13 de mai de 2010

Diana Corso, sempre lendo meus pensamentos

Ontem eu fui amarrada na reunião da catequese do Fabinho. Confesso: só porque tem que assinar a lista de presença e eles cobram das crianças. Agora o colégio já não pede mais as odiosas maquetes de sucata. Mesmo assim, volta e meia surgem as pequenas grandes provações. Acredita que a comemoração do Dia das Mães do meu filho mais velho foi um convite para assistir com ele uma peça numa QUARTA-FEIRA ÀS 10:30 DA MANHÃ? Desculpe, nesse horário eu trabalho para pagar a mensalidade do colégio. E vá sentir culpa, e vá explicar pro Rafa que eu adoraria assistir com ele mas é sacanagem marcar nesse horário e convidar por descargo de consciência.
Voltando à reunião da catequese: lá estava eu na igreja, de olho no relógio e louca pra ir pra casa, quando uma mãe levantou o dedo e fez uma pergunta para o padre. Sim!! Ela não só estava interessada, como queria questionar. E contribuir com o seu zeloso interesse de mãe de porta de escola - na hora lembrei do que a Diana Corso escreveu.
Pra quem não é daqui, a Diana Corso é psicanalista e escreve também na revista TPM. Eu ainda vou convidá-la pra tomar um café um dia desses...
Pra quem é mãe, leia e veja se você também não se irrita (e se culpa) com essas mães que sempre sabem de alguma circular ou dever de casa que você nem desconfia.

Mães de porta de escola

Na porta da escola das minhas filhas, incontáveis vezes escutei as outras mães combinando horários, prazos e conteúdo de trabalhos dos filhos, assim como resultados de provas, ou dificuldades em realizar determinada tarefa, como se fossem suas. São elas que chamo de mães de porta de escola. Isso sem falar nas feiras, exposições ou quermesses, para as quais eu sempre chegava com os itens solicitados, mas saía com a sensação de que não era bem isso. Participei como pude da gincana de horários e tarefas a que os pais são submetidos, nas apresentações musicais e de teatro, nas festas religiosas e apresentações que frequentemente eram feitas no meio da semana e do expediente.

Eu não era uma mãe diferente das outras, a maior parte das mães que encontrei também trabalhava, todas davam seu melhor, mas sempre havia aquelas que pareciam estar sabendo informações imprescindíveis, que nos faltavam. Pertenci à categoria das mães que, pela sua presença apressada na escola, pensam que estão em falta com a maternidade ideal, nesse caso representada pelas mães de porta de escola. A solicitude destas, cujas boas intenções são indiscutíveis, lembra às outras, que se sentem vexadas e omissas, que o futuro do seu filho está nas mãos do desempenho escolar dele, e que ela não o está ajudando adequadamente. Esse problema começa cedo: se inaugura com cada colagem de figuras de revista ou maquete de sucata do jardim de infância.

Os psicanalistas usam o conceito de “mãe suficientemente boa”. Gosto dele justamente pela palavra “suficiente”, que é diferente de “plenamente” ou “totalmente”. Com ele, descreve-se a função materna e a forma como seu olhar e voz constituem a subjetividade do filho. Mas também evoca que é exatamente nos momentos de necessária ausência da mãe que se gera no filho o espaço para fazer sozinho o que ninguém pode fazer por ele. O filho precisa se empenhar em seu próprio trabalho de compreender o mundo a seu modo e a si mesmo como uma pessoa em particular, descobrir que ele continua existindo mesmo quando está só.

A todas as mães que se sentem em falta, gostaria de dizer que as mães de porta de escola até podem existir, mas elas são grandes mesmo é no nosso pesadelo. Neste, somos insuficientes em todos os territórios, na presença afetiva e na preparação dos nossos filhos para a disputa pelo prestígio que enfrentarão no futuro. Mães ocupadas de todo o mundo, uni-vos! E relaxem, vocês são boas mães. Um filho se constitui de presenças e ausências, a sabedoria nesse caso está na dose certa.

Texto publicado no jornal Zero Hora de ontem.
Imagem: owenglidersleeve.com

2 comentários:

Mila disse...

Mães não são eternas, os filhos precisam saber isso desde cedo...
Bjs da Mila
Belo texto Magali, adorei, me senti menos culpada, rs

Gislaine Fernandes disse...

Belo texto MAGALI
É assim que penso e durante muito tempo me puni por pensar assim, criar o filho independente, andando com suas próprias pernas, dando amor sim mas na medida certa. Semana passada foi a comemoração do dia das mães da escola do meu filho e passei pelo perrengue dos horários era em pleno 9:00 da manhã, mas fui troquei meus horários onde trabalho e fui. Lá fui convidada a falar sobre a importância da mãe na escola, aí eu fui feliz, pq falei tudo que queria falar que não adiantava ser mãe de porta de escola, quando o que o filho necessita é de presença em casa, participação no dia a dia, para a construção da sua personalidade.Enfim falei muito por muitas e pela direção da escola fui bem aceita, mas pelas mães porta de escola já não sei.Não me sinto nem um pouco culpada!
beijos