4 de set de 2008

Revista Claudia Bebê 2007

O bebê finalmente dormiu. Eu também já estaria roncando, de roupa e tudo, se uma boca não viesse em minha direção. E ela não está sozinha. Junto se aproximam uma língua mal intencionada e duas mãos com os dedos abertos em forma de garra implorando por algum contato físico que lembre vagamente sexo.
Desde que o bebê nasceu, minha libido arrumou as malas e saiu de férias sem data para voltar. Minhas lingeries viraram um bando de rendas enciumadas que não aceitam ficar na gaveta enquanto eu peço ajuda a esse prático sutiã brancão que abre duas basculantes na frente, facilitando a vida para que meus seios saltem de três em três horas. Por uma ironia do destino esses mesmos seios, agora fartos e provocantes, são meros produtores de leite.
A boca do meu marido avança sugestiva em direção à minha nuca. Isso sempre funcionou, eu sei. Talvez eu tenha dado uma impressão errada até o sexto mês da gravidez, quando a bagunça hormonal me transformou numa tarada querendo sexo quase todos os dias.
Já passa da meia-noite, se tudo der certo tenho três horas até que o bebê acorde para a primeira mamada. Enquanto meu marido sussurra coisas provocantes no meu ouvido, eu me pergunto: como posso entrar no clima sem um vinhozinho na corrente sanguínea? Com o cabelo horrível desse jeito, o rosto sem maquiagem, a pele sem perfume. E, o que é pior, com a babá eletrônica ligada no volume máximo?
Desde o dia em que a ginecologista liberou geral, foi uma tentativa frustrada atrás da outra. Nosso bebê parece que não quer um irmãozinho tão cedo. Tem fome, manha, sono e faz de mim o que quer. É um desgaste, mas ao mesmo tempo me sinto a pessoa mais importante do mundo. As mães de primeira viagem mereciam uma hola de um estádio lotado cada vez que conseguem acalmar um bebê com cólica. Passo o dia ao seu redor trocando fralda, beijando seu pezinho, catalogando os tipos de choros – tudo isso é tão novo para mim. E, desculpe a franqueza, sexo conheço bem, já tive bastante nessa vida.
Sei que homem precisa de contato físico maior do que um braço roçando para alcançar a chupeta que caiu embaixo do sofá. Imagino que meu marido não se contente em me ver nua naquela fração de segundos quando entro ou saio do chuveiro. Se ao menos fosse época de Copa do Mundo e a TV o entretesse um pouquinho.
Acho que o corte da cesárea (por que tem que ser tão feio e grande?) marcou para sempre a minha personalidade. Esses dias tive uma idéia para um projeto de lei ou algo assim. A licença-maternidade poderia ter uma cláusula facultativa onde a recém-mãe se ausentaria das funções sexuais (sem dar maiores explicações) até o momento em que se sentisse mulher de novo - sexy, sensual, poderosa, sem barriga, o corte já cicatrizado e imperceptível, pronta para voltar para o trabalho e para a cama.
Quem sabe numa das tantas acordadas no meio da noite, após eu ter dado o peito direito, depois o peito esquerdo, e novamente o direito e o esquerdo, uma rapidinha não caia bem? Mas antes preciso me preparar psicologicamente para desligar a babá eletrônica e estar de corpo presente.
Ele não parece comovido com minhas olheiras e deita em cima de mim. Um papai-mamãe-filhinho-no-quarto-ao-lado??? Isso pode ser mais ousado que uma orgia com anões bezuntados. E se o bebê tiver uma apnéia enquanto eu gozo? Se ele entender o que está acontecendo e perder a voz para sempre? Se é que eu já não traumatizei o feto durante aquele surto de sexo nos primeiros meses, talvez ele compreenda que papai-mamãe precisam mais do que chocalhos coloridos para se divertir.
Minha irmã, guerreira mãe de gêmeos, diz que o jeito é relaxar e gozar. Desde que se tranque a porta do quarto antes. E na dúvida alguém levante da cama para conferir. Importante ressaltar que ela fala com autoridade - já foi pega no flagra e teve que explicar por que o papai estava lá embaixo “assoprando sua perereca”. Os dois só voltaram a transar de um jeito mais digno graças ao Rei Leão e à Lilo & Stitch. Hoje os DVDs infantis são comprados praticamente no dia do lançamento, o que faz os gêmeos terem um acervo maior do que muita locadora.
Hummm... deixa eu me concentrar um pouquinho. Parece que existe uma remota possibilidade do meu corpo acordar da hibernação. Ou nem tão remota assim. Olha o tesão tocando a campainha! Pode entrar, seja bem-vindo. E palmas para o meu marido, que sempre foi um cara persistente. Se ele não está ligando para esse cheirinho de leite azedo que já impregnou em mim, não sou eu quem vai ligar.

Um comentário:

Bia Backer® disse...

SENSACIONAL.
OBRIGADA POR ARRANCAR DE MIM AS PALAVRAS.