27 de fev de 2009

Exemplo

Li que as primeiras-filhas têm que arrumar suas camas na Casa Branca. E organizar seus quartos também. Em Chicago era assim. Mais do que o séquito de empregados, Michelle alega que as meninas precisam de normalidade – um pouco que seja. Eu encaro isso como um superexemplo de humildade, bom para qualquer cidadão não importa o rendimento anual. Torço para que a família Obama consiga manter suas próprias leis.
Para falar a verdade, morro de inveja do pulso firme de Michelle. Quem tem filhos sabe, criar leis é moleza. A coisa desanda na fiscalização do dia-a-dia. Ou no cansaço da noite, quando juntar os Legos espalhados pelo tapete é mais rápido do que brigar por sua remoção.
Enquanto um dos cinco chefs que se alternam na Casa Branca prepara o jantar para os reis da Espanha, no andar de cima Malia e Sasha catam suas meias embaixo da cama. Depois organizam as mochilas para o dia seguinte, mesmo que a carona para o colégio seja no helicóptero presidencial.
sabe o que mais? Vou retomar urgente a fiscalização das camas. Não aceitarei pijama do lado avesso. Vou ser dura em relação ao posicionamento do travesseiro. A louça é meu próximo embate. A substituição do rolo do papel higiênico também. Mas é importante lembrar que nem tudo está perdido. Eu governo um país de três homens que nunca deixam a tampa do vaso levantada, o que já é uma bela conquista.

26 de fev de 2009

Cacau e bacalhau

Me sinto culpada. Eu quis tanto acelerar fevereiro, quis me ver livre do carnaval e da bobagem do 8 de março. Olha só o que aconteceu: já é Páscoa nos supermercados. Acredita que o teto está lotado de ovos? O chocolate vai derreter todinho até 12 de abril. Estratégia para vender mais, dizem eles. Ah, jurei que era saudade do coelhinho da Páscoa.
Por que tem sempre alguém querendo vender algo? Nem varreram direito os confetes do chão e a mesa já está sendo posta para a sexta-feira santa. Deve ter programa de culinária pautando receita de bacalhau. Já deve ter oferta do dito cujo. E lugar na geladeira para guardar o bicho, onde eu compro?
Imagino quantas avós vão começar agora mesmo a produzir os ninhos (os pais, como sempre, vão deixar tudo pra última hora). E vá comprar papel celofane, cenoura para deixar para o coelho, coelho vivo para deixar na jaula. Se continuar assim, vou mandar o Papai Noel aparecer em junho, de dente pintado e chapéu de palha. Mais prático, né? A gente queima o pinheirinho na fogueira e tá tudo resolvido. Com o combo das datas, o comércio pode faturar mais um pouco. Tem sempre um louco para comer peru com bolo de milho. E pode render um casamento na roça da rena com o padre. Quem sabe a mistura de quadrilha com Jingle Bell´s não faça surgir a Mulher Sarrabulho, revigorando o mercado do funk?
Voltando ao chocolate, como eu vou escolher uma barrinha ou um simples bombom com todos aqueles ovos gigantes me encarando? Nas idas ao supermercado, preste atenção como o teto de ovos se move. Dia após dia, ele começa a descer, descer, descer e nos pressiona a comprar, comprar, comprar. Haja dinheiro e estômago.

25 de fev de 2009

Contra a maré

Fiquei em casa no feriado de Carnaval. Acho que foi a primeira vez na vida. No ínicio dá uma sensação de desperdício, quatro dias e meio jogados pela janela. Como se viajar fosse o único comportamento aceitável. Depois a gente olha para o lado de dentro da janela e vê que o camarote não podia ser melhor: todas as mordomias, geladeira cheia, ar condicionado geladinho, sem ziriguidum nas redondezas e só quatro Vips. Nossa prioridade era outra, a recuperação do Rafael. E valeu cada curativo.
Aproveitei para tirar uns diazinhos de férias da internet. Não escrevi, deixei a cabeça arejar. Escapei da estrada lotada (o que eram as fotos de engarrafamento?), da superpopulação na areia e do clima melequento. Chuva na praia é um inferno. Em casa, chega a ser bucólico. Em vez de assistir os pelados da Sapucaí, dei uma espiada nos bem-vestidos do Oscar. E que vestidos! Dormi, comi, corri, li. Botei os DVDs, o cinema e as gavetas em dia. Olha só quanta coisa - e eu achando que não tinha feito nada. Às vezes, ir contra a maré é a melhor parte do feriado.

20 de fev de 2009

No meu calendário já é março

Com o perdão do trocadilho, vou pular o carnaval. Para mim, já é março. E se não for acelerar demais, eu queria que duas comemorações tivessem passado: o Dia Internacional da Mulher e o aniversário de 50 anos da Barbie em 9 de março.
Já fiz muito anúncio de homenagem às mulheres, o que não me ajudou em nada a criar alguma simpatia pela data. Adoro ser mulher e acho desnecessário comemorar isso. Pior é receber os parabéns por essa incrível façanha.
Quem tem que comemorar é a Barbie. Com 50 anos, ela não ganha ruga, mancha na pele, fio de cabelo branco. Só desfile na Semana de Moda de NY, loja-conceito com spa em Xangai e tantas outras homenagens. Fico feliz em ser da época da Susi - tudo era menos glamuroso e mais infantil. Quando a loirice perfeita da Barbie chegou ao Brasil, em 1982, eu não brincava de boneca faz tempo. Pelo jeito, não prejudiquei em nada as estatísticas. Li que a cada segundo 2 bonecas Barbie são vendidas no mundo. Com essa bela reserva monetária, a cinquentona chega aos 100 com a mesma cara de guria.

Sangue frio

Ontem eu tive que ser mãe no sentido mais forte possível da palavra. Na verdade eu queria a minha mãe. O problema é que o Rafa queria a dele. Meu filho fez uma cirurgia, nada grave. Mas teve anestesia geral, nervosismo, ansiedade e sangue, muito sangue. Já na sala de recuperação, quando a gente pensa que o pior passou, fomos pegos de surpresa por um ponto que inventou de romper. E com ele veio o tal do sangue.
Chegou uma hora em que o cirurgião de plantão achou melhor chamar o médico. Eu devia ter beijado aquele homem. Passado o susto, tarde da noite, tive a oportunidade de agradecer realmente. Aconteceu no meu turno com o Rafa. O Ricardo estava do lado de fora, eu poderia ter fraquejado e trocado de lugar. Minhas pernas amoleceram, sorte que o Rafa não notou. Na parte de cima do corpo, eu fui uma muralha. Quando vi, uma pequena sala de cirurgia se montou ao nosso redor. Cinco minutinhos e está tudo resolvido, disse o médico colocando as luvas. Não arredei o pé. Segurei a mão e o choro. Fiz tudo que um filho espera de uma mãe.

18 de fev de 2009

Obrigada, Visa

Constrangimento é quando o seu querido cartão de crédito é recusado no caixa do supermercado. E na hora do pico, com todos os vizinhos comprando pão. Aconteceu comigo ontem. Dá a impressão que ligaram um holofote em cima da nossa cabeça. Transação inválida. Primeiro culpo a memória. Será que errei a senha? Depois culpo a moça do caixa. Vai ver ela apertou débito e era crédito. Nessa altura tanto faz, alguém da fila já está olhando. Desvio o olhar para a tela do caixa – péssima ideia, trancou tudo por minha causa. A testa franze. Os dedos disfarçam e vasculham a carteira em busca de outro cartão, cheque, dinheiro. Agora a fila inteira observa a cena. Já estive do lado de lá, a gente sempre pensa “esse aí tem cara de caloteiro, garanto que estourou o cartão.” O constrangimento também mexe com o fuso horário, arrasta o tempo, confunde a gente. Depois de receber três vezes o veredito de transação inválida, meu Visa foi aceito. A moça sorriu, a rede estava lenta. Juntei os ombros, as sacolas e fui embora.

17 de fev de 2009

A calça cenoura

Cada nome que a moda inventa. Eu amo salada mas não vou usar calça cenoura. Larga em cima e afunilada embaixo? Nada saudável para os meus quadris. Hit por hit, nesse inverno prefiro uma baby bag, um colar exagerado, um paletó sexy. Chego a salivar por uma transparência. Se for preta, hummmm, delícia.
Voltando às calças, tem outra que o nome não me apetece: a calça do namorado (aquela folgadinha que se usa com a barra dobrada à la Katie Holmes). Nesse caso, o nome podia ser mais realista. Que mulher tem coragem de abrir o armário do namorado e pegar uma calça sua? Só o namorado do Marc Jacobs pode fazer isso. Em caso de incêndio noturno e a necessidade urgente de evacuar o prédio, se eu dormisse nua ou meu pijama fosse horrível eu recorreria à calça do namorado. E explicaria aos bombeiros que não tive opção.
Fico imaginando os próximos nomes que a moda pode lançar. Calça Iceberg? Nem pensar. Calça Magnólia? Eu experimento. Pelo menos o nome inspira.

Em trânsito

Difícil se contentar com o aqui agora. Parece que a gente está sempre buscando algo melhor, mesmo que não saiba direito que algo melhor é esse. A cabeça fica em trânsito, não tem paradeiro.
Total concentração no hoje? Ah, deixa eu olhar para frente. O sonho é livre, dá para fazer planos, se iludir e depois botar a culpa no destino, na sorte que cochilou e não apareceu na hora certa. Também é gostoso olhar para trás. O ontem é reconfortante, bem ou mal eu passei por tudo aquilo, sei como esticar a minha colcha de retalhos.
E o momento que está debaixo do nariz, como fica? No limbo. Eu não queria ser ele, se você quer saber. O hoje acaba ficando em segundo plano, tem cara de entressafra. E amanhã já virou um dia desperdiçado.
Ou não. Talvez seja exatamente esse o papel do aqui agora. O degrau que segura as pontas para eu continuar subindo a escadaria.

16 de fev de 2009

Não diga nada, lhe direi tudo

Linha branca, para quem trabalha com varejo, significa eletrodomésticos (uma expressão do tempo em que geladeira só existia na cor branca). Agora para quem trabalha com cartas e tarô, linha branca significa magia boazinha.
Ah, tá. Entendo mas continuo com medo. Em toda a vida, fui uma única vez à cartomante. A mulher pegou minha mão e foi de uma objetividade cruel: “Você tem a linha da vida curta. Três pontinhos.” Levantei e fui embora, já sentindo fortes dores no peito.
De lá para cá, só leio horóscopo. Isso se tiver mais alguém na sala. A cada aniversário, lembro daquela trainee de Madame Min. Quero chegar aos 99 para ela ver minha foto no jornal e reconhecer “putz, errei feio”.
O trauma branco com cartomantes e suas facções não me impediu de pegar um simpático folhetinho. Estou com ele em cima da mesa. Aqui diz que, com fé e confiança, essa pessoa pode abrir os meus caminhos com banhos e fluídos para amor, segurança e inveja. Já passou tanto tempo, né? Talvez eu marque hora. Hoje em dia não é qualquer um que se oferece para resolver todos os nossos problemas.

Penetra

Ninguém está para casar? Deu vontade de ir numa festa de casamento. Mas festão, hein? Daqueles que a gente fica preocupada com a roupa um mês antes. Já aviso que não vou na igreja. Está muito calor, a maquiagem não aguenta. Além do mais, eu me emociono fácil. Quero chegar na hora do Frank Sinatra. Vou entrar rodopiando o tafetá.
É quando toca New York, New York que a gente tem certeza que está numa festa de casamento. Essa música serve como isca para todo mundo largar a bandeja de canapés e se jogar na pista – os casais mais novos dão risinhos, comentam cúmplices “ai que brega” mas é só repetir o refrão que eles já estão mimetizados com os mais velhos, ainda por cima cantando junto.
Queridos noivos, por favor, caprichem nos arranjos de flores. Eu sei que é época de crise, mas é preferível cortar o coquetel de frutas, já que cortaram o álcool dele. Flor significa romantismo, poesia, o lado lúdico do casamento, e vocês têm que investir nisso. Em agradecimento, vou sentar na mesa que tiver o arranjo mais bonito para levar para casa.
Também troco a lembrancinha (e aquele anel que pisca luz) por champanhe muito gelado a noite inteira. Ou muito champanhe gelado, tanto faz. Não é o buffet que vai garantir a alegria da noite, então menos batata palha e mais mesa de doces porque o pessoal vai precisar. E se não for pedir muito, quero que vocês convidem gente bem animada. E um DJ que só toque samba e marchinha de carnaval depois das 7 da manhã, quando eu estiver desmaiada na cama. Prometo dormir com maquiagem e grampo no cabelo só para me olhar no espelho na manhã seguinte e dizer “que festa, benzadeus!!”

15 de fev de 2009

O free que originou a série

Essa foi a primeira crônica feita para o site do Bourbon Shopping, com o tema Natal, publicada em dezembro de 2008. Era para ser só uma. Já estou louca para escrever a próxima.

Feliz Encontro

Esse ano consegui arrumar a árvore de Natal mais cedo. Abrir as sacolas e rever os enfeites guardados o ano inteiro dá uma certa nostalgia, é como reencontrar velhos amigos. O furinho na madeira do lado de fora da porta espera solenemente a hora de receber a guirlanda de volta. No centro da mesa, o arranjo natalino que viu os filhos crescerem convive em harmonia com o novo Papai Noel que toca Jingle Bells numa versão samba-rock.
Com a casa pronta para o Natal, só falta preparar o espírito. Dezembro é um mês de emoção mas também de produtividade. Tem que agilizar o amigo-secreto, escolher os presentes (e agradar a todos), escrever cartões com mensagens especiais, dividir as tarefas e ver quem faz a salada, quem fica responsável pela sobremesa. Isso se o lugar onde vai ser a festa já estiver definido. Sem falar nas roupas para todas as confraternizações e no overbooking de três compromissos na mesma noite. Só com uma agenda organizada para dar conta de tudo. É impressão minha ou você está ofegante do outro lado do computador?
Calma, dezembro sempre foi assim e acho que nunca vai mudar. Faz parte da festa. É como o peru que, ano após ano, aparece rodeado de farofa. São 31 dias de adrenalina. E ainda tem gente que faz aniversário e se casa em dezembro. Eu já aprendi alguns truques, como pedir dicas de presentes, comprar lembrancinhas extras e substituir os cartões por telefonemas desejando Feliz Natal. Um torpedinho querido é outro jeito prático de não deixar ninguém sem abraço. Não inventar pratos loucos para a ceia mantém as tradições e a nossa sanidade mental.
Esse dezembro tem um gosto especial: passeando no shopping, reencontrei uma grande amiga de infância. Nós éramos tão ligadas, tão cúmplices, tão irmãs uma da outra. Foi um presente inesperado, daqueles que acertam direitinho o que a gente estava precisando. É quase um luxo ouvir alguém chamando seu nome, reconhecer a voz e imediatamente voltar no tempo.
Talvez seja essa a maior recompensa para as correrias de dezembro: o encontro. Agora que ganhei de volta a minha amiga, já tenho a primeira resolução para 2009: manter as amizades que importam, não deixar que as obrigações da vida adulta nos separe de novo.

14 de fev de 2009

Acertando os ponteiros

Hoje de noite lá vamos nós acertar os relógios do microondas, dos telefones sem fio, do rádio-relógio, dos painéis dos carros. Uma horinha a mais para dormir só mesmo nessa madrugada, fim do Horário de Verão.
Daqui a poucos dias, quando as aulas começarem, aí sim é que vai mudar o horário aqui em casa. Meus filhos mudaram para o turno da manhã e serão gentilmente rebocados da cama ainda na escuridão – tadinhos!
Acho que vou ter que comprar uma corneta ou buzina de vaca. Posso ficar rouca de tanto gritar. Xixi, café, roupa, mochila, lanche, escova de dentes. Se sobrar tempo para dizer bom dia e tchau, eu agradeço. Mas eles acostumam logo, o negócio é dormir bem mais cedo. Se eu comprar uma buzina com sons diferentes, o toque de recolher pode ser com um agradável relinchar de cavalos. Ou o hino do Inter.
O melhor de tudo vem agora: antes das 7 da matina os três homens da casa vão rumar para ao colégio. E eu, para a minha corrida! Finalmente vou ter um horário fixo para cuidar de mim, bem cedinho, e ficar livre o resto do dia. Quando o Rafa e o Fabio estiverem sentados na aula, eu vou estar sacudindo cada músculo do corpo. Sem falar na cabeça, que fica levinha depois de uma boa corrida. E depois, a casa vazia, um banho dos deuses.
Só vou sentir falta de uma coisa, uns dos hábitos mais gostosos do mundo. Antes de sair para o trabalho, abrir pé por pé a porta dos quartos e carimbar as bochechas dos meus dorminhocos com um beijo quentinho.

Sobre uma paixão feminina

Essa crônica é mais um free e está agora no site do Bourbon Shopping. Foco exige sacrifício, como dizia o povinho do falecido emprego. Todo mundo liquidando e eu não posso gastar NADA. Acho até que vou tomar um calmante à base de ervas para manter a calma.

Paixão por liquidação

Quando o assunto é liquidação, sou uma abelha em direção ao mel. Fico tranquila porque sei que não estou sozinha – cabem muitas mulheres nessa colméia.
Já subornei meus filhos (homens!) com sorvete para que entrassem comigo numa loja em liquidação. Era o último fim de semana, eu não teria como voltar outro dia. Adivinhe se o sorvete não foi parar no chão, tumultuando ainda mais o lugar? Eu teria prontamente limpado se não estivesse há meia hora na fila do caixa, prestes a ser atendida. Eu e um vestidinho lindo, preço in-crí-vel, o único que encontrei no meu tamanho. O sorvete derreteu mais rápido com o olhar fuzilante da atendente. Não perdi a classe, muito menos o vestido. Sorri e ainda botei a culpa na loja:
-Viu o que uma mãe passa para não perder a liquidação de vocês?
Só os homens conseguem ser imunes aos apelos de uma vitrine em promoção. Quanto maior o percentual, maior o serviço de utilidade pública para a ala feminina. A gente nunca sabe quando vai precisar de uma blusinha nova, melhor estar sempre abastecida.
Não são os homens que dizem para sermos racionais? Então! Se o preço baixou, a lógica manda aproveitar. Quer argumento mais matemático do que um sapato com 40% de desconto? Ainda mais se ele for preto (sim, mais um) e num modelo que não sai de moda tão cedo.
As liquidações também cumprem um papel biológico, regulando o nosso relógio interno. O ano voa, atropela, faz perder as referências. Nós, mulheres, utilizamos as liquidações como sábios marcadores de tempo. O outono correria o sério risco de emendar no verão e passar despercebido se não fossem as liquidações. Com elas, encerramos um ciclo e iniciamos outro. Nos despedimos dos biquínis e recebemos de braços abertos os novos trench coats. Preparamos não só o closet, mas o espírito. Subimos e descemos roupas, torcemos para que ainda faça um calorzinho e dê para usar a regatinha garimpada aos 44 minutos do segundo tempo.
“A partir de”. “Apenas”. “De Por”. Essas palavras são pura poesia para mulheres que assumem sua paixão por um desconto charmoso. Sou uma delas. Não nego. E ainda pago em três vezes no cartão.

13 de fev de 2009

Deu no New York Times

As it-girls de Manhattan estão indo menos na manicure. Reflexo da crise que, infelizmente, já deve ter atingido as mechas, luzes, tonalizantes e outras delícias que fazem a cabeça de qualquer mulher, não importa a nacionalidade.
Agora a crise chegou na ponta dos dedos. Cortar as unhas não é mais suficiente, tem que cortar o esmalte, o palito de laranjeira, riscar a conversinha sobre o último lançamento da Risqué. O engraçado é que eu achei essa matéria logo depois de olhar para as minhas unhas e ter uma crise de culpa. Quebrei um pacto comigo mesma, pulei a ida semanal na manicure para economizar o quê? Autoestima? Depois a gente gasta mais na terapia, o que é pior.
Na matéria diz que o setor está preocupado com o desemprego das manicures e dos produtores de acetona. Já quem está faturando é a indústria da unha postiça, que dura séculos e só comprova a cafonice das americanas. Quer saber o desenrolar dos fatos? Liguei para o salão, marquei pé e mão para amanhã. Vou pintar de escuro, vou correr o risco dos lascadinhos, não vou deixar de ser a Magali de sempre.

Deixe seu recado após o bip

Perdi o desconto de boa motorista no IPVA por causa de uma multa de celular. Eu sei que não pode, distrai mesmo (tanto quanto dirigir com cachorro ou chimarrão no colo). Vou pagar quietinha. Só não concordo em deixar de ser uma boa motorista. Senti um leve tom de preconceito. E o pisca, sempre avisando meus movimentos? E as estacionadas de primeira entre dois carros? E os cálculos mentais para separar as calotas do meio-fio das calçadas? Confesso que já manchei de branco muito pneu, não faço mais isso. E já aviso aos interessados que não fui eu a responsável pelos dois amassadinhos no meu carro – culpa de péssimos motoristas que a gente é obrigada a conviver nos estacionamentos de shopping e supermercado.
A multa é de quase um ano atrás. Pelo horário e local, eu devia estar atendendo uma ligação de casa. Desculpe, seu guarda, mas sempre penso que aconteceu alguma coisa ruim com os meus filhos. Quem atende o celular é o instinto exagerado de proteção, não eu.
Esse mesmo instinto já atendeu muita ligação boba para apartar briga ou intermediar um tratado de paz na Legolândia. E geralmente no meio de uma reunião de trabalho. Resolvi essa questão estabelecendo multa de 2 pilas a cada ligação que eles poderiam ter resolvido sozinhos. E não é que deu certo? Botou a mão no bolso, funcionou. Nesse caso, eu estabeleci a multa, eles pagaram mas nunca deixaram de ser bons filhos. Excelentes, aliás.

12 de fev de 2009

Crônica com briefing e aprovação

Um freezinho que eu fiz em janeiro/09 para o site do Bourbon Shopping. Escrever é bom de qualquer jeito, com ou sem assunto determinado.




Calor Humano



Uns preferem o inverno. Outros, a meia-estação. Mas tem gente que não troca o verão por nada. Eu já fui apaixonada pelo frio, hoje é o calor que me atrai. Ou o que ele representa. E depois que inventaram o ar condicionado, o ventilador e as promoções, ninguém precisa sofrer se a temperatura subir muito. É quando o sol assume o controle da situação que a conversa fica boa, as calçadas ganham mesinhas e cadeiras, o chope fica mais gelado e as risadas se soltam.
O verão já vem com blush. Quer que a pele apareça e perca o branco escritório. Pede para abrir mais um botão do decote e nenhuma mulher tem como recusar. Se existe uma desculpa perfeita para curtir a vida, ela se chama "verão". Quem consegue fazer hora extra com o sol chamando lá fora? Bendito Horário de Verão, com seus dias mais longos e convidativos.
Verão é sinônimo de estrada cheia, eu sei. E de fila no vestiário do clube depois da piscina. Mas em que outra época do ano é tão perfeito dar mergulhos, andar de pés descalços, deitar na rede depois do almoço, jogar frescobol até doer o braço?
Ainda vou propor ao Ministério da Saúde que promova campanhas de incentivo aos banhos de mar e suas propriedades terapêuticas. Não tem semana estressante que resista a uma caminhada num fim de tarde na beira da praia, a onda batendo de leve no calcanhar, o céu mudando de tom, a luz pintando o mar e distraindo a alma. Se não der para ir à praia ou à piscina, um banho bem demorado de chuveiro também faz milagres. Refrescante como sorvete. Para mulheres que adoram um creminho, o verão é um prato cheio. Qual será o must-have da estação? Os hidratantes com tecnologia de ponta, as máscaras para cabelos rebeldes, que insistem em mergulhar e aproveitar a vida? Um novo protetor solar que dispara um alarme se você esqueceu de passar? Eu fico com todos e não descuido do rosto, que merece um exagero de proteção.
Tenho amigas que anunciam a chegada do verão após a compra do primeiro biquíni da temporada. Cortininha, de lacinho, de listrinha, tomara-que-caia, tanto faz – desde que ninguém perca a praia porque não está com o corpo igual ao das modelos das revistas.
O verão pede coragem e implora que as nossas neuroses não sejam maiores que os nossos planos. A piscina do condomínio, a casa de praia dos pais, o hotel com os amigos, um passeio de barco inesperado e inesquecível. Muita salada de frutas numa hora dessas. E um sorriso dourado, que faça o sol morrer de inveja.

Valentine´s Day

Obama consegue um minuto de paz no gabinete e aproveita para pensar o que vai dar de presente para sua Michelle. Sábado é Valentine´s Day, e uma das suas promessas internas de campanha foi preservar a love story do casal. Eles sempre trocaram mimos. Já que agora as câmeras dão um zoom em qualquer beijinho no cangote, melhor ele dar uma joia. Talvez uma lei com o seu nome. Outro pet, não. Quem sabe, uma clutch no formato do mapa dos Estados Unidos. O homem espreme o cérebro quando um assessor esbaforido invade seu gabinete. “Mister presidente, ursão branco na Casa Branca!!”
Por um instante, Obama se pergunta se é uma gíria interna para alertar um terrorista vindo dos países gélidos. Já manda convocar uma reunião de emergência, o presente de Michelle vai ser resolvido mais tarde no e-bay.
Imediatamente, sua filha Malia entra porta adentro. “Daddy, eu posso explicar.” Junto com ela, vem o terrorista: um ursão fofo e branco de pelúcia, com os perigosos dizeres I LOVE U na barriga.
Mais essa, agora! Uma adolescente apaixonada em menos de um mês de governo!! Isso nem mesmo seus assessores conseguiram prever. Como um pai vai se concentrar na crise mundial com uma avalanche de hormônios o ameaçando? Maldito Valentine´s Day. Tirar a data do calendário americano não é uma boa ideia.
Enquanto Obama espreme o cérebro de novo, a pequena Sasha escreve seu primeiro poema erótico no verso de um folheto de campanha (a família sempre reciclou papel). No quarto ao lado, Michelle esconde a caixa com a lingerie provocante que comprou para o dia 14. Estar cercado de três mulheres já ocupa um homem, imagine um presidente.

11 de fev de 2009

Carteira Kate Moss

Preciso urgente emagrecer minha carteira. Dinheiro não tem lá dentro faz tempo. Fotos dos filhos já consegui reduzir. Mais não dá. E a olhadinha quando bate a saudade?
Tem os cartões de crédito Visa e Master. Obviamente, eles ficam. Os dois têm datas diferentes de uso, eu poderia deixar um em casa. Mas um funciona como estepe do outro - e sem estepe eu não dirijo. Tem os cartões fidelidade da farmácia, locadora, livraria, estacionamento do shopping (opa, fidelidade com tanta gente chega a ser promíscuo).
Uso a carteira de motorista também como identidade, o que já são gramas a menos na balança. Preciso de moedas para alimentar os amigos flanelinhas. Plano de saúde não convém tirar, vai que eu somatize e sofra um ataque súbito de falta de ar e de cartão?
Eu sei o que engorda minha carteira: o maldito talão de cheques. Chega a ser antiquado carregar um deles. Esse hábito perdeu o sentido com a dinheirama de plástico. Quase não uso cheque, a prova é que ainda tenho um com o 2009 preenchido - mania de virada de ano.
Para a minha carteira ficar ossuda como a Kate Moss, o jeito é vomitar o talão. Por via das dúvidas, posso deixar duas folhinhas - se a Kate sobrevive com duas folhas de alface, a carteira aguenta.
Na verdade, o problema é mais sério (insolúvel por sinal). Comprei essa carteira linda de morrer na última viagem. Ela é tão colorida e tão cheia de estilo. Não escondendo nada de você, ela é um pouco grande. Usando de toda sinceridade, são praticamente 3 carteirinhas juntas. Kate Moss aprovaria.

Aspargos

Alguns conselhos eu guardo pra sempre. Um deles é “Tem que botar aspargos na sopa de pacote”.
Se você avaliar a questão pelo lado gastronômico, vai conseguir uma sopinha mais razoável. Já se aplicar isso na moda, hello, é o famoso hi-lo que as revistas tanto falam: a camisetinha Hering com a bolsa Chanel – nem que seja da Maison Chinatown.
Agora se você conseguir levar esse conselho para a vida, muita situação ruim pode ficar mais palatável. Botar aspargos na sopa de pacote é não se contentar com o basicão, é não engolir qualquer coisa, é apostar no improviso, no bom humor e manter a nobreza de espírito. McGyver faria isso e muito mais (se você não lembra da série, não conheceu a vida).
Às vezes a gente não tem ânimo nem para rasgar o envelopinho da sopa. Mas não dá pra desistir, né? Pior é engolir dias insossos e fazer cara de quem achou uma delícia.

10 de fev de 2009

Sobre bigodes

Os bigodes estão voltando à moda – peraí, que eu saiba, os homens ainda estão ocupados tentando combinar sapato, meia e calça.
Juro que entendo essa necessidade da moda reinventar a roda, ainda mais com a força de Hollywood e suas celebs. Num filme, conforme o personagem, até funciona. Numa saída de restaurante, também ajuda a atrair papparazzi. No dia-a-dia, a história é outra.
Você já beijou um bigode? Eu já, e aviso: inevitavelmente ele chega primeiro, atrapalha a boca, polui o beijo. Talvez você nem consiga fechar os olhos e relaxar.
Bigode faz cócegas, envelhece, encosta no molho, cresce rápido. Uma linha tênue separa um bigode cool de um bigode troglodita. Homens, eu peço. Esperem essa moda passar. Tem que ser macho para aceitar que bigode só funciona em Brad Pitt e Gianechini. E olhe lá.

A pinça

Como pode um instrumento tão importante para as mulheres não ganhar o devido destaque na mídia? A pinça é a prima pobre do laser, não rende notinha nem em jornal popular. Muito menos nas revistas femininas, sempre preocupadas em mostrar a última novidade tecnológica. Mas quantas mulheres têm dinheiro para torrar em 10 sessões de laser e tentar inutilmente impedir o crescimento dos pelos? Uma pinça bem manuseada tem o seu valor. Dessa rapidinha, toda mulher gosta.
Esses dias li que Madonna deu ordens para que nenhuma pinça encoste na sobrancelhuda Lourdes Maria, com medo de que a garota se trasforme a ponto de render mais assunto que a mami. Que feio, Madonna! Manda baixar um eyebrow-designer right now. E que ele venha munido de um cortador de grama para o primeiro abate, arrematando depois com uma preciosa pinça. Floresta só é moda entre os ecologistas.

Diários de uma cronista

Já que nenhum jornal ou revista de grande (média, pequena, minúscula) circulação me contratou, eu resolvi assumir a vaga recém-aberta de cronista nesse blog. Um acúmulo de funções, se você considerar que aqui eu sou a acionista, a estagiária, a CEO de conteúdo, a VP de banalidades. O medidor do blog vai ser o tiozão da banca, para avisar se o texto rodou ou não.
Você pode achar que há uma saturação no mercado de cronistas, mas tem assunto para todos. Enquanto o Estadão, a Folha, a Vogue ou a TPM não me chamam, eu vou treinando. Aqui em Porto Alegre um dos assuntos é a abertura do Camelódromo, tirando os vendedores ambulantes do centro da cidade. Já ouvi de mulheres finas que lá "tem calcinha igual às da Renner e muito mais barata!!" - será que o Tempo de Mulher finalmente encontrou concorrente à altura? E será que essas calcinhas têm elástico forte o suficiente para segurar as coxas de halterofilista das mulheres horti-fruti que vão se proliferar no carnaval? Preciso conferir pessoalmente. Camelódromo é um must-have em tempos de crise.

(se alguém tiver o e-mail do Felipão, por favor, passe o link do Diário De Uma Demitida. Pode ser útil. Pena que o livro ainda não está pronto, senão eu mandava um exemplar com uma dedicatória bem querida.)