29 de abr de 2009

Divisão de bens

É engraçado como a gente acha que um casal só faz isso quando se separa. Estou dividindo o carro com meu marido (e nosso casamento vai muito bem, obrigada). É uma experiência nova, descobri que eu tinha um lado solteira depois de tanto tempo casada. Dentro do meu carro, eu ouvia as minhas músicas, separava o meu lixo, arranhava as minhas calotas, espalhava a bolsa e os casacos pela sala (leia-se bancos). Claro que criei manias, como qualquer ser humano que mora sozinho. Nunca dirigi de meias mas já troquei de sapato em plena sinaleira (bons tempos).
Um casal que sempre teve espaços automobilísticos separados sabe o que estou falando. Não é frescura, é preservação da espécie. Além da questão prática e utilitária. Locais de trabalho em pontos extremos da cidade, por exemplo. Depois que nascem os filhos e começa a gincana, ter dois carros é uma santa ajuda pra dar conta do recado. No nosso caso, nunca importou quem tinha o carro melhor. Com oito pneus, dobrávamos as forças. Nossas pernas e braços conseguiam terminar o dia com o máximo de tarefas cumpridas.
Agora que estamos dividindo o mesmo carro, tem que ter planejamento estratégico. Descobri que dá-se jeito para tudo, sem a ajuda de advogados. A embreagem fica comigo de manhã, o porta-malas é só dele à tarde. O bom é que a pensão pra gasolina diminuiu. Nossa família nunca esteve tão unida, literalmente. Para os filhos, não muda muito (acho eu). Para o casal, volta a ser um início da relação, quando algumas combinações precisam ser feitas. Fecha o xampu e a pasta de dentes, amorzinho. Ok, mas não esquece de colocar o banco do motorista pra trás senão eu não entro.
Isso me faz lembrar dos períodos em que nós ficamos sem carro, quando a grana era apertada, lá no início do casamento. Logo tudo melhorava e saíamos mais fortes da experiência (tão fortes que vamos completar 20 anos de casados). Tem horas em que a vida parece uma rotatória: a gente dá umas voltas em círculo, e quando consegue pegar a avenida principal vai que é uma beleza. De manhã eu sou a motorista da Carris. De tarde, sento na janela e aprecio a vista. Os bancos estão todos ocupados. Nossa família segue em frente, ninguém quer descer tão cedo.

3 comentários:

Lucia disse...

Que coisa boa este teu texto. amor aos fatos e a vida!

Cris Francioni disse...

Adorei! Uma vida em família que flui assim, aconteça o que acontecer, faz um texto assim.
Beijos e não esquece, por favor, de botar o banco pra trás no revezamento!

Lu disse...

Genial, adorei.
Beijos