26 de set de 2008

Queria escrever de novo para Revista Estilo Zaffari

Escrevendo essa matéria, eu me senti meio jornalista, meio turista, meio falcatrua. Mas gostei do resultado.



Atenção: este é um texto cheio de palavras japonesas. Mas fique zen porque você não vai precisar de tradução simultânea. A idéia é justamente mostrar quantos japonismos já foram incorporados ao samba nosso de cada dia. E vice-versa.
Vamos começar com um passinho para cá, dois para lá: a palavra sushi dispensa apresentações e foi deliciosamente explicada na matéria de capa. Agora, cá entre nós, Manekineko pareceu grego para mim. Eu conhecia os simpáticos gatinhos mas não sabia que eles tinham esse nome. Amuleto típico do Japão, o Manekineko é um primo sortudo da Hello Kitty e possui diversas cores e significados: o gatinho manchado é o desejo de sucesso profissional, o preto atrai saúde e o dourado (adivinhe!) é riqueza na certa. Se o gato estiver com a patinha direita levantada, você vai encontrar um grande amor. Se for a patinha esquerda, prepare-se para receber bens materiais. Sim, os japoneses também são supersticiosos como nós. Vire a página e descubra que as semelhanças não param por aí.

O japão aqui

Enquanto os japoneses dormem no outro lado do mundo e sonham com celulares miniatura implantados no tímpano, o ocidente vive um dia-a-dia cheio de referências nipônicas e nem se dá conta. Se a palavra ocidente parece distante demais para você, esqueça a Europa e os Estados Unidos. Feche seus olhos e pense no Brasil.
Pedro Álvares Cabral ia achar uma piada se voltasse agora ao Brasil e descobrisse o nosso japa way-of-life. Nas praias, garotas com os cabelos presos com hashis revelam suas nucas tatuadas com ideogramas japoneses (eles continuam em alta nas melhores casas de tatoo do ramo). Nas baladas, essas mesmas mulheres surgem de cabelos exageradamente lisos por horas de escova, chapinha japonesa e progressiva - quem sabe tentando ser gueixas à procura de samurais nas pistas de dança.
No centro das cidades, lojas de departamento vendem filmadoras Sony, máquinas digitais Panasonic e DVDs que vêm com tudo – inclusive karaokê, o passatempo preferido dos japoneses. As empresas de locação para festas que o digam: o karaokê e suas pastas cheias de opções musicais animam desde aniversário de sete anos a jantar de gente grande. Apesar de eu não achar graça em ver a imagem congelada do Monte Fuji e a letra da música pulando na parte de baixo do vídeo, o povo se diverte e canta aos berros para então ganhar uma nota. Silêncio, alguém lá dentro da TV está pensando... seis e meio!! Parabéns, você é um excelente cantor de chuveiro!
Na hora do almoço, o feijão com arroz parece brasileiro demais. Melhor chamar um telesushi, passar por um sushi-drive ou descongelar um Yakissoba comprado no supermercado. Se a fome for pouca, um Miojo Nissin ou uma saladinha de cogumelos Shitake temperada com molho Shoyo resolvem o problema.
De tarde, adultos estressados fazem shiatsu no trabalho e idealizam um banho de ofurô no fim do dia. Já as crianças tomam Yakult com lactobacilos vivos e se divertem com a infinita quantidade de desenhos japoneses. Cavaleiros do Zodíaco, Yu-Gi-Oh, Pokémon e Samurai Jack agitam ainda mais os meninos. E para as meninas que amam a gatinha Hello Kitty, tem Ami e Yumi - inspiradas nas roqueiras japonesas mais pop da terra do sol nascente. Se tudo isso parecer coisa de criança, as adolescentes podem ligar a TV e copiar o modelito que a atriz japa-fashion Daniela Suzuki está usando. Os garotos vão preferir fazer origami com o cérebro de quem inventou essas bobagens e certamente irão escolher um videogame de lutas marciais. Ou ler Mangás – as histórias em quadrinhos japonesas que cada vez mais conquistam os brasileiros.
A moda ocidental há tempos reverencia estilistas japoneses como Kenzo, Issey Miyake, Yoji Yamamoto e Rei Kawakubo da Commes des Garçons. Quimonos e Obis vão e voltam nas passarelas, orientalizando os guardaroupas de tempos em tempos. A indústria da beleza também pede a benção aos lançamentos da Shiseido. E que brasileira seria kamikaze a ponto de ignorar as japonesas com sua pele alva e macia, a boca vermelha e pequena como uma cereja, o cabelo impecavelmente liso, os gestos delicados e o corpo esguio?
Apertando os olhos e forçando o foco no Rio Grande do Sul, descobrimos que o Japão também é aqui. Pegue seu Toyota ou Honda e vá até a Praça Japão, no coração de Porto Alegre. Ou o recanto oriental da Redenção num belo domingo de sol. Você vai ver muito gaúcho da gema tomando chimarrão misturado com chá verde. Faz bem para a saúde, sem dúvida. Mas virou moda. Quem preferir tomar mate no aconchego de casa pode escolher a poltrona perto da luminária japonesa e apoiar os pés num futon de seda. Ou então ir para a tranquilidade da sacada decorada com pedrinhas brancas e muro de bambus onde corre um fio de água da fonte presa na parede – opa, alguém andou vendo revistas zen e buscou inspiração nos jardins japoneses. Só falta um Bonsai no centro da mesa e carpas no aquário do banheiro.
Se antes eu achava exótico ter bala de algas para vender no supermercado, imagine agora que fazem no interior do Estado até campeonato de Sumô, a tradicional arte que surgiu no Japão há milênios. Por isso, minha amiga, pegue um saquê e faça um brinde a tudo de bom que vem do Japão. Desde, é claro, que os gafanhotos caramelizados permaneçam bem longe daqui.

O Brasil lá

Enquanto os brasileiros dormem e sonham com o final das CPIs, no lado de lá o Japão acorda e se prepara para outro dia de trabalho árduo – especialmente se forem os mais de 250 mil dekasseguis, descendentes de japoneses que largaram o Brasil para voltar à terra dos antepassados.
Mas não pense que eles só enxergam as linhas de montagem na sua frente. Depois de um dia puxado dentro das fábricas, nada como pegar a bicicleta e ir até o bar mais próximo tomar uma cerveja com os amigos. Se o assunto for futebol, a pedida é uma Brahma ou Antarctica (que atravessaram o mundo e continuam geladíssimas) e ficar conversando sobre a atuação do Zico, técnico da seleção japonesa de futebol. Quando o assunto terminar, os brazucas podem fazer como os nativos e apreciar as árvores de Cerejeira que florescem e formam túneis cor-de-rosa. A beleza é tanta que o garçom vai entender se você levantar o dedo e pedir “Salta um Haicai na mesa 3!” Em caso de fome, que venham o pastel e um churrasquinho de saideira.
Se mesmo bebendo ficar difícil entender o que eles falam, nada de pânico. Onde tem brasileiro, tem jeitinho para tudo. Um bom exemplo é o jornal semanal Tudo Bem, editado pela JBC – Japan Brazil Communication, que também faz a ponte aérea de mangás e livros. O jornal é escrito em português e vendido em mais de 400 locais, além da versão atualizada diariamente na internet. É um verdadeiro guia de sobrevivência para os conterrâneos que vivem no Japão e também um elo de ligação com o Brasil.
Site lembra internet, que lembra cybercafé, que dá uma vontade louca de tomar um cafezinho. Se você é como eu, movida a expressos e capuccinos, fique tranquila porque os japoneses já descobriram o kohi (do inglês coffee) e tomam o pretinho quente ou frio. É, aos poucos nós estamos invadindo a ilha. Já exportamos até manifestações culturais típicas como a festa de São João e, claro, o carnaval que no Japão se chama Matsuri e também enche as ruas de alegria. Quem sabe o próximo a cruzar o oceano é o Festival de Parintins – consigo imaginar os bois Caprichoso e Garantido dizendo arigatô no final.
Samba, música sertaneja, show do Supla e gente pulando com a Sandy e o Júnior pedem licença ao J Pop (como eles chamam o som pop nipônico) e arrancam bis da galera. E mesmo que os japoneses fabriquem ídolos na mesma velocidade com que produzem eletrônicos, sempre tem palco sobrando para o astral dos brasileiros. Até a Turma da Mônica enfrentou o jet lag para mostrar os planos infalíveis do Cascão e Cebolinha, o pêlo azul do Bidu e a gula da minha xará – aposto que a Magali deve ter adorado as melancias sem sementes que eles inventaram.
Nova Iorque ficaria com ciúmes se visse a quantidade de lojas que vendem produtos brasileiros nas ruas do Japão. Em algumas cidades, há placas em português e o brazuca way-of-life bomba nas vitrines. Falando em consumismo, nós parecemos o Tio Patinhas perto dos orientais. Pegue sua máquina digital e vá para os bairros de Shibuya e Harajuku. Você vai se sentir numa Disneylândia fashion - ou dentro de um Mangá-rave, quem sabe numa festa a fantasia de dragqueens. Imaginou algo excêntrico e bizarro? E é mesmo. Foi o jeito que a molecada encontrou para acabar com esse papo de que japonês é tudo igual. Quando a semana termina e eles tiram os sisudos uniformes do colégio, o negócio é se vestir de Anjo de Luto, Sailormoon da Sapucaí, Barbie-Pikachu, Gueixa Psicopata, Marilyn Shoyo Manson e curtir o domingo, cada um na sua tribo.
O Japão é assim, muita informação para assimilar. Ouvi dizer que tem japonesa colocando silicone no bumbum para imitar o nosso padrão estético. E não vou estranhar se a Ana Maria Braga ensinar a fazer cuscuz de sashimi no seu programa. O fato é que as culturas oriental e ocidental nunca se misturaram tanto. Viva a globalização que transformou o globo numa bolinha de pingue-pongue que a gente joga de lá para cá. Sophia Coppola que me perdoe, mas existem muito mais encontros do que desencontros com os japoneses.

Um comentário:

vera carneiro disse...

oi guria ! arranjei um recreio e vim bisbilhotar seu blog! bem na verdade sempre fico contente quando leio o que escreves. e lá se vão anos. vários....
mesmo na PP adoro ficar descobrindo seu estilo, sua marca ! lembro tão bem de tantas coisas da redatora da escala que agente sempre admirou a vida toda!!bacana mesmo !! e hj entendi um monte um monte mais : eu pressentia que a gente tinha algo me comum e não era free! descobri : librianas!!! beijos e sucesso sempre. vera carneiro