30 de abr de 2009

Cota de sorte

Não foi dessa vez que eu ganhei um carro numa promoção. E eu mentalizei tanto. Passava pelos outdoors do shopping e mandava um saravá do bem. Aquele PalioWeekend ia cair do céu, direto na minha garagem!
Agora está comprovado cientificamente. Gastei toda a minha cota de sorte em sorteios de objetos que se locomovem graças a uma quermesse de colégio, quando ganhei a bicicleta mais poderosa da época: uma magnífica Monark Tigrão. Eu devia ter 8 ou 9 anos e saí da festa com o prêmio mais cobiçado de todos. Lembro da bicicleta no meio da sala, eu de pijama embasbacada.
Imagine o sucesso que a Monark Tigrão fez na praia. As primas e os irmãos aguardavam em fila para dar uma voltinha. Eu deixava, claro, mas lembrava a todos que aquela tetéia era minha. Naquele verão, eu fui a Paris Hilton de Imbé. Era coisa de rico ter uma bicicleta tão chique, e eu tinha ganhado!! Muitas piruetas nós duas fizemos no gramado na frente da casa da vó. A Monark Tigrão era roxa, ousadíssima, com o banco comprido e laranja. Praticamente uma Harley Davidson. Aquela, sim, caiu do céu.
Eu era inocente demais para entender que isso não acontece muitas vezes na vida. Para completar, logo depois meu pai ganhou uma Brasília verde-garrafa num sorteio de dentistas. Lá em cima, alguém deve ter cruzado os nossos nomes e descoberto o grau de parentesco. Me ralei na hora. Se eu ainda tinha alguma chance de ser sorteada com um carro no futuro, gastei o pinguinho restante de sorte por tabela.
Sigo de olho nas promoções. Quem sabe mudando de prêmios, eu reverta a situação.

29 de abr de 2009

Divisão de bens

É engraçado como a gente acha que um casal só faz isso quando se separa. Estou dividindo o carro com meu marido (e nosso casamento vai muito bem, obrigada). É uma experiência nova, descobri que eu tinha um lado solteira depois de tanto tempo casada. Dentro do meu carro, eu ouvia as minhas músicas, separava o meu lixo, arranhava as minhas calotas, espalhava a bolsa e os casacos pela sala (leia-se bancos). Claro que criei manias, como qualquer ser humano que mora sozinho. Nunca dirigi de meias mas já troquei de sapato em plena sinaleira (bons tempos).
Um casal que sempre teve espaços automobilísticos separados sabe o que estou falando. Não é frescura, é preservação da espécie. Além da questão prática e utilitária. Locais de trabalho em pontos extremos da cidade, por exemplo. Depois que nascem os filhos e começa a gincana, ter dois carros é uma santa ajuda pra dar conta do recado. No nosso caso, nunca importou quem tinha o carro melhor. Com oito pneus, dobrávamos as forças. Nossas pernas e braços conseguiam terminar o dia com o máximo de tarefas cumpridas.
Agora que estamos dividindo o mesmo carro, tem que ter planejamento estratégico. Descobri que dá-se jeito para tudo, sem a ajuda de advogados. A embreagem fica comigo de manhã, o porta-malas é só dele à tarde. O bom é que a pensão pra gasolina diminuiu. Nossa família nunca esteve tão unida, literalmente. Para os filhos, não muda muito (acho eu). Para o casal, volta a ser um início da relação, quando algumas combinações precisam ser feitas. Fecha o xampu e a pasta de dentes, amorzinho. Ok, mas não esquece de colocar o banco do motorista pra trás senão eu não entro.
Isso me faz lembrar dos períodos em que nós ficamos sem carro, quando a grana era apertada, lá no início do casamento. Logo tudo melhorava e saíamos mais fortes da experiência (tão fortes que vamos completar 20 anos de casados). Tem horas em que a vida parece uma rotatória: a gente dá umas voltas em círculo, e quando consegue pegar a avenida principal vai que é uma beleza. De manhã eu sou a motorista da Carris. De tarde, sento na janela e aprecio a vista. Os bancos estão todos ocupados. Nossa família segue em frente, ninguém quer descer tão cedo.

27 de abr de 2009

Estão demolindo duas casas na frente do meu trabalho. É uma rua que eu não frequentava antes, sou nova no bairro. Também desconheço quem morava ali. Mesmo assim, sinto tristeza ao acompanhar a cena. Não pelo espigão que certamente vai ser construído nos dois terrenos juntos. Eu fico pensando em tudo que já aconteceu nas casas, na vida que existiu lá dentro.
Quem são os urubus que andam de lá pra cá, garimpando sobreviventes para revender? As portas de madeira foram retiradas antes, de caminhão. Prefiro imaginar que saíram dignamente, como num transplante para salvar os órgãos que ainda têm utilidade. Talvez elas se transformem em um charmoso móvel de madeira de demolição e ganhem um novo lar.
As paredes não tiveram a mesma sorte. Estão definhando, virando pó. Justo quem sustentou o telhado da casa recebe marretadas. Um dia elas foram quarto, sala, cozinha, banheiro, varanda. Separaram andares e brigas. Presenciaram almoços de domingo, a família voltando de férias (com saudade da casa), os namoros no sofá, tantos aniversários e natais, choro de bebê. E agora parecem esqueletos. As calçadas, varridas incontáveis vezes, estão imundas como o contêiner do telentulho. Em um dos pátios, sobrou uma árvore. Se eu fosse ela, fugiria antes que viessem os tapumes da obra.
Gosto de passar na frente dos lugares onde já morei. Eles representam fases diferentes da vida, contam parte da minha história. Tomara que eles sigam como eu, de pé.

Conserta-se

Comprei uma caixinha de ferramentas para guardar a maquiagem. Achei perfeito: ali dentro tem tudo que preciso pra consertar o rosto. Me sinto uma encanadora de olheiras! Não tem furinho na pele que eu não arrume. A caixa é tão masculina por fora e tão feminina por dentro. Um contraste interessante, sem falar no preço, que foi ridículo. Meus pincéis agora podem se espreguiçar à vontade. E eu tenho tudo à mão, do mesmo jeito que os homens habilidosos separam os parafusos dos pregos. O olhar tá apagadinho? Abro a caixa, pego o iluminador e pronto! Vazamento de rímel, nariz com brilho - dá vontade de consertar até as espinhas que surgem no rosto do meu filho (nem pensar, eu seria apedrejada.)
Na verdade, eu quis imitar os maquiadores profissionais e suas caixas megaequipadas. Aquilo, sim, é uma ferragem completa. Não há tom de sombra que não se encontre lá dentro. Em todos os sets de filmagem que já acompanhei na vida, uma parte gostosa era espiar os apetrechos dos maquiadores. Quantos pincéis e batons, um paraíso! Dá pra transformar Betty, a feia, na Miss Venezuela. E aquelas esponjinhas, cheias de truques! Eu sempre sonhei em sentar na cadeira deles, fechar os olhos e gritar "Aaaação!". Já consegui dicas preciosas, mas não é a mesma coisa. Ainda vou fazer um curso de make, só por desaforo.
Nesse fim de semana, também cortei e pintei o cabelo. Dessa cadeira, eu sempre saio feliz.

24 de abr de 2009

Cartela de cores

Não é fácil ser a única mulher da casa. Quando meus filhos resolvem reparar na roupa que estou usando, é sempre por causa do erro (na visão deles), não pelo acerto. E o engraçado é que os comentários são dirigidos ao clube do bolinha. É como se vissem algo tão fora de propósito que precisassem compartilhar com seus semelhantes.
Hoje de manhã, passei na sala e ouvi um dizer ao outro: “Toda de preto e bolsa branca?!!, olha ali...”. Tive que rir. Gosto de pensar que, de certa forma, estou contribuindo para abrir a cabeça deles. Na vida, é melhor surpreender do que passar em branco.
Minha autoconfiança raramente é abalada, mas já troquei de roupa por causa de um comentário direto e objetivo: “Tu vai assim, mãe???”. O único Stella McCartney que comprei na vida foi tachado de colete de jogador de futebol. E não saiu mais do banco de reservas.
Meu marido reclama dos decotes, principalmente. Ou do All Star do fim de semana: “Pra nós, tu não usa salto alto?” E, como todos os homens, às vezes ele se perde na linha do tempo. Acha que é nova uma roupa que já usei antes, pensa que é velha uma aquisição recente. Eu entendo. Quando o assunto é roupa, só o espelho me entende.

23 de abr de 2009

Ânsia de vômito

É o que eu sinto ao ler sobre a farra das passagens aéreas (e tantas outras). Que vergonha de ser brasileira e conviver com esse tipo de notícia. O que a gente explica pro filho, que vai acabar perguntando que barraco é esse? Roubalheira, querido. De novo. Do nosso bolso. Sabe os deputados e os ladrões de rua? A mesma coisa. A diferença é que uns assaltam de terno e gravata, os outros são mais honestos - têm cara de bandido e vão logo mostrando a arma.
Já que o assunto é viagem internacional, dá vontade de juntar a família e pegar o primeiro voo pra Nova Zelândia, bem longe daqui. E não voltar tão cedo. Uma pena, mas o dinheiro que eu ganho só dá para contribuir com as passagens desses filhos da puta.

22 de abr de 2009

O que eu faço agora?

Seguido eu colaboro com a revista Claudia na Seção O que eu faço agora? São perguntas enviadas pelas leitoras, pedindo ajuda para sair de situações saia-justa. Os assuntos variam. Já respondi sobre sexo, trabalho (e os dois juntos), casamento, filhos, vaquinha pra comprar presente de um colega que você não simpatiza e outros dilemas modernos. Quer um exemplo? O que dizer para o mala que pede pra furar a fila do caixa do supermercado, bem na sua frente. Minha resposta foi mais ou menos assim: “Diga que não vai dar, a sogra está indo para sua casa e você (olha pro relógio) tem 5 minutos pra chegar antes e arrumar as camas.”
E agora uma dessas saias-justas aconteceu comigo. Estou com um caroço de manga atravessado na garganta. Pensei em mandar a pergunta, mas como a revista pode devolvê-la para mim, já tenho até a resposta.
Fiquei sabendo que minha vizinha (nossas portas são coladas, veja bem) assediou minha amada Dodô, que cuida da gente há 13 anos. E não foi só uma vez.
-E aí, quando tu vai mudar de porta?
Uma cantada dessas equivale a passar a mão na bunda com toda vontade!!! Fiquei furiosa. Esse tipo de baixaria devia ser proibido pelo estatuto do condomínio.
Aqui está a resposta, só esperando a primeira oportunidade:
-E aí, também vai perguntar pro meu marido se ele quer mudar de porta?
Vou falar isso na frente do marido dela, para a saia rasgar de tão justa. Lembrei da recomendação da querida Sibelle, editora da Claudia. “Tem que ser uma resposta que as leitoras realmente possam usar, hein?” A resposta é usável, só preciso tomar um litro de uísque antes.

Potelândia

Quando a indústria do sorvete colocou o primeiro sabor (creme, provavelmente) num pote de dois litros, as mulheres nunca mais foram as mesmas. Depois fez isso com o flocos e o morango. Aí dividiu o pote meio a meio. Sucesso. Viu que cabia o terceiro sabor e empotou o napolitano. Hoje se exibe com o quadriculado (imagine um tabuleiro de xadrez, feito com chocolate e creme). O problema não é o sorvete, mas o pote. Ele vicia mais que açúcar. Eu, talvez por uma disfunção genética, passo incólume*. E jogo o pote no lixo seco (para horror da minha mãe). Devo ser aquele 0,000001 das pesquisas. Muito antes do lançamento, quando os kibons se perguntavam se os consumidores pagariam mais caro pelo sorvete em pote, algum marketeiro disse “claro que sim! E depois vão guardar alface limpa lá dentro!”
Conheço mulheres que guardariam seus diamantes num pote desses (não é perfeito para despistar ladrão?). Elas não conseguem se desfazer dos potes, ficam descobrindo novas utilidades e ensinando umas às outras. Guardam tesoura e linha, aposentando a charmosa caixinha de costura. Guardam canetinha dos filhos, bijuterias, mantimentos, parafusos dos maridos, fotos antigas, o Omo da casa da praia (viu como assim ele não fica úmido?).
E dê-lhe engordar a indústria do sorvete. Num golpe de mestre, os kibons pediram que algum designer inventasse o pote de inox para “esconder” o deles dentro. Bingo! As mulheres acharam aquilo um desperdício. O pote de plástico virou cult. Se alguém comprou o esconderijo de inox, só usa em dia de festa (quer dizer, usaria, mas acaba encomendando uma torta). Os terríveis potes de sorvetes desafiam a estética e seguem sendo levados à mesa com toda pompa e circunstância. Gulosas, as mães e avós servem bolas cada vez maiores, salivando só de pensar em lavar o pote e aumentar sua coleção. E os armários da cozinha vão criando barriga, de tanto pote. Onde isso vai parar, eu me pergunto. No pote-beliche, que vem com escadinha?

*Passo incólume porque já tenho potes suficientes. Alguém tem que manter viva a indústria do Tupperware.

21 de abr de 2009

Senso de raridade

Estou sozinha em casa. Isso é tão raro. Às 18:23 de um feriado de terça, ganhei a posse (momentânea) do meu espaço. Daqui a pouco, todos vão voltar. Eu podia me jogar na cama, na geladeira, no telefone, no chuveiro. Escolhi me jogar no blog. O silêncio, se bem aproveitado, vira uma festa surpresa. Deixei uma luzinha iluminando o notebook. O único barulho vem do teclado. Uma casa cheia de vida também sabe apreciar a calmaria.
Não que eu goste de solidão, mas às vezes é bom ficar quieta. Ainda mais depois de um dia gostoso como esse. Mal saí de casa. Acordei tarde, afofei os filhos, revi um dos meus filmes preferidos na TV, namorei a casa e o marido. Foi daqueles dias em que, teoricamente, não fiz nada. N-a-d-a. Deixei as horas me levarem. Se fosse um Spa Day, alguém ia apresentar uma conta bem alta por tanto relax.

20 de abr de 2009

Câmera lenta

Acabo de ouvir um bocejo contagiante. Definitivamente, eu não sou a única em câmera lenta hoje. Pelo tamanho do bocejo, meu colega deve ter se espreguiçado também. Trabalhar numa segunda que vem depois do fim de semana e antes do feriado requer um esforço extra. A concentração existe mas é como uma antena externa em dia de vento, balançando pra lá e pra cá.
Apesar da preguiça mental, consigo produzir alguma coisa. Sorte que não sou médica cirurgiã, senão eu esquecia a tesoura dentro da barriga de alguém. Se eu fosse operária de chão de fábrica, hoje voltava pra casa sem um dedo. Hummmmm. Casa! Até terminar o expediente, melhor não fazer movimentos bruscos. Nem o café surte efeito, parece leitinho morno que pesa os olhos. E tem o sol lá fora, se esticando todo pra me alcançar.
A minha bolsa daria um excelente travesseiro, amontoadinha em cima da mesa. Lembrei da época do colégio, lá nos antigamentes, quando a profe pedia pra gente esperar o sinal bater com a cabeça apoiada em cima do braço. Eu, sempre apressadinha, deixava as pernas em posição de largada, um dos pés já no corredor da sala, louca pra ser a primeira a sair. Aqueles segundos de relaxamento iam por água abaixo no momento em que o sinal batia. Era um horror de crianças tropeçando porta afora. Ai, por que lembrar disso agora? Só pra dar vontade de fazer o mesmo.

Oito e três

Acordei e levei um susto. O despertador marcava oito e três da manhã. Como assim o alarme não tocou??? Pânico. E agora? Meus filhos já deviam estar na aula há tempo. A casa inteira dormia. O cérebro não raciocinava, só roncava. Minhas pernas não se mexiam, eu tentava traçar um plano de ação pra todo mundo estar no elevador em cinco minutos. Escrevia bilhete na agenda deles? E os lanches, os casacos? Eu ia de pijama mesmo? Será que era dia de prova no primeiro período? Fiquei tão nervosa que nem a voz saía pra gritar ACOOOOOOORDEM!
Foi quando meu marido disse “Magali, hoje é domingo”. Na hora lembrei de um comercial que fiz pra Renner, e-xa-ta-men-te assim. Tive que rir. A atriz pulou da cama e vestiu o jeans, eu paniquei e nem isso consegui. A intenção que os dois homens falaram a mesma linha de texto foi igual, a diferença foram nossos nomes: Marina e Magali, duas mosconas. Voltei a dormir, como a atriz. Sem cachê, mas com uma atuação bem verdadeira.

17 de abr de 2009

Tempos de simplicidade

Dica de maquiador profissional: pra tirar a maquiagem dos olhos, incluindo rímel à prova d’ água, nada melhor do que ir pra baixo do chuveiro e esfregar os olhinhos com Shampoo Johnson’s Baby Chega de Choro. Não é genial? Finalmente uma dica simples e condizente com os tempos atuais. Faz anos que eu uso no rosto um produto irmãozinho dele, o Higiapele, aquele de limpar bundinha de nenê. Se é bom para a pele mais delicada do mundo, é bom para a minha. Agora vou experimentar a dica do shampoo – no bolso não arde, tomara que nos olhos também não.
Em várias matérias de beleza, tanto em revistas como em sites femininos, tenho notado que os editores estão incluindo produtos mais acessíveis. Tem esmalte Chanel, mas tem o lançamento da Risquè. Tem leave-in importado junto com o amigão Seda. Também li que as bem-nascidas preferem o velho spray Karina nos cabelos. É o estilo Hi-Lo invadindo as nécessaires do topo da pirâmide.

16 de abr de 2009

Coisa de louco

Acabei de ler algo muito verdadeiro: a síndrome da comparação social é a nova doença do século. É aquela velha história da grama do vizinho. Antes fosse só a grama. Agora é o carro, o apartamento, a viagem, o emprego, a empregada, o celular, as estrelas do hotel, a festa de aniversário do filho. Daqui a pouco vão comparar quem aparenta ser mais feliz – e já que o negócio é aparência, algum louco ainda vai inventar a plástica que deixa o rosto bem-sucedido (cara de Roberto Justus?).
Um século que mal começou já tem uma praga dessas. Quem vive comparando e se comparando não pode viver bem, por mais que escove os dentes numa pia de ouro – podia ser cravejada de diamantes, né? Se gentileza gera gentileza, infelizmente comparação também gera comparação. Socorro! Manda internar.

Força

Estou convencida: não dá pra perder a esperança. Pra cada dia ruim, vem um bom (ou uma notícia tão boa que vale por um dia inteiro). O segredo é entender que essa compensação pode demorar um pouquinho pra acontecer. Mas acontece. É como um equilíbrio natural, senão a gente enlouquece de vez.

15 de abr de 2009

Susan Boyle

Eu já tinha visto o vídeo no Youtube e agora está no Terra. Uma aspirante à cantora dá um tapa de luva nos jurados e em toda a plateia num show de talentos britânico. O vozeirão de Susan Boyle foi tão inesperado porque sua aparência não condizia. Esquisita e feiosa, ela foi recebida com risinhos debochados e aguentou firme (não deve ter sido a primeira vez). Quando disse que tinha 47 anos e ainda sonhava em ser cantora, aquilo soou como piada de stand-up comedy.
Só que, às vezes, a vida é bem justa. Susan Boyle começou a cantar e calou a boca de todo mundo. Foi aplaudida de pé. O preconceito do início virou pedidos de desculpa na saída. Eu não gosto desse tipo de programa, mas adorei a atuação da mulher.

14 de abr de 2009

Que saco botar gasolina

Não foi dessa vez que eu fiquei sem gasolina. Mas passou raspando. E olha que eu não era assim. Sempre tive medo de ficar na mão. Numa rua deserta, numa noite de lua cheia. Quando eu via alguém com aquela sacolinha plástica buscando combustível com cara de resignado, eu pensava: coitado!!
Coitado, nada. Nos carros de hoje, não tem como ser desligado. A luz acende, o dispositivo apita, o chassi fala "eu avisei, hein". Tirando falta de dinheiro, que ninguém tá livre, a causa geralmente é (com o perdão do trocadilho) autoconfiança. Quem carrega a sacolinha plástica confiou demais no próprio taco. Achou que dava pra ir mais um pouco. Só uma quadra. Mais uma. Levou fé na rua seguinte. Dobrou a esquina e o carro não apagou. Resmungou que esses marcadores nunca marcam direito. Deixou pra abastecer na volta. No dia seguinte.
Minha outra teoria é que colocar gasolina é muito chato. Tipo passar fio dental. Ou pegar correspondência. Tem horas em que o ser humano se rebela.

Enrolarada (a manhã e eu)

Para a minha vó, salmora curava quase tudo na vida. Um copo de água, um punhado de sal e pronto. Se era compressa ou gargarejo, não importa. Ela acreditava no poder do sal e, pelo menos para mim, isso era mais do que suficiente. Com a vó preferida cuidando da gente, quem não ia ficar curado de tudo?
Lembrei dela agora, vendo esse dia lindo. Hoje eu deixo o sal pra salada e recomendo o poder do sol. Não dá pra ficar triste com um céu azul e o sol chamando lá fora. As preocupações que fiquem pros dias nublados (e que até lá, a gente esqueça o que estava nos preocupando). O sol foi feito pra contagiar e passar boas energias. É um recarregador que dispensa fio e tomada. Ninguém esquece de carregar o celular, né? Com o sol e com as pessoas, também devia ser assim.

13 de abr de 2009

Surpresas boas da vida

Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz. Voltamos da praia com a mala cheia de planos, além dos chocolates. Essa Páscoa vai ser lembrada pra sempre como o feriado em que a gente, assim do nada, comprou uma casa na praia. O condomínio Casa Hermosa era a pimentinha que faltava na nossa família. Começou com uma curiosidade por esse novo formato de verão – principalmente acompanhando o blog delicioso do meu amigo Claudio Franco, futuro vizinho do Pacific (tá na minha lista de blogs, vai lá).
Com tanta infraestrutura e segurança, não tem como não se entusiasmar. Os pés no chão (numa grama bem fofinha) e a cabeça na planta baixa, no estilo dos móveis, no pátio que eu vou ter o prazer de transformar no lugar mais lindo da casa, cheio de mimos e paisagismos. Acho que nenhum ácido retinóico vai fazer tanto pela minha pele nos próximos 2 anos e 8 meses. Essa contagem regressiva vai unir nós quatro ainda mais. Que venha 2011 e encha a nossa nova casa de amigos e alegrias.

9 de abr de 2009

Operação porta-malas

E eis que surge mais uma oportunidade de eu fazer, pela primeira vez na vida, uma mala SÓ com o necessário. Vamos esperar o coelho na praia. Então hoje à noite tem função.
Olhei a previsão do tempo e não vai nevar. Nem sinal de frente fria. Consequentemente, um moletom pra cada um está mais do que bom. Depois de tanto calor, sentir o ventinho de final de tarde na praia é tão gostoso quanto os chocolates que irão escondidos em algum lugar. Meu filho já disse que está louco pra dormir com cobertor. Multiplicando essa informação por quatro membros da família, ferrou.
Como faz tempo que não vamos para lá, preciso levar travesseiros, roupa de cama e de banho - além das roupas (sempre com os extras, tipo DVD). E as cadeiras de praia (o protetor!). As raquetes de frescobol. Uma ou duas bolas de futebol é certo. Um kit básico de geladeira – vamos chegar quase na hora do almoço da sexta-feira santa, sendo que eu sou a cozinheira contratada. Não posso esquecer os livros e revistas (pra ler na rede). E a supermega nécessaire, capaz de transportar xampu, cotonete, sabonete, algodão, perfume, escovas de dente, desodorante e meus cremes. E uns brinquinhos. Alguma maquiagem, quem sabe.
Mudando de segmento, um chinelo e um tênis para cada um – vezes quatro. As mochilas com brinquedos que eles nem vão abrir (ainda bem que passou a fase da banheirinha e do carrinho de bebê). A chave da casa. E a torradeira, será que precisa levar? Os dois notebooks vão ou não? Claro que estou esquecendo algo.... a digital!! E o carregador de bateria. Dos celulares também.
Bom, se eu não levar o Tylenol gotas e o termômetro, acho que cabe tudo no porta-malas.

Moda e estilo

Li no Terra sobre uma pesquisa feita pelo canal The Style Network, falando que o auge do interesse feminino pela moda acontece entre 25-30 anos. Depois, isso deixa de ser prioridade. Discordo. A gente leva esse interesse até o túmulo. Qualquer uma de nós sabe que dá pra conciliar o espelho com maternidade, carreira e tudo mais.
Com raríssimas exceções, mulheres passam a vida toda ligadas em roupas, sapatos, bolsas e acessórios (fora cabelo e maquiagem). Não necessariamente o que ditam as passarelas e as revistas, mas o que se usa nas novelas, nas ruas e principalmente na roda de amigas. Menininhas que mal sabem ir ao banheiro sozinhas já escolhem que roupa querem vestir. Isso não é birra com a mãe, é uma atração natural com os cabides. Para elas, um guarda-roupa cheio de cores e estampas parece uma grande caixa de Lego, cheia de pecinhas pra montar.
Depois dos 25-30 anos, talvez a grande mudança de interesse seja da moda para o estilo. Um upgrade, na verdade. Nossos critérios já estão desenvolvidos, temos mais segurança e jogo de cintura. Leva mesmo um certo tempo até descobrir (e aceitar) o que funciona melhor no corpo. A quilometragem na frente do espelho faz toda a diferença. Essa mesma pesquisa fala que as mulheres gastam mais de uma semana por ano com ele. Eu diria que não gastam: investem. E se for mesmo só uma semaninha, estou para dizer que é uma das mais divertidas do ano.

8 de abr de 2009

Vai pela Ipiranga

Quando ando de táxi, eu dou o trajeto. Isso sempre acontece. Já tentei ficar quieta e deixar rolar, pra ser surpreendida por um caminho melhor. O que posso fazer se a sequência de ruas sai da minha boca? É automático como mudar de marcha.
Nunca ensinei um padre a rezar, até porque não vou na igreja. Mas posso me gabar de já ter ensinado bons atalhos para taxistas. Uns bufam, outros elogiam. Deve ser mania de quem está acostumada a sentar no lugar do motorista. Depois, em agradecimento, eu falo sobre o tempo e ouço sobre o futebol. Acho divertido conversar com alguém que não faz parte do meu dia a dia. Aliás, alguns taxistas dariam excelentes psicólogos. Eles, em especial, podem analisar essa minha necessidade incontrolável como o gostinho de ter o controle da situação. Ou autoritarismo intrauterino mal resolvido. Peraí, gente. Também pode ser uma grande facilidade de se relacionar com as pessoas. Dar o trajeto para o taxista é um belo gancho para puxar papo.

7 de abr de 2009

Ode ao grafite

Adoro apontar lápis. Na minha casa, tem muitos deles. Não posso ver uma ponta gasta que vou lá e .......zaaaaaapp. Depois que compramos um apontador elétrico, nossa, fiquei mais viciada ainda. Se vejo um estojo dos guris dando sopa, chego a salivar. Claro que 87% das pontas vão estar detonadas. Melhor ainda se for o estojo com os lápis de cor. Infinitos tons suplicando por uma pontinha afiada. Desconfio que meus filhos já perceberam essa tara e se aproveitam, deixam os estojos à mostra para não terem o trabalho de apontar.
O barulhinho do apontador elétrico mexe comigo. E tem toda uma ciência, não pense que é enfiar o lápis e pronto. É quase isso. Mas se deixar por muito tempo, ele fica pontudo demais e quebra fácil. Eu já peguei a manha. Sei o exato momento de retirar o lápis. As pontas ficam per-fei-tas. Quando eu era criança, adorava brincar com as florzinhas que sobram do apontador. Eu apontava os lápis em cima de uma folha branca só pra depois espalhar com o dedo os farelinhos de amarelo, azul, lilás, vermelho – ficava lindo. Ainda bem que a minha mãe nunca comprou um pontador elétrico para mim. Eu poderia ter virado uma ameba. Sem trabalho, sem família, sem futuro, sem perspectivas. Só apontando.

Tremor e terror

Tem coisas que é melhor nem pensar. Imagina se alguém como eu, que ainda não conhece a Itália, tenha passado todo 2008 economizando para, finalmente, botar os pezinhos em Roma. Bem nessa semana. Aí, querendo conhecer ao máximo a região, decide circular pelos arredores e faz um pit-stop em L´Aquila em pleno terremoto. Que azar, hein. Vai culpar quem, a agente de viagens?
Alguns anos antes do atentado às Torres Gêmeas, eu estava em Nova Iorque quando houve uma ameaça de bomba no Empire States – na hora H, caminhava a poucas quadras dali. E poderia muito bem ter reservado a tarde para apreciar a vista lá de cima. Foi por um triz.
Voltando ao terremoto da Itália, quantos turistas não deram o azar de presenciar a tragédia ao vivo? E as pessoas, que seguiam suas vidas alheias ao turismo da região? Fiquei comovida com a mãe que morreu abraçada aos dois filhos pequenos, encontrada no que sobrou da sua cama, com eles. Quem tem filhos sofre por tabela. Será que deu tempo para ela entender a gravidade da situação? Será que conseguiu acalmar as crianças? Nosso instinto de proteção deveria ser mais eficiente numa hora dessas.

6 de abr de 2009

Na hora certa, no lugar certo

O que faz uma pessoa estar na hora certa e no lugar certo?
Acaso? Sorte? Destino? Provavelmente uma mistura dos três. Ou isso é apenas um pensamento romântico. O suposto sortudo pode alegar que de sorte e de acaso não teve nada: foi ele quem deu um jeito de acertar o relógio e descobrir onde era o tal lugar. Não tiro o mérito de ninguém, mas acho que existem pessoas mais rabudas que as outras. Independente do esforço envolvido.
Lembrei daqueles cofres boca-de-lobo, com o aviso de que não é bem assim pra abrir. Talvez as oportunidades surjam dessa maneira nas nossas vidas. De tempos em tempos, aparecem umas portas que abrem e fecham, programadas como a abertura dos cofres. Se estamos num bom momento, nem percebemos essas portas – e nem precisa, a última coisa que se quer é sair. Mas quando daríamos tudo por uma fresta aberta, o sincronismo nem sempre acontece.
Sorte é perceber que a porta abriu. Ou ter um machadinho à mão pra abrir caminho.

Crise de abstinência

Entendo o que a Amy Winehouse sente quando está no rehab. Não compro roupa há meses. Sinto falta das sacolas, daquela novidade que entra no guarda-roupa e causa ciumeira nos cabides. Meus braços ficam trêmulos só de pensar em pulseiras. O corpo tem suadores se imaginando num vestidinho novo.
Racionalmente, não preciso de nada. O problema é que não consigo ser racional. Saia de mim, exu do varejo. Quero casaquinhos, casacões, bolsas, cintos, lingeries, acessórios pro cabelo. E lenços. Um All Star novo. Maxi bijus, também – eu mato por um bom acessório. Qualquer hora dessas faço uma bobagem: os xadrezes me tentam a cada vitrine. A técnica de evitar shopping center já não está funcionando. Por fora, eu disfarço bem. Por dentro, estou num provador. A um passo de comprar botas. Por qualquer coisa de couro que tenha salto alto, eu me incomodo em casa.

2 de abr de 2009

Já é Páscoa na crônica do Bourbon Shopping

O segredo da Páscoa

Sabe por que os pais dão ovos de chocolate para os filhos, mesmo depois de crescidos? É um plano infalível. Ou pode chamar de troca justa. Chocolates por um pedaço a mais de infância. Só um pedacinho, vai.
Tudo é planejado desde o exame positivo de gravidez. Os pais se olham e chegam à fatídica conclusão de que, um dia, aquele grãozinho que aparece na primeira ecografia vai crescer e virar gente. Pior, vai ser adulto. Então os pais se antecipam e o plano começa a engatinhar. A Páscoa é sempre uma bela oportunidade de prolongar a inocência e suas risadas infantis.
Quando os filhos são pequenos, a gente ensina a acreditar no coelhinho. Cria um contexto lúdico e fofo. Faz pegadas de farinha pelo chão. Deixa a cenoura na janela (se tiver rede de proteção, como lá em casa, melhor facilitar a vida do coelho e evitar questionamentos pendurando a cenoura do lado de fora da rede). E na véspera do grande dia, despertador ligado - que medo de não acordar a tempo para os últimos preparativos!
Com esses recursos cênicos, é possível perpetuar o ritual. Que outra explicação para um pai que já passou dos cinquenta esconder ovos embaixo do sofá, correndo o sério risco de sentir uma pontada na coluna? Talvez seja o laço sanguíneo, mais que o laço de fita na embalagem, que faça os filhos crescidinhos procurarem o ninho pela casa. E muitos já sabendo, ano após ano, onde ele foi escondido.
Adolescentes, solteiros, casados, descasados - na Páscoa, todos os filhos voltam a ser criança para o encantamento dos pais. Uma caixinha de bombons é sempre uma carta na manga. E nesse plano infalível, o chocolate tem papel fundamental. Quanto maior o ovo, mais o filho entra na brincadeira. É como se a gente conseguisse parar o tempo. Bendito cacau e suas variações com leite, avelãs, nozes, castanhas e amêndoas. Se beijo de filho já é uma delícia puro, imagine com esses acompanhamentos.
Por isso os pais compram ovos e mais ovos. Não faz sentido tanto chocolate, a não ser para usar como moeda de troca. Tudo para ter nossas crianças por muitas e muitas Páscoas.

Nesta data querida

No dia do nosso aniversário, a gente deveria acordar com alguma coisa diferente no corpo. Talvez a cor da pele fluorescente. Algo que chamasse atenção por 24 horas e fosse um código universal pra receber beijos e abraços. Nas ruas, os estranhos poderiam buzinar, acenar com parabéns.
Mesmo os que não gostam de festa e preferem cumprimentos mais discretos, no fundo, no fundo, querem ser lembrados. É bom receber uma ligação atrás da outra (melhor ligar cedinho, não tarde da noite). E muito cuidado pra não deixar o aniversariante almoçar sozinho. O dia de todo mundo vai chegar, então convém caprichar com quem nasceu primeiro. Quando chega aquele clássico e-mail avisando que a colega do trabalho está de aniversário, por favor, levante da cadeira e dê o cumprimento pessoalmente. Quem acaba de ficar mais velho merece, no mínimo, consideração. O problema é que a gente deixa passar essas oportunidades de dar calor humano de presente. Esquece de ligar, deixa recado, responde o e-mail com um basiquinho feliz aniversário, fica com vergonha de cumprimentar atrasado. O dia a dia pode ser corrido, mas não vale ignorar O dia de alguém.