10 de out de 2008

Da série "crônicas que viraram anúncio"

Já tem tanta desgraça por aí. Do jeito que a coisa anda, prefiro ser otimista nas pequeníssimas coisas.

Entrei na cozinha e lembrei o que fui buscar lá. Achei o carro no estacionamento do shopping. Liguei para casa e todos estavam bem. Não precisei fazer conta de cabeça nem ler manual de instruções. Liguei o rádio do carro quando estava dando uma música que eu gosto. O vôo não atrasou. Meus órgãos vitais funcionaram conforme o previsto. Abri a porta e o jornal estava me esperando. Acordei com o cabelo bom e com quem eu amo do lado. Não fiquei presa atrás do caminhão de lixo. O soluço parou. O salto do sapato permaneceu intacto. Se é que algum dia vou ter síndrome do pânico, não foi hoje. Entrei no meu jeans recém-lavado. Não recebi ligações de telemarketing. Perdi a parte de trás do brinco e logo encontrei. Causei uma boa impressão em alguém. Não quebrei minha caneca preferida. Na sala de espera, achei uma revista que ainda não tinha lido. O telefone tocou de madrugada e era engano. Tiraram uma foto e eu saí bonita. O fio dental não arrebentou no meio dos dentes. Tomei um copo de água a mais e uma xícara de café a menos. Corri e o joelho não doeu. Escapei da reunião de condomínio. Não faltou luz quando eu estava dentro do elevador. Minha batata frita veio sequinha. Não fui abduzida. Ao longo do dia, parei em quinze sinaleiras e não fui assaltada quinze vezes. As canetas mantiveram uma distância regulamentar da minha camisa branca. Nada caiu da bolsa. Não achei asa de cupim nos móveis. Parou de chover bem na hora em que levei meus filhos no colégio. Passei por alguém que fumava e consegui trancar a respiração a tempo. Cheguei em casa antes de começar a novela. Esqueci de ligar o celular e sobrevivi. Lembrei de me espreguiçar antes de sair da cama e de encolher a barriga antes de entrar na reunião. O pingo de azeite caiu no guardanado de pano. Não fiquei famosa e pude andar tranquila nas ruas. Encontrei uma amiga do colégio e ela estava com mais rugas do que eu. Estacionei entre dois carros de primeira. Passei batom e não fiquei com os dentes sujos. Tive vontade de assaltar um banco mas desisti a tempo. Não precisei cozinhar. Mudei de perfume e perceberam. Almocei com quem eu mais queria. Não me pediram dinheiro emprestado. Recusei uma fatia de torta. Soltei o sutiã sem ninguém ver. Lembrei que faltava queijo antes de chegar no caixa do supermercado. Consegui fazer o DVD funcionar sozinha. Salvei a vida de uma formiga. Nenhuma espinha saiu no meu nariz. Ouvi uma piada boa. Mandaram um beijo para mim. Levei o ferro de passar roupa para consertar e ainda estava na garantia. Fui convidada para ver desenho no sofá. Se alguém falou mal de mim, não fiquei sabendo. Tirei uma felpa sem fazer chorar. Espirrei e disseram saúde. Quis tomar um suco geladinho e tinha. Saí do banho e a toalha estava no seu devido lugar. Do jeito que a coisa anda, ganhei o dia.

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