10 de set de 2008

Forno e Fogão

Claudia tinha doces lembranças da infância. A cassata de bombons da mãe, o bolo de laranja da vó, o doce de abóbora da tia, o pudim de leite condensado que ela comia na casa da melhor amiga. Eram doces feitos com amor e esperados ansiosamente por semanas ou meses até que fossem preparados novamente, como se espera alguém querido chegar de viagem. Claudia sentia mais afeto por alguns desses doces do que por muitos familiares que ficavam amargos com o passar do tempo.
E também existiam as doces lembranças. O bife à milanesa da mãe que ninguém preparava igual, a pizza de sardinha com massa caseira feita quando as visitas ficavam para o jantar, a clássica salada de frango dos aniversários – o que era ficar um ano mais velha perto de sentir aquela delícia desmanchando na boca?
Mas isso eram lembranças. As dela. Agora Claudia também era mãe e só entrava na cozinha para apagar a luz quando alguém esquecia. Para não exagerar, ela apertava os botões do microondas. Especialmente o de descongelar. As mulheres de hoje têm a desculpa perfeita para não cozinhar. Trabalham fora. Estudam. Pagam contas. Precisam ler e descansar. Já que o século é outro, Claudia podia encher a boca e assumir que não gostava de ir para a cozinha – ninguém seria louco de contestar.
Mas um dia ela olhou para os filhos e se deu conta de que eles não teriam aquele tipo de lembrança. A infância com gosto de panqueca, a adolescência com a descoberta do Rei Alberto. Todas as crianças devem chupar bico, dizem os médicos. E todas as crianças deveriam lembrar de alguma comida feita pela mãe, dizia sua consciência pesada. Ela, tão moderna, engatinhava na cozinha. Que legado gastronômico deixaria para seus filhos? Um álbum com suas telentregas preferidas? Será que não dava para voltar atrás nos seus ideais de vida e aprender um prato especial? Somente um, para não traumatizar ninguém. Claudia não queria que seus filhos enchessem os olhos de lágrimas ao contar para os netos: “ninguém descascava uma maçã como a minha mãe!” ”Eu abro esse pacote de bolinho pronto bem do jeito que ela fazia!” Essas lembranças não emocionavam nem dono de supermercado.
Claudia resolveu agir. Não estava preparada psicologicamente para procurar seus livros de receita, se é que lembrava onde os guardou. Abriu a geladeira como quem abre o capô do carro e ficou olhando a fumaça que saía lá de dentro. O que fazer agora? Gelo tinha. Ovos também. Um pouco de queijo. O presunto estava passado. Quem sabe se ela aproveitasse aquele resto de azeitonas e o que sobrou da telentrega do almoço e criasse A Omelete da Mamãe? A única, a inigualável omelete mutante, resultado da combinação perfeita de sobras aparentemente incompatíveis. A Omelete da Mamãe tentaria inutilmente ser copiada por gerações. Jamais alguém conseguiria lembrar das quantidades e dos ingredientes exatos. “O que mais ela botava nessa coisa?”, todos se perguntariam.
A Omelete da Mamãe não passou de uma boa intenção porque os dois ovos que estavam na geladeira deveriam estar no lixo. Os restos do almoço foram esquentados com uma camada de queijo ralado por cima, para disfarçar. Mas em compensação, Claudia iria surpreender a todos quando colocasse na mesa Os Palitos de Orégano da Mamãe! Os únicos, os inigualáveis pedaços de pão cortados em formato palito, devidamente salpicados de orégano e azeite de oliva extra virgem, levados ao forno na temperatura ideal. Os Palitos de Orégano da Mamãe - nem tão crocantes, nem tão torrados - seriam lembrados por toda a eternidade ou enquanto ela não aprendesse alguma receita mais marcante.
Claudia queimou os dedos e serviu Os palitos de Orégano da Mamãe na sua travessa inox mais bonita, aquela que ela não via desde a festa do casamento. Foi quando o filho caçula fez um pequeno comentário:
-Tá viajando, mãe? Odeio orégano!

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