18 de set. de 2008

Persiana

O erro foi baixar a persiana. Se a claridade estivesse presente, não ia deixar aquilo acontecer. Não às três horas de um domingo de sol,depois de uma semana de chuva. O que era para ser um minuto de silêncio em homenagem ao cansaço, virou um cerimonial em grande estilo.
A cabeça encostou no travesseiro e os primeiros a pegar no sono foram os fios de cabelo. Os olhos focaram um bichinho caminhando no teto, desfocaram, focaram, desfocaram até que não viram mais nada. Ficaram sem saber se aquilo era uma mosquinha ou uma sujeira que sobreviveu à faxina.
A essa altura, os ossos já roncavam. O pé ainda acordado roçou no outro, pedindo uma meia quentinha. Ficaram os dois do jeito que estavam porque as mãos, que poderiam gentilmente fazer esse favor, estavam incomunicáveis embaixo do travesseiro. Os joelhos se espreguiçaram e convidaram as pernas a fazer o mesmo. Os braços se mexiam e falavam dormindo. O último a se entregar foi o ombro, que finalmente virou para o lado e levou todo o corpo junto.
Pensando bem, o erro foi colocar o pijama. A roupa não ficaria amassada, mas o mesmo não se podia dizer das bochechas. Cada milímetro da pele mimetizado com a fronha. Nem a campainha mais insistente do mundo, nem mesmo as ambulâncias com suas sirenes desbocadas, nem o mais barulhento dos vizinhos, nem um pesadelo intrometido, nada conseguiria impedir um pijama de dormir com sua respectiva dona.
Quem sabe o erro também tenha sido tirar a colcha da cama e entrar para baixo dos lençóis. O cérebro não conseguia registrar um rápido cochilo quando todo o meio ambiente evocava o sono profundo. Se os bebês podiam dormir às 3 horas da tarde, por que ela não? O colchão de molas parecia um grande berço que embalava para lá e para cá. O silêncio cantava baixinho nana-nenê.
O fato é que ela dormiu e sonhou. De lembrar do sonho. De babar no travesseiro. De acordar desorientada, sem saber se era dia ou noite. De sentir a boca seca e se confundir mais ainda. De não saber se levantava ou já ficava por ali mesmo. De pensar em ligar a TV e apagar de novo. De acordar uma hora depois e dizer para o corpo “levanta e anda” e ele fingir que estava dormindo.O sol se foi. O cansaço, também. E a persiana só levantou no outro dia.

Um comentário:

Elaine Pacheco disse...

Que texto gostoso de ler. Parabéns!