30 de mar de 2011

O casal abraçado

A rua está cheia de personagens, preste atenção. Mesmo que você não vá escrever sobre eles, pode acompanhá-los como num livro - mas com a sensação de estar sempre relendo a mesma página já que você não sabe nada sobre o tal personagem, apenas cria hipóteses.
Quase todos os dias, na hora do almoço, eu vejo o casal abraçado. É assim que chamo os dois. Abraçar é lindo, caminhar abraçado todo santo dia requer coordenação corporal e sincronismo.

Ele anda com o braço por cima do ombro dela, um braço pesado e possessivo. Ela se encaixa no abraço e ainda segura a mão que sobrou lá em cima. É como se quisesse segurar bem o abraço. Os dois parecem duas peças de Lego, daquelas que é melhor guardar juntas na caixa e não perder tempo desgrudando.

Reparei que a mulher nunca está com bolsa, o que facilita. Às vezes eles carregam uma sacola ou guarda-chuva nas mãos que permanecem livres - os membros superiores reservados ao abraço têm lugar cativo no corpo do outro.

Acho lindo um casal de mãos dadas. Adoro abraçar e ser abraçada. Mas caminhar sempre com os ombros transformados em prateleira?! Daqui a pouco surge um ortopedista e forma um triângulo amoroso.

Cada vez que eu vejo o casal abraçado, crio hipóteses:

-É namoro novo

-Ele tem labirintite e ela dá um suporte disfarçado de abraço

-Eles têm medo de assalto e por isso se protegem

-Ela força o abraço porque no meio do caminho tem o restaurante do ex-marido, que sempre espia os dois passarem e se arrepende da separação

-Ele força o abraço porque não abraçava a ex-mulher antes

-Eles trabalham no mesmo lugar e como "onde se ganha o pão não se come a carne", no intervalo do almoço se abraçam ininterruptamente pra compensar -Eles treinam pra uma promoção de shopping, daquelas que premia o casal que ficar abraçado por mais tempo

-Eles são mais velhos, sabem que o tempo ruge, então acumulam milhas com os abraços

-Ele tem uma perna mais curta que a outra, apoiado assim não precisa de bengala

-Ela é friorenta e usa o braço dele como echarpe

O que eu sei é que lá no fundo os invejo. Eu e todas as mulheres do bairro.


Foto: Flickr - Ann Schuwaner

3 comentários:

Ana Santos disse...

Cada ser humano é um universo de possibilidades, de histórias que podem ser contadas das mais diversas maneiras. Eu costumo criar e recriar histórias quando ando de ônibus e pego algum engarrafamento (quase todos os dias). É uma forma de não ficar mau humorada e pensar que cada pessoa poderia ser um personagem de filme, novela, livro ou mesmo um comercial bem bonito.

Lindo dia pra você!

Ana Santos
www.escritoraemconstrucao.blogspot.com

Fernanda Reali disse...

Ahaha,achei divertido. Credo, odeio andar abraçada. Só gosto de andar de mãos dadas.

Maria do Carmo disse...

Adorei,algumas coisas é bem como eu imagino, hahaha, muito boa mesmo.
Abçs.