15 de set de 2008

Grávidos de uma avenca

A mulher foi direto ao ponto.
-Não tem planta em casa por quê?
-Falta de hábito.
-Ou de cuidado. Vi a quantidade de vasos abandonados na garagem – parece um cemitério.
-A senhora espionou nossa garagem?
-Vocês sofrem de infertilidade botânica.
-Imagina! Nós guardamos os vasos para um dia…
-… ter outra planta para renegar. Conheço bem o tipo.
-Como a senhora pode dizer uma coisa dessas?
-Vocês nem se deram ao trabalho de remover a terra mofada nas bordas dos vasos.
-Foi o Luis.
-É, mas não fui eu que afoguei uma samambaia quando era pequena.
-Sinto muito. O casal não está preparado.
-Nunca vi uma floricultura que não quer vender.
-O nosso slogan é claro: “se você tem o dedo verde, nós temos a folhagem!”
-Vocês são muito estranhos, isso sim.
-Eu chamaria de compromisso com a fotossíntese. Por isso visitamos as casas dos nossos futuros clientes.
-Ia ficar tão bonito um vaso na sala.
-Luis!
-Típico casal moderno. Acham que flor é quadro de parede.
-É bem mais barato.
-Luis!
-Foi você que falou, Ana. “Com o que custa essa tela dá para botar planta até no banheiro.”
-Uma planta indefesa no vapor do banheiro? A própria câmara de gás, seus nazistas.
-Viu, Ana? Eu falei para não escolher floricultura pelo guia telefônico.
-Eu queria tanto ver crescer uma plantinha.
-Quem sabe a gente compra outro peixe.
-Luis, eu adubo o meu útero se precisar.
-Se vocês quiserem muito, mas muito mesmo, só tem um jeito.
-Qual?
-Fazer o cursinho preparatório “Grávidos de uma avenca”.
-Não vai dizer que vou ter que trocar fralda de planta?
-Luis!
-E por que avenca? Não pode ser Comigo-ninguém-pode?
-Vocês vão aprender a diferença dos adubos, a mexer com a terra e a conversar com as plantas.
-Ih, a Ana vai tontear as coitadas.
-Chega, Luis. Essa casa está muito triste sem um verde.
E estava mesmo.
O casal frequentou as aulas, conheceu adubos e tipos de folhagens, treinou a molhar com regador e a colocar cascalhos embaixo do vaso para uma perfeita drenagem da água. Quando os dois se sentiram prontos, mandaram pintar um dos vasos da garagem. No dia da formatura, voltaram para casa com uma avenca recém-plantada.
Deviam ter matriculado também o cachorro. Um dia depois de terminar o curso, Brutus voltou da clínica veterinária. Comeu a planta. Revirou toda a terra no chão. Quebrou o vaso. Quase engoliu as pedrinhas decorativas. Luis e Ana só não se livraram do Brutus pela descarga, como fizeram com o peixe, para não gastar com encanador. Mas a pobre da avenca estava fadada a morrer de qualquer jeito. O vaso foi colocado por descuido no canto da sacada onde mais batia sol. Sol de torrar. E onde ventava muito. Ventania, pra dizer a verdade. Brutus fez até um favor para a planta.

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