15 de mar de 2011

O edifício Arpege

Mesmo depois de dez anos, eu ainda passo na frente desse edifício no bairro Bom Fim e me emociono. Quando chego perto, já vou reduzindo a marcha pra ver a imagem que se forma automaticamente. É uma imagem quase real. Tipo uma holografia com perfume.
Eu vejo minha avó do lado de dentro do portão, abanando. Era assim que ela fazia cada vez que ganhava uma carona pra casa. A Vózica (apelido inventado pelo meu irmão) só desgrudava da grade depois que nosso carro sumia do seu campo de visão. Quantas vezes eu também desci e fui dormir naquele apartamento tão macio e cheiroso. Quantas vezes, já adulta, fui almoçar com ela. Poderia ter ido muito mais, essa é a verdade. E poderia ter levado muito mais frutas.
Esses dias pensei nela ao repetir lá em casa as mesmíssimas palavras que a mãe dizia: "dá uma ligadinha pra vó... ela vai ficar tão feliz!" Os netos acham que estão curtindo o suficiente a turma da melhor idade. Será? Sempre dá pra pedir mais um colinho, mais uma história, mais um bolo de laranja, mais uma foto juntos. Vô e vó servem pra abusar de carinho.
O Fabio tinha quase sete meses quando a bisa morreu. Eu olho pro tamanho dele e calculo o tamanho da saudade que sinto por ela. Vó, tu ia fazer muito bolo pra esse comilão!
Hoje ao passar mais uma vez na frente do edifício Arpege, eu estacionei pra tirar essa foto e imaginei esse post. Tomara que lá no céu tenha banda larga.

3 comentários:

Márcia Gonçalves disse...

Que lindo Magali, me emocionei! Sempre que passo lá eu olho o edifício das sacadinhas azuis e logo surgem 1001 lembranças da infância. Tenho certeza que no céu tem banda larga e teu blog tem uns seguidores fiéis por lá.
Bjs prima!

Carol disse...

Ai, tô aqui que nem uma ridícula escondendo as lágrimas. Tô no trabalho ainda e resolvi dar uma fugida pra internet enquanto o programa rola. Aí, achei esse teu texto. Achei lindo. Eu moro nos Estados Unidos e já faz dois anos que não visito a terrinha. Me deu uma saudade de Porto Alegre, da minha família, da minha vózinha, de ter lembranças... que coisa.
Abraço pra ti,
Caroline

Fernanda Crancio disse...

lindo registro, Magali! Avós realmente são pais com açúcar, como dizem. E é verdade que só damos valor real ao convívio com eles quando crescemos. Ainda tenho a sorte de ter os meus, mas sofro com as mudanças que sofrem a cada dia, com a idade.
Fiz um texto recente falando da minha vó no meu blog (http://palavrearium.blogspot.com/2011/02/sem-despedidas.html), mas tenho certeza que palavra alguma consegue mensurar o amor que tenho por eles. beijão