ela sem parar – a coitada da barriga se apega! Cria vínculo. Acha que é da família. Quer mais, como qualquer criança mimada. E vai ficar mais alguns meses com você só de birra.
Como é praticamente impossível uma grávida não paparicar sua barriga, o mínimo que você pode fazer é ser compreensiva. Por nove meses, você a tratou como filha única de mãe solteira. Mas não se iluda. Foi apenas circunstancial. Nada mudou desde que a primeira mulher das cavernas parou nas margens de um rio, viu sua pança refletida e, chorando, descobriu que carne de tiranossauro era calórica.
Mulheres odeiam barrigas, essa é a verdade. O único momento na vida em que a relação se deturpa é durante a gravidez. Uma avalanche de hormônios circulando pelo corpo cega qualquer mulher. A barriga vira o centro do universo. Enquanto isso, seu umbigo vai se transformando num botão de sofá capitonê.
A sala do parto é o divisor de águas. Aquela afinidade que vocês tinham antes, sinto informar, vai embora com a placenta. Em vez de cafuné, agora você quer estrangular sua barriga com um zíper de cintura alta. Quer torturá-la com a série mais cruel de abdominais. Sorte dela que sua energia está momentaneamente direcionada para intermináveis mamadas, trocas de fralda e noites em claro.
Mais cedo ou (geralmente) mais tarde, a barriga se dá conta de que está sobrando. Numa terapia de regressão ao útero, começa a diminuir. Volta a ter oito meses, depois sete, seis, cinco até sumir por completo – com algumas felizardas, isso acontece.
Depois o filho cresce, a cicatriz fica imperceptível, o umbigo sobrevive e, apesar do biquíni ser um momento difícil, na hora de tirar fotos uma mãe sempre pode puxar os filhos pra bem perto (mais especificamnete, pra frente da sua barriga) e sorrir dignamente.

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